D. Nuno Brás: “Tenho que agradecer muito a todo o povo madeirense, porque este ano foi um dos melhores da minha vida”

Foto: Duarte Gomes

Faz hoje um ano que a Diocese do Funchal acolheu D. Nuno Brás como seu bispo. Um ano que, no dizer do próprio, foi “muito intenso”, mas importante para conhecer a realidade pastoral, tanto da Madeira como do Porto Santo. A partir de agora, “a vida vai entrar na normalidade”. No entanto, isto não significa que as rotinas se alterem substancialmente. Afinal, D. Nuno Brás diz que não sabe ser bispo fechado em casa.

Jornal da Madeira – Há um ano o senhor bispo dizia-me que tinha acolhido a missão de ser bispo do Funchal com “temor e confiança”. Como é que estão hoje os níveis de um e de outro?

D. Nuno Brás – Acho que aumentaram os dois. É verdade. O que é que eu quero dizer com isto? Quero dizer com mais temor, porque neste momento tenho também a perceção da responsabilidade que tenho. Uma coisa é ser bispo, o que é já de si uma tarefa difícil. Mas eu neste momento tenho a perceção que há muita gente que espera muito do bispo do Funchal. Deste bispo do Funchal em concreto.

O temor é de não ser capaz de corresponder a essa expetativa. Neste sentido, o temor acrescentou. Por outro lado, a confiança também acrescentou. Porquê? Porque eu percebo que não estou sozinho. Percebo que tenho os sacerdotes que são meus amigos, que são bons colaboradores, que são próximos e isso só tenho de agradecer. Isto não significa que não haja diferenças numa questão ou noutra, mas neste momento posso dizer que bom que é ter estes irmãos no sacerdócio, que comigo trabalham nesta diocese. Aumentou também a perceção de que os cristãos da diocese, e mesmo aqueles que são indiferentes à fé, mas que não são indiferentes à presença da Igreja nesta Ilha, por aquilo que ela representa, que esses também estão disponíveis para colaborar. Neste sentido, podemos dizer que aumentou o temor e aumentou a confiança.

Jornal da Madeira – Veio de uma grande diocese para uma muito mais pequena. Quais têm sido as principais dificuldades de adaptação pessoais e de trabalho que tem sentido?

D. Nuno Brás – O ritmo tem sido tão grande que quase não deu para perceber isso. Claro que tenho a minha família mais distante. Em Lisboa, sobretudo quando eu estava encarregado da parte do Oeste, de vez em quando ia almoçar a casa. Ou então, nas visitas pastorais, que eram em paróquias ali ao lado, eu ia dormir a casa todos os dias. A distância da família de sangue aumentou. Mas também não é nenhum exagero, porque praticamente todos os meses tenho estado com eles. Depois há coisas até bastante mais agradáveis. Enquanto em Lisboa, nesta altura, eu estava a tiritar de frio, agora estou aqui com um clima de primavera. Digamos que o frio aqui faz-se sentir muito pouco, a não ser naquelas horas das Missas do Parto, mas aí houve quem providenciasse agasalho. Agora, assim, dificuldades… Claro que o facto das pessoas viverem numa ilha, de tudo se saber, de tudo se falar, é sempre uma coisa positiva e uma coisa negativa, porque isso também nos dá uma outra perspetiva da vida pastoral. Ou seja, no fundo eu sei que é mais fácil hoje, se for necessário congregar alguém assim de repente, por qualquer eventualidade, é muito mais fácil do que numa grande cidade como Lisboa, com todos aqueles arredores e periferias. São 2 milhões e meio de habitantes para 250 mil, esta é a escala.

Jornal da Madeira – Nesse sentido é mais fácil trabalhar…

D. Nuno Brás – Obviamente que sim. Além disso é muito agradável, muito humano, a proximidade com as pessoas.Eu em Lisboa estava habituado a andar a olhar para o chão e, de vez em quando, lá encontrava uma pessoa conhecida que dizia: senhor bispo, como está? Aqui não! As pessoas falam com o bispo e o bispo fala com as pessoas assim com todo o à-vontade. As pessoas aproximam-se do bispo e têm este gosto e este à-vontade para dizer ao bispo aquilo que pensam. Isso é muito bom, mostra que vivemos numa ilha muito humana. Há esta humanidade no trato, que se mostra também na maneira de conduzir, por exemplo. Temos ruas de dois sentidos, com carros parados num e alguém tem de ceder. Já sabemos que é mesmo assim e, portanto, não vale a pena nos estarmos a irritar porque temos de passar os dois, temos de ser educados uns para os outros e temos de fazer o possível para o outro também passar.

Jornal da Madeira – Já reuniu com os Arciprestados, com alguns até mais do que uma vez, já realizou três visitas pastorais, uma delas ao Porto Santo. Que realidades é que encontrou que não estava à espera e que o preocupam?

D. Nuno Brás – Não estava à espera desta desigualdade entre o norte e o sul. Acho que isso é gritante e preocupante. É muito preocupante a desertificação do Norte, é muito preocupante a falta de população do Norte, o envelhecimento de todo o norte da ilha. E é muito preocupante a concentração em demasia no Sul e de uma forma muito particular no Funchal. Não é normal numa ilha com esta dimensão haver quase 50 % da população que está concentrada numa cidade. Isto cria problemas em termos humanos, cria problemas em termos pastorais, cria problemas a todos os níveis. Mesmo para a própria vida das pessoas. As paróquias do Norte têm centenas de pessoas, as do Funchal têm milhares de pessoas. Mas eu não posso deixar as do Norte.

Jornal da Madeira – A possibilidade de unificar essas paróquias está fora de questão?

D. Nuno Brás – Está, está porque as paróquias têm identidade. E as pessoas, com a sua idade, dizem: esta é a minha paróquia. E com toda a razão. Têm toda a legitimidade para dizer ao bispo nós queremos cá um sacerdote, um sacerdote que nos acompanhe. Por outro lado, temos a dificuldade de não ter um para lá colocar… Se o número de sacerdotes fosse infinito, ou se eu tivesse o dobro dos sacerdotes que estão ao serviço da nossa diocese… E atenção que eu não me posso queixar vendo aquilo que são os dados de outras dioceses, mesmo do continente. De facto, se eu tivesse mais sacerdotes, pronto, tudo seria mais simples e mais fácil. Nisso compreendo muito bem o D. David de Sousa quando ele fez esta divisão e aumentou para o dobro praticamente o número de paróquias. Fê-lo precisamente porque tinha muitos sacerdotes e tinha dois seminários repletos de seminaristas. Agora, neste momento, essa não é a situação da nossa ilha. De facto, preocupa-me muito o Norte. Preocupa-me pelo abandono, no sentido de que as pessoas deixam o Norte e vêm todas para o Funchal. Preocupa-me o envelhecimento do Norte, mas preocupa-me em geral o próprio envelhecimento da ilha. A diminuição de população da ilha com esta sangria dos jovens que vão para o continente, que vão tirar um curso universitário e depois não voltam. Isto é uma sangria constante, anual, de população.

Não é normal numa ilha com esta dimensão haver quase 50 % da população que está concentrada numa cidade. Isto cria problemas em termos humanos, cria problemas em termos pastorais, cria problemas a todos os níveis.

Jornal da Madeira – Que contributo é que a Igreja poderá dar para tentar travar essa sangria?

D. Nuno Brás – Isso aí… Se eu tivesse essa solução…

Jornal da Madeira – Não há um pó mágico…

D. Nuno Brás – Não, não há. Esta é daquelas coisas que eu gostava, de facto, de ter a solução nas mãos, mas não tenho. Não sendo assim, creio que é importante, da parte da Igreja acompanhar de uma forma muito concreta e pessoal os jovens. Ou seja, os jovens não podem ser acompanhados como massa. Os jovens precisam de ter um sacerdote de referência, um sacerdote que os escute, um sacerdote que os acompanhe, um sacerdote com quem eles possam estar. Creio que isso que é a maior ajuda que nós Igreja podemos fazer para parar esta crise demográfica. Se aqui houver comunidades, que sejam comunidades cristãs verdadeiras, se aqui houver pontos de referência em termo de vida cristã que sejam verdadeiros pontos de referência, tenho a certeza que os jovens podem ir para o continente tirar cursos universitários, mas depois hão de regressar, porque aqui têm um ponto de referência, têm uma âncora para a sua vida. Claro que isto é o ideal. Fazemos aquilo que podemos.

Jornal da Madeira – Mesmo assim já teve a felicidade de ordenar dois jovens sacerdotes…

D. Nuno Brás – Sim. Esse foi um dos momentos altos deste ano. Claro que, vamos lá ver, eu recebi-os do senhor D. António Carrilho e por isso estou muito grato ao senhor D. António. Assim como todos os seminaristas que estão em Lisboa recebi-os do senhor D. António Carrilho. Obviamente que não são os meus nem são os do D. António, são os da Igreja, são o de Jesus Cristo, são os da diocese. Mas sim, é sempre dos momentos altos da vida de um bispo este de ordenar, de transmitir o sacerdócio. Trata-se de perceber que esta presença sacramental de Jesus Cristo, na pessoa dos padres, continua. E isso é das coisas que mais, bem não é que mais realiza, mas claro que todos nós temos depois pontos altos na nossa vida e isso é um daqueles pontos altos, necessariamente.

Jornal da Madeira – O ideal, claro, seria que houvesse mais…

D. Nuno Brás – Claro que sim. Aliás, precisamos urgentemente. Eu costumo fazer esta equação comparando com Lisboa. A diocese tem um bocadinho mais, quase 260 mil habitantes. Mas para usar números mais práticos pensemos em 250 mil. Lisboa, 2 milhões e 500 mil. Portanto, se o Funchal tem oito seminaristas, Lisboa deveria ter 80. Não tem, nem pouco mais ou menos. Não é para ficar contente. Aliás, já fazia este raciocínio em várias conversas que tinha com o senhor D. António quando eu era reitor do seminário e ele era já bispo do Funchal. Agora, é óbvio que os sacerdotes são sempre poucos. Não há desemprego. E se eles sobrassem aqui haveria sempre dioceses no continente que agradeceriam a sua colaboração. Portanto, há sempre trabalho. E já agora, em relação à média de idades, nós devemos ser das dioceses que tem o clero mais jovem do país. Nisso podemos todos ter muita esperança, porque habitualmente é raro o ano em que na Diocese do Funchal não há uma ou duas ordenações, às vezes três, quatro. Houve momentos em que houve quatro ordenações. E digo nestes últimos anos, ou seja, desde os anos do senhor D. Teodoro até agora. Temos que dar muitas graças a Deus por isso. Isso mostra também a qualidade de vida cristã da nossa diocese. Não tenhamos dúvidas que as vocações sacerdotais nascem da vida cristã, nascem de famílias cristãs, nascem de grupos de jovens cristãos, nascem da catequese que é bem dada. Nascem, enfim, de todas estas realidades da vida cristã que graças a Deus, está bem presente na nossa vida.

D. Nuno BrásVoltando um pouco atrás, às preocupações, penso que uma outra se prende com o regresso dos emigrantes, nomeadamente da Venezuela…

D. Nuno Brás – Nós não podemos, de facto, deixar de estar atentos a essa realidade, antes de mais nada porque são pessoas humanas, e porque são madeirenses também. Este é um dos pontos que já estava no meu coração antes de ser bispo do Funchal e que, obviamente, como Bispo do Funchal continuei com ele no coração. E portanto, seja no apoio à Cáritas, que tem tido essa preocupação de apoiar os regressados da Venezuela e mesmo os outros imigrantes que vão bater à porta, mas depois também esta ajuda que, graças à Renúncia Quaresmal de 2019, conseguimos dar e que é relativamente pequena – cerca de 10 mil euros – à Diocese de San Carlos, onde está um sacerdote madeirense que, digamos, serviu de intermediário para nos fazer chegar o pedido do senhor bispo, com quem eu depois tive contatos, e que foi importante no sentido de ter uma garantia de que aquele dinheiro, que é fruto da renúncia dos madeirenses, não seria empregue em coisas fora de sentido, mas que seria para ajuda concreta às pessoas que estão a passar momentos de dificuldade muito concretos.

Jornal da Madeira – Ainda antes de passar às coisas boas que, julgo eu, também encontrou nesta diocese…

D. Nuno Brás – Muito boas! O difícil é escolher…

Jornal da Madeira – Dizia eu, antes de passar às coisas boas, neste ano resolveu questões que estavam pendentes e que, digamos, tiravam o sono aos seus antecessores…

D. Nuno Brás – Concretamente a questão da Ribeira Seca e do Pe. Martins Júnior… Em primeiro lugar devo dizer que, quando aqui cheguei escutei vários apelos, vindos de todos os quadrantes. Mesmo de vários políticos dos vários quadrantes, de pessoas sem referência, de pessoas com muita referência à igreja, apelos no sentido de resolver o problema da Ribeira Seca. E depois também percebi a própria disponibilidade do Pe. Martins de dar o passo. No fundo, tratou-se da verificação de uma realidade. Mais do que resolver coisas, coisas muito transcendentes, tratou-se da verificação de uma realidade. E a realidade era que, neste momento não fazia sentido esta pena da suspensão. E como não faz sentido, não havia nenhuma razão para a manter. Verificado isto e como toda a gente estava com esta perceção, foi relativamente fácil e simples chegar à solução.

Jornal da Madeira – Uma solução que deixou uma comunidade paroquial em festa…

D. Nuno Brás – Sim, é verdade. Eu fui lá. Entretanto os jovens da Ribeira Seca já aqui vieram a casa. Estive com eles num lanche. Eles ofereceram-me uma casula com bordado da Madeira, também ao gosto da Ribeira Seca e que eu já usei e uma mitra que eu já usei. Nisso foram muito, muito simpáticos. E ficaram de facto, e estão, no meu coração. É a normalidade. E quando a normalidade da vida cristã é vivida, faz-nos a todos felizes. É assim…

Jornal da Madeira – Falemos então das coisas boas que encontrou e que há pouco me dizia que eram difíceis de escolher…

D. Nuno Brás – Mas é verdade… Eu tenho que agradecer, agradecer muito, em primeiro lugar obviamente a Deus, mas depois também a todo o povo madeirense porque, verdadeiramente, este ano foi dos melhores anos da minha vida, da minha vida como sacerdote, da minha vida como bispo. Foram dias, meses, muito felizes estes que eu passei aqui na Madeira. De muito trabalho, de tal forma que nem sequer deu para perceber que já passou um ano. Agora já não posso dizer: foi a primeira vez que aqui vim. Não posso dizer: nunca estive numa Missa do Parto. Já estive em 12. Nunca passei o Natal na Madeira: agora já passei. As coisas passam agora à normalidade. E que bom que é. Mas, de facto, foi um ano muito intenso, com dias com uma agenda muito intensa. Antes de vir para cá, numa entrevista, eu disse que não fazia muita intenção de estar à secretária, de ficar em casa. Mas já houve alguns dias em que eu disse: bom não exageremos. Quer dizer, às vezes é preciso ficar um bocadinho à secretária, porque há trabalho que se tem de fazer. É muito bom estar com as pessoas e é muito bom perceber que elas gostam que o bispo esteja com elas. É assim, graças a Deus. E é como digo: muito, muito obrigado à Diocese do Funchal porque este ano foi um ano de graças, pelo menos para mim, e espero que também para os cristãos da diocese.

Jornal da Madeira – Numa outra entrevista dizia que não trabalhava com intenção de deixar uma marca, mas reconhecia que esta, boa ou má, acabaria por surgir naturalmente. Que marca sente que deixou neste primeiro ano: a da proximidade, do diálogo, ambas?

D. Nuno Brás – Acho que essas coisas acontecem, de facto de forma natural. Muito sinceramente não sei como é que pode haver um bispo que esteja fechado em casa. Aquilo que eu estou a querer dizer é que a minha forma de ser bispo é o estar com as pessoas, o escutar as pessoas, pessoas desde os membros do Governo, até às pessoas que de política não querem saber nada. Desde gente que é fervorosa praticante a gente que não quer saber nada de religião, mas que quer dizer qualquer coisa ao bispo. É o estar com as pessoas. Eu acho que é o normal. Longe de mim estar a dizer que eu sou o bispo exemplar ou coisa que o valha. O que eu estou a dizer é que eu não sei ser bispo de outra forma. Claro que há bispos muito melhores do que eu, claro que há bispos muito mais santos do que eu, claro que há gente que faz as coisas muito melhor do que eu. Claro que sim. Mas esta é a minha maneira de ser bispo. Se isso deixa marcas ou não deixa Deus saberá, Deus fará as contas. Nós não estamos livres de daqui por 200 ou 300 anos dizerem que houve um bispo que andava sempre fora de casa, que fez tudo errado, tudo ao contrário. Pronto, temos pena. O juízo da história é o juízo da história. Devo dizer que não estou muito preocupado com ele. Estou mais preocupado em acertar, que aquilo que eu faço é o que eu acho que é o melhor possível naquele momento e com os dados que eu tenho, para agilizar a situação. Se depois se revelou a opção certa ou se de facto se revelou um erro descomunal, daqui por 200 anos dirão.

verdadeiramente, este ano foi dos melhores anos da minha vida, da minha vida como sacerdote, da minha vida como bispo. Foram dias, meses, muito felizes estes que eu passei aqui na Madeira. De muito trabalho, de tal forma que nem sequer deu para perceber que já passou um ano.

Jornal da Madeira –Por falar em fazer coisas, um dos primeiros decretos que assinou foi o da criação do Conselho Pastoral Diocesano. Faltava este elo na cadeia da organização da comunidade eclesial para implementar um maior dinamismo pastoral e ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II?

D. Nuno Brás – Absolutamente sim. Não é normal uma diocese não ter um Conselho Pastoral, em que o bispo escute os leigos, mais ou menos representativos das paróquias, dos movimentos dos arciprestados. Um conselho onde o bispo possa escutar os leigos que posam dizer pelo menos o seu sentimento de leigos. Esse foi mesmo o meu primeiro decreto assim, digamos, de uma coisa mais estrutural. E que bom que foi. Porque creio que é importante os leigos poderem dizer o que pensam, e poderem fazer sentir aos seus pastores, neste caso concreto ao bispo, aquilo que pensam e o bispo tomar a sério aquilo que os leigos dizem. Isso parece-me muito importante porque, antes de mais nada, somos cristãos, antes de mais nada somos batizados e isso faz toda a diferença. Antes de mais nada o bispo é batizado como os outros, é cristão como os outros, cristão no meio de cristãos.

Jornal da Madeira – Este conselho só agora começou a funcionar, mas certamente que no futuro será importante na tomada de decisões que levem ao tal dinamismo pastoral…

D. Nuno Brás – Sim, sim. Digamos que, de certa forma já está arquitetado, digamos, aquilo que vão ser os temas dos programas pastorais para os próximos anos. Este ano foi o Batismo, para o próximo será a Eucaristia, para o outro será o Crisma e o Testemunho Cristão. Na definição destes temas, digamos, teve palavra essencialmente o Conselho Presbiteral. O conselho Pastoral já reuniu este ano, numa fase posterior, dando algumas ideias de concretização. Para o próximo ano, tendo em conta que o tema andará à volta da Eucaristia, o Conselho Pastoral dará as suas achegas para o programa, que não será aprovado sem o Conselho Pastoral dar a sua opinião.

Jornal da Madeira –Relativamente ao futuro. A prioridade continua a ser a de evangelizar, ou alguma das realidades de que falamos anteriormente levaram a que tivesse de fazer um acerto na rota?

D. Nuno Brás – Vamos lá ver o evangelizar obviamente aqui tomado num sentido muito amplo. O Papa João Paulo II dava três sentidos ao evangelizar, se quisermos. Um primeiro sentido era a necessidade de evangelização daqueles que são cristãos conscientes e que vivem conscientemente a sua fé, portanto, que têm este ritmo de vida cristã. E esses precisam de evangelização no sentido de tomarem sempre cada vez mais consciência daquilo que são e não esquecerem do testemunho que hão de dar do Evangelho sempre e em toda a parte, de uma forma muito particular na família, de uma forma muito particular no seu local de trabalho. Depois, um segundo sentido, que é aquele que não conhecem absolutamente de Jesus Cristo. E neste sentido, nós temos também alguns, infelizmente aqui. São relativamente poucos. E depois há, aí não demos os passos todos, por exemplo, os turistas. Os turistas que aqui vêm e que não podem deixar de sentir que vêm para uma ilha cristã, para uma ilha que lhes fala de Jesus Cristo e do Evangelho. Aí, de facto, ainda não fizemos grande coisa. Um terceiro sentido é o da Nova Evangelização, ou seja, aqueles que sendo batizados tendo vivido a vida cristã de certa forma depois e afastaram dela, a esqueceram. Há que lhes mostrar esta necessidade de regressar, de tomar Deus a sério. Aí temos muitos. Portanto a evangelização é sempre uma preocupação. É a preocupação.

Jornal da Madeira – Para além das questões concretas da ilha, há outras que são preocupação da Igreja Universal. Na próxima quinta, dia 20 de fevereiro, por exemplo, a Assembleia da República vota a questão da Despenalização da Morte Assistida. Amanhã, dia 18 de fevereiro, a Diocese do Funchal promove uma vigília pela vida…

D. Nuno Brás – Vamos lá ver, é uma vigília ecuménica, precisamente para mostrar que não se trata de uma coisa da Igreja católica, mas que se trata de uma realidade dos cristãos da ilha. Nesse sentido envolvemos todas as outras confissões cristãs que estão presentes aqui na ilha e com quem temos, aliás, ótimas relações. A eutanásia é sempre uma derrota. E é sempre uma derrota, porque na eutanásia mata-se a vida. Na eutanásia não se resolve, não se cuida, da vida. Quando alguém diz a minha vida já não faz sentido, quando alguém diz a minha vida já não é digna de ser vivida é uma derrota. E não é uma derrota para os cristãos é uma derrota para a humanidade e uma derrota de forma muito concreta para o Estado. Quer dizer, no fundo o que é esta lei da eutanásia? É o próprio estado ver-se obrigado a matar aquela pessoa que pede para ser morta, porque o Estado não tem mais nada para lhe oferecer. Mas de facto o Estado tem mais para lhe oferecer, deve ter, tem que ter mais qualquer coisa para lhe oferecer. Neste momento, o estado de desenvolvimento da ciência permite-nos dizer o Estado deve e pode oferecer mais. Portanto, estamos a ir pelo caminho mais fácil, estamos a ir pelo caminho da derrota. É uma derrota para Portugal, não tenhamos dúvidas. É Portugal estar a dizer eu não sou capaz de mais ou então, pior seria, eu não quero mais. Ou seja, o Estado dizer aquelas pessoas de facto têm toda a razão a sua vida é indigna de ser vivida. As pessoas já estão, digamos, numa situação de desespero e o próprio Estado diz: sim senhor, tem toda a razão está muito mal, está tão mal que eu o mato. É uma derrota, uma derrota completa. E eu recuso-me a dizer que Portugal falhou. Eu recuso-me a dizer que o Estado Português falhou. E, portanto, aqui trata-se de qualquer coisa que nós precisamos de fazer para ajudar o próprio Estado Português, porque esta não é a sociedade que eu quero, em que eu quero viver. E eu tenho tanto direito em dizê-lo como todos os outros. Eu tenho todo o direito em dizer em que sociedade é que quer viver e devo dizê-lo. Sim nós cristãos, de uma forma muito particular, mas nós portugueses temos todos o direito de dizer não. E claro que foram [os deputados] escolhidos pela população, mas trata-se de uma questão demasiado grave para ser decidida por 230 pessoas.

Defendemos a natureza de animais e de plantas e não somos capazes de defender a natureza do ser humano. Contradição!

Jornal da Madeira – 230 pessoas que poderiam ou deveriam estar a aprovar legislação para, por exemplo, melhorar os cuidados paliativos…

D. Nuno Brás – Claro! Isso sim. Isso com certeza. Mas é óbvio que esta é a solução mais fácil.

Jornal da Madeira – Para terminar, o Papa acaba de publicar a Exortação ‘Querida Amazónia’ através da qual volta a deixar alertas que são para aquela região, mas não só. E em que fala sobre a questão do diaconado feminino e da ordenação de homens casados…

D. Nuno Brás – Eu tenho de confessar uma coisa. Eu já recebi a exortação, mas ainda não tive oportunidade de a ler.  A agenda tem sido de tal forma, que não tive fisicamente oportunidade de a ler. Hei de lê-la de uma forma mais cuidada, logo que tenha oportunidade. Mas eu creio que é muito importante a perspetiva da ecologia do Papa que é, digamos, não apenas uma ecologia verde, mas uma ecologia integral. Creio que isso é qualquer coisa que ainda não se percebeu. Porque no fundo temos andado muito preocupados com os animais, com as espécies em vias de extinção, e bem, com as questões do planeta em termos de meteorologia até, mas há coisas que não fazem sentido. Há bocadinho falávamos da eutanásia. Mas é uma contradição. Queremos ser todos muito naturais com os animais e com as plantas, mas depois com os homens não somos nada naturais. Não faz sentido. Daí o Papa chamar a atenção para a ecologia integral que significa que o próprio planeta não será um planeta, digamos, ambientalmente bom para o ser humano, quando o ser humano faz estas opções da eutanásia, do aborto, enfim de todas as outras realidades que, de facto, transformam a natureza humana. Defendemos a natureza de animais e de plantas e não somos capazes de defender a natureza do ser humano. Contradição! Quando o Papa fala de ecologia integral chama a atenção para isto, ou seja, é o todo. E não se trata só da Eutanásia e do aborto, trata-se depois também dos próprios meios para viver, das próprias injustiças sociais. Isso também não é natural. Portanto temos de olhar para a ecologia e para o discurso ecológico de uma forma integral. Porque estamos a tratar de uma realidade orgânica, em que o ser humano e toda a realidade criada está em relação. E, portanto, não há ecologia sem a natureza e sem a realidade natural do ser humano. Este é o grande apelo do Papa. Aliás, ele aos bispos portugueses, quando publicou a ‘Laudato Si’, teve oportunidade de dizer: escrevi não uma encíclica verde, mas escrevi uma encíclica de doutrina social da Igreja. Depois, em relação a outras realidades, eu não sei em que moldes o Papa se pronuncia, ou sequer se se pronuncia. Ou seja, muito possivelmente o Papa não aborda o assunto dizendo eu sou contra isto ou aquilo. Aquilo que sabemos, e isso o Papa já o tinha dito antes, é o seu modo de ver o sacerdócio que se aproxima, coincide, com o modo de ver o sacerdócio de São João Paulo II. O que é que isso significa? Significa que o modo de ver o sacerdócio do Papa Francisco se encontra na ‘Pastores cabo vobis’, uma exortação apostólica de João Paulo II, a propósito da formação dos sacerdotes. Assim como toda essa questão do diaconado feminino o próprio Papa já tinha feito declarações acerca disso. Eu só não sei se o Papa se pronuncia claramente, positivamente, em relação a isto, ou se simplesmente cala estes temas. Eu penso que é isto, ou seja, ele não diz nada acerca do tema. Toda a gente esperava que ele falasse e ele não falou. E diz, o meu modo de pensar é aquele que estava no Magistério da Igreja, que é aquilo que era expectável. Creio que se tratou mais de uma pressão dos meios de comunicação, do mundo extra Igreja, que não consegue compreender o celibato. Tratava-se de uma pressão sobre o Papa, mas ele não se deixou influenciar. Mas volto a dizer que é preciso ler.