Pobreza: a injustiça marcada pelo grito dos pobres

D.R.

A cultura do descarte

1. O Papa denunciou as “grandes injustiças” perpetradas em todo o mundo que levam a situações de “indigência” e de descarte dos mais desfavorecidos.

“É a cultura do descarte! Se um homem ou uma mulher é reduzido a ‘excedente’, eles não apenas experimentam os maus frutos da liberdade dos outros sobre eles, mas também são defraudados na possibilidade de ‘arriscar’ a própria liberdade”, assinalou, numa mensagem dirigida aos participantes na oitava edição do Festival da Doutrina Social da Igreja que decorreu em Verona, Itália, em 23 novembro 2018.

O Papa alertou para as consequências de um sistema que privilegia o domínio da tecnologia e promove a redução do homem a “consumidor”.

Seguindo o tema do encontro – “o risco da liberdade” – o pontífice convidou à reflexão sobre o caminho seguido por homens, mulheres, sociedades e civilizações, um percurso muitas vezes desviado por “guerras, injustiças e violações dos direitos humanos”.

Os bens são de todos

2. Numa audiência pública com peregrinos, o Papa salientou a urgência de quebrar com o ciclo de desigualdade e injustiça social que marca a sociedade atual.

Muitos milhões de pessoas vivem numa escandalosa indigência”, apesar de o mundo ter recursos para assegura a todos os bens essenciais, assinalou Francisco.

“A riqueza do mundo está hoje nas mãos de uma minoria, enquanto a pobreza, a miséria, o sofrimento tocam a vida da maioria”, numa distribuição não equitativa dos bens. 

“A riqueza deve ter uma dimensão social, pois “ninguém é dono absoluto dos bens”. “Possuir bens é uma responsabilidade. Aquilo que nos “faz ricos não são os bens, mas sim o amor”, completou.

 “O destino universal dos bens e a sua justa distribuição é anterior ao direito à propriedade privada, que deve estar em função das necessidades primárias das pessoas”, sustentou o Papa, que alertou para a “escravatura” dos bens, ou da posse, que muitas vezes marca as pessoas.

O grito dos pobres

3. O Papa Francisco disse que o “grito” dos pobres é abafado, na sociedade, pelos “cada vez mais ricos”.

“Para todos nós cristãos viver a fé em contacto com os necessitados, não é uma opção sociológica, mas é uma exigência teológica. É reconhecer-se mendigos de salvação, irmãos de todos, mas especialmente dos pobres, disse o Papa no II Dia Mundial dos Pobres, em 18 novembro 2018.

A celebração, com a presença de cerca de 6 mil pobres, voluntários que os acompanhavam e representantes de várias organizações caritativas, ficou marcada pelos alertas de Francisco que deu voz ao “grito dos pobres”:

«É o grito estrangulado de bebés que não podem vir à luz;

é o grito de crianças que padecem a fome, de adolescentes habituados ao barulho das bombas em vez da algazarra alegre dos jogos; 

é o grito de idosos descartados e deixados sozinhos, abandonados;

é o grito de quem se encontra a enfrentar as tempestades da vida sem uma presença amiga; 

é o grito daqueles que têm de fugir, deixando a casa e a terra sem a certeza dum refúgio;

é o grito de populações inteiras, privadas inclusive dos enormes recursos naturais de que dispõem”.

O Papa lamentou que alguns se banqueteiem com “aquilo que, por justiça, é de todos».

A Igreja ao encontro de quem sofre

4. A injustiça é a raiz perversa da pobreza. O grito dos pobres torna-se mais forte de dia para dia, mas de dia para dia é menos ouvido, porque é abafado pelo barulho de poucos ricos, que são cada vez menos e cada vez mais ricos”.

O Papa falou da “coragem de deixar” de lado preocupações para ir ao encontro de Deus e de quem sofre. “Subir até Deus e descer até aos irmãos: eis a rota traçada por Jesus”.

Há uma grande necessidade de pessoas que saibam consolar, não com palavras vazias, mas com palavras de vida. 

Nenhum cristão pode ficar indiferente perante a “dignidade humana espezinhada”, e convidou a “gestos gratuitos”, em favor de quem não os pode retribuir.