Portugal: pobreza e risco de pobreza

D.R.

Desigualdades sociais

Na sua mensagem de Natal, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, mostrou-se preocupado com as injustiças sociais, a pobreza e o risco de pobreza (que ainda afetam um em cada cinco portugueses), disse. Acentuou que 2019 foi marcado por desigualdades e instabilidades políticas e económicas.

Fez referência à luta de um sem-número de organizações e de cidadãos pelos valores primeiros da dignidade da pessoa humana. 

O Primeiro Ministro, António Costa, falou das desigualdades” (Ano Novo) e da saúde (Natal), e disse que o combate à pobreza e às desigualdades exige a valorização do interior do país, com uma “estratégia articulada de projetos e medidas”.

O Presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio da Fonseca, considerou a passagem de ano do Presidente Marcelo na ilha do Corvo, com cerca de 430 habitantes, como “simbólica” e “profunda”, com a intenção de convocar o olhar das pessoas para o que “muitas vezes a sociedade se recusa a ver”.

“A ideologia não mata desigualdades, não mata a indiferença, nem a fome, nem dá saúde”, salientou. E gostaria de ver os nossos parlamentares unidos em situações de saúde, de distribuição de rendimentos, mostrando que a vida política é servir o povo, sobretudo os mais carenciados.

Com salários baixos e ‘pensões de reforma’ incríveis, muitos portugueses, nem sequer podem comprar os medicamentos…

Demasiada pobreza

Segundo dados do INE, de acordo com o indicador que conjuga as condições de risco de pobreza, de privação material severa e de intensidade laboral per capita muito reduzida,  21,6% dos portugueses encontram-se em risco de pobreza ou exclusão social em 2019.

Portugal é um “país com demasiada pobreza”. Perde-se qualidade de vida porque o ‘fosso’ da desigualdade é cada vez maior.

E “a pobreza muitas vezes quer dizer “refugiados”, “idosos abandonados” e “crianças sem apoio”, “quase sempre quer dizer desemprego” ou trabalho precário. 

A Igreja, através da Cáritas, tem apostado fortemente em colaborar na erradicação da pobreza. De notar a atividade que Bragança, com o seu bispo, D. José Cordeiro, tem desenvolvido perante bolsas de grande pobreza no seu espaço geográfico. As Cáritas diocesanas, assim como as Vicentinas, estão atentas aos casos mais graves.

A região mais pobre

D. João Lavrador exortou, na noite de Natal, os cristãos a irem ao encontro “de todos os pobres, despojados pela sociedade do consumo, dos excluídos” da cultura e da religião. Note-se que os Açores são a região mais pobre do país.

Em 2018, o prelado afirmou que é preciso “não baixar os braços” na luta contra a pobreza. E desafiou todos os católicos a “olhar o pobre com o olhar de Deus”. “O pobre é nosso irmão e, por isso, temos uma responsabilidade primeira em relação a todos os que passam necessidade”.

A presidente da Cáritas Diocesana de Angra, nos Açores, Ana Borba, alertou para a situação social e económica do arquipélago, onde os “índices de pobreza” continuam “muito altos” e o “desenvolvimento muito baixo”.

E referiu que “a pobreza serve para alimentar frases bonitas num discurso, sobretudo quando anunciamos a intenção de que vamos fazer mais.” Anabela Borba apontou desafios como “a precaridade no emprego” e os “baixos salários” que são praticados.

Escutar o clamor dos pobres

Depois dos Açores estão mais expostos ao risco de pobreza: a Madeira, o Norte e o Centro do país no continente. E devemos olhar para as “pobrezas” do interior desertificado. E para as vítimas das alterações climáticas e dos incêndios devastadores que deixam muitas pessoas sem nada, aguardando ajuda para recomeçar a vida ou condenadas a passar os últimos anos a sofrer com muitas carências.

“É preciso fazer silêncio interior para escutar o clamor dos pobres”, disse D. Manuel Quintas, bispo do Algarve, em Loulé. E lembrou que em Portugal há bastantes pobres que vivem em condições de “privação material severa”.

“Pobre não é só aquele que tem fome de pão”, acrescentou, dando como exemplo “tantos nos estabelecimentos prisionais, nos hospitais, nos lares e em outros lugares, em que “têm como companheira apenas a solidão”.

O Papa Francisco coloca no centro da vida da Igreja e suas comunidades “a pessoa do pobre”. 

“Olhemos para o que os outros sofrem e escutemos o grito dos aflitos, com um coração de carne, que tenha a força do amor necessário para ultrapassar as burocracias institucionais necessárias, mas frequentemente descentradas da pessoa do pobre”.