D. Nuno: Que a nossa fé não esmoreça apesar das condições singulares em que se celebra a Eucaristia 

Foto: Duarte Gomes

No IV Domingo da Quaresma, também chamado de domingo da alegria, D. Nuno Brás voltou a presidir à Eucaristia na Igreja do Sagrado Coração de Jesus (Boa Nova), transmitida em direto pela RTP-Madeira.

Depois de terem sido suspensas as celebrações comunitárias das Missas, esta foi a forma que o prelado encontrou para estar mais próximo dos cristãos da Diocese do Funchal num tempo que, “apesar de todas as preocupações”, também nos convida à alegria. A “alegria de percebermos que o Senhor está próximo de cada um de nós, nos ama e nunca nos abandona”, disse. 

Apesar daquilo a que chamou “condições singulares” de celebração da Eucaristia, o prelado desejou que “nem por isso esmoreça a nossa fé, bem como a comunhão que vivemos uns com os outros e que nasce da nossa união com Jesus”.

Na homilia, D. Nuno Brás refletiu sobre como Cristo nos leva a superar as cegueiras que nos impedem de ver corretamente o valor das pessoas e avaliar com justiça as nossas decisões. E sobre como precisamos da luz de Cristo para olhar o outro com os olhos da fé e agir como verdadeiros cristãos.

“Toda a liturgia deste IV Domingo da Quaresma é marcada pelo “ver”. E isso significa, para todos, o convite a nos deixarmos interrogar e confrontar por esta palavra de Deus. Como é que vemos? O que significa para nós “ver”?”, começou por questionar, para logo acrescentar que “Deus não olha às aparências”, como nos dizia a Iª leitura. “Ao contrário dos homens que julgam pelas aparências, Deus vai além daquilo que é exterior. Ele conhece. Conhece a verdade de cada um e de todos”, frisou.

“Não raras vezes vivemos a partir das aparências. O nosso mundo vive a partir das aparências. Cuidamos delas como se fossem a realidade central, disse ainda o prelado, para quem “o mundo em que vivemos é um pouco como no cinema. Existe o cenário: as casas parecem casas; o mar parece mar; as grandes tempestades parecem tempestades — mas, na realidade, são casas feitas de cartão; o oceano é uma pequena poça; as tempestades são filmadas num copo de água. E os sentimentos, a vida e a morte, tudo é fingido, representado por um actor”.

Acontece que “passados os momentos em que quase estamos dentro do ecrã e da acção, tudo desaparece. Assim é o mundo em que vivemos — ou, pelo menos, aquele em que vivíamos até há alguns dias… Parecíamos os donos deste mundo; parecia que não precisávamos de Deus; parecia que nada nos faria tremer… E bastou um pequeno vírus para colocar o mundo inteiro em quarentena!”

Esta crise que estamos a viver, disse mais adiante o prelado, “vem em nossa ajuda — nem tudo é mau! — e, de verdade, coloca-nos todas estas questões. Como vemos e vivemos este momento por que estamos a passar? Com que olhar o vemos? Com o nosso olhar de seres humanos, soberbos e iludidos, ou com o olhar de Deus? Como vemos o nosso próximo? Em quem colocamos a nossa esperança?”

O prelado terminou a homilia, que publicamos na integra, tal como a Oração Universal, dizendo que “o mundo, a história e as crises de que ela é feita podem ser vistos e vividos a uma outra luz, desde que nos deixemos iluminar pelo Senhor e abramos os olhos da fé que Ele nos deu no momento do nosso baptismo.”

Antes da bênção final, D. Nuno Brás voltou a “agradecer à RTP-Madeira esta oportunidade que nos é dada de celebrarmos a Eucaristia deste domingo da Quaresma” e a pedir a todos os fiéis que “continuem a observar, rigorosamente, as normas e as indicações que nos são dadas pelas autoridades”.

Homilia

1. Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração” (1Sam 16,7). Toda a liturgia deste IV Domingo da Quaresma é marcada pelo “ver”. E isso significa, para todos, o convite a nos deixarmos interrogar e confrontar por esta palavra de Deus. Como é que vemos? O que significa para nós “ver”?

Deus não olha às aparências, dizia-nos a Iª leitura. Ao contrário dos homens que julgam pelas aparências, Deus vai além daquilo que é exterior. Ele conhece. Conhece a verdade de cada um e de todos.

Não raras vezes vivemos a partir das aparências. O nosso mundo vive a partir das aparências. Cuidamos delas como se fossem a realidade central. O mundo em que vivemos é um pouco como no cinema. Existe o cenário: as casas parecem casas; o mar parece mar; as grandes tempestades parecem tempestades — mas, na realidade, são casas feitas de cartão; o oceano é uma pequena poça; as tempestades são filmadas num copo de água. E os sentimentos, a vida e a morte, tudo é fingido, representado por um actor. Tudo se destina a criar em nós uma ilusão, para despertar os nossos sentimentos, criando uma espécie de mundo artificial em que gostamos de viver. Contudo, passados os momentos em que quase estamos dentro do ecrã e da acção, tudo desaparece. Assim é o mundo em que vivemos — ou, pelo menos, aquele em que vivíamos até há alguns dias… Parecíamos os donos deste mundo; parecia que não precisávamos de Deus; parecia que nada nos faria tremer… E bastou um pequeno vírus para colocar o mundo inteiro em quarentena!

Deus não vê apenas as aparências. Não se contenta com elas. Deus vê o que vai no coração do ser humano. Ele não olha para o cenário; não olha para atitudes e vidas fingidas: Ele conhece os pensamentos, os sentimentos mais íntimos e sinceros de cada um e de todos.

Na Iª leitura, o Profeta, diante do mais velho dos filhos de Jessé, olhando para o seu aspecto e para a sua estatura elevada, pensava ter encontrado o rei que Deus tinha escolhido para Israel. E o mesmo aconteceu com todos os outros seus irmãos. A todos Deus rejeitou. Faltava apenas o mais novo, que nem sequer estava presente, e em quem ninguém tinha pensado. Mas era esse miúdo frágil e pequeno que Deus tinha escolhido. Não o tinha escolhido arbitrariamente mas porque “o Senhor vê o coração”.

Como é que nós vemos? Como é que nós nos vemos? Como é que vemos o mundo que nos rodeia? Como olhamos para Deus? Sim: também Deus pode ser vítima deste nosso modo humano de gostar de aparências! Facilmente nos podemos enganar, julgando que Deus é como nós, e que fica satisfeito com aquilo que aparentamos!

2. O cego do evangelho vivia na escuridão desde o nascimento. Vivia no seu mundo imaginário. Jesus, ao fazer o lodo que lhe colocou nos olhos, repetiu o gesto de Deus ao criar o homem a partir do barro. Jesus recriou aquele homem. Deu-lhe a visão; permitiu-lhe ultrapassar a sua condição de invisual.

Mas Jesus foi mais longe: “Tu acreditas no Filho do homem?”. Ele respondeu-Lhe: Quem é, Senhor, para que eu acredite n’Ele? Disse-lhe Jesus: Já O viste: é quem está a falar contigo. O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: Eu creio, Senhor” (Jo 9,38). Não bastou a Jesus dar àquele homem a possibilidade de ver as realidades exteriores: Jesus deu-lhe a “visão da fé”.

Porque, de facto, a fé permite-nos ver tudo de um outro modo. Permite-nos ver a vida e a morte; a doença ou a simples e feliz existência; tudo o que nos rodeia e a nossa história; permite-nos ver tudo de forma diferente: a fé permite-nos ver tudo com os olhos de Deus. E isso é o que torna um cristão diferente de todos os outros seres humanos: o encontro com Jesus muda o nosso modo de ver a realidade. Passamos a ver com os olhos de Deus. Deixamos, como aquele homem, de estar cegos, fechados num mundo imaginário, que pensamos ou desejamos, que sonhamos.

E isso mesmo significa o crescimento na fé: crescer nesta capacidade de ver com os olhos de Deus.

Não ficamos com um qualquer novo sentido mágico mas, de facto, vemos tudo de modo diferente. Muitos filmes e séries da actualidade apresentam personagens dotados de poderes especiais, e que vêem mais que as aparências. Mas nós, cristãos, sabemos que não é preciso um qualquer poder ou dom especial: basta ter fé em Jesus. Basta ser cristão: a vida passa a ser um dom de Deus; a nossa história deixa de ser fruto de um destino, e passa a ser uma construção que fazemos com Deus; o outro deixa de ser um obstáculo ou um objecto, para ser um irmão; a própria natureza deixa de ser um mero recurso natural, para ser criatura que Deus nos deu para O louvarmos…

3. Uma última questão creio que devemos também colocar-nos: como é que nós queremos que Deus nos veja? Quando Ele olha para nós, que vê Ele? Alguém preocupado com a simples aparência ou alguém que procura, de verdade, caminhar ao Seu encontro?

Esta crise que estamos a viver vem em nossa ajuda — nem tudo é mau! — e, de verdade, coloca-nos todas estas questões. Como vemos e vivemos este momento por que estamos a passar? Com que olhar o vemos? Com o nosso olhar de seres humanos, soberbos e iludidos, ou com o olhar de Deus? Como vemos o nosso próximo? Em quem colocamos a nossa esperança?

Aos Efésios (como escutávamos na IIª leitura), S. Paulo dizia: “Outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade. Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor”.

E isto digo, também eu, a todos vós, irmãos: sois luz no Senhor; iluminai tudo o que está à vossa volta com a luz da fé. O mundo, a história e as crises de que ela é feita podem ser vistos e vividos a uma outra luz, desde que nos deixemos iluminar pelo Senhor e abramos os olhos da fé que Ele nos deu no momento do nosso baptismo.

Oração Universal

Bispo:
Nós sabemos que Jesus Cristo é a luz do mundo,
que deu vista ao cego de nascença
e que a todos quer iluminar.
Peçamos a sua luz para a Igreja,
para o mundo e para cada um de nós, dizendo:

R: Iluminai, Senhor, o nosso coração.

Leitor:
1. Para que o Senhor dê a luz do seu Espírito ao nosso Bispo e aos sacerdotes da nossa diocese, e os ensine a ver mais além das aparências, oremos.

2. Para que o Senhor dê a luz do seu Espírito a todos os responsáveis deste mundo, e eles descubram os caminhos da concórdia, oremos.

3. Para que o Senhor dê a luz do seu Espírito aos que andam envolvidos pelo mal e os conduza como um pastor ao seu rebanho, oremos.

4. Para que o Senhor dê a luz do seu Espírito aos que vivem apenas para as aparências, e todos cheguem a ver n’Ele o Salvador, oremos.

5. Para que o Senhor nos dê a luz do seu Espírito, nos ensine a procurar o que Lhe agrada e nos reúna a todos no seu reino, oremos.

6. Para que o Senhor dê a luz do seu Espírito a todos os profissionais de saúde e ajude os doentes nestes momentos difíceis, oremos.

Bispo:
Senhor, nosso Deus,
dai-nos a graça de reconhecer no vosso Filho
Aquele que é a verdadeira luz do mundo,
e iluminai os corações dos que não crêem
com a palavra e os sinais do Evangelho.
Por Cristo, nosso Senhor.

Irmãos,
este Domingo é, na Quaresma, o Domingo da alegria.
Não deixamos de ser convidados à alegria,
ainda que no meio de todas as preocupações
que a presente emergência de saúde nos traz.
É a alegria de percebermos
que o Senhor está próximo de cada um de nós,
nos ama e nunca nos abandona.
Continuamos a celebrar a Eucaristia dominical
nestas condições singulares;
mas nem por isso esmoreça a nossa fé,
bem como a comunhão que vivemos uns com os outros
e que nasce da nossa união com Jesus.