Dia Mundial do Doente versus “A insustentável leveza da eutanásia”

D.R.

Por Maria Susana Mexia

O Dia Mundial do Doente é celebrado anualmente a 11 de Fevereiro, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes (França). Esta efeméride foi instituída pelo Papa João Paulo II, em 1992, reiterando a premência de ser “um momento forte de oração, de partilha, de oferta do sofrimento pelo bem da Igreja e de apelo dirigido a todos para reconhecerem na face do irmão enfermo a Santa Face de Cristo que, sofrendo, morrendo e ressuscitando, operou a salvação da humanidade”. 

A vida desenrola-se com os inevitáveis matizes de saúde/doença e é nesta situação que a dignidade e a serenidade devem marcar uma presença forte onde o conforto, o carinho e a amizade serão uma constante a fomentar e a defender. Não faz parte das nossas possibilidades prever o sofrimento, mas ele interpela-nos e conduz-nos à construção de uma nova perspectiva de sentido, mais amplo, abrangente e global. 

A doença é uma escola de aprendizagem para todos, é preciso aprender a viver com ela mas, sobretudo, a lutar pela vida, com paciência e esperança, sabendo que esta nos leva à descoberta de infindáveis capacidades para superar os limites da cadência do tempo.

A realidade do sofrimento no fim da vida preocupa e assusta, todavia o que mais dói é, sem dúvida, a enorme dor da solidão, é ter de sofrer sozinho e sentir-se desamado.

Procurar na “morte assistida”- eutanásia, a fuga ao sofrimento da pessoa, que com doença incurável e numa situação final da sua vida, entenda que não quer continuar a viver, é uma falsa justificação, é confundir a opinião pública.

A grande questão da eutanásia, não consiste em permitir que cada um tenha acesso ao seu suicídio assistido, mas sim no triunfo da visão utilitarista da vida e da “cultura do descarte”. Esta escolha reflecte a ausência de capacidade de resposta para o drama do sofrimento. Mas, mais premente do que querer legalizá-la, será perguntar que mais se poderá fazer por estes pacientes? 

Numa sociedade marcada pela produtividade e pelo bem-estar material, urge reflectir sobre a violência que é todo o atentado à vida humana, em qualquer idade ou situação. 

É bom não esquecer que a Medicina dos nossos dias já tem uma resposta técnica e humanizada para as situações de sofrimento e doença terminal, promovendo a qualidade de vida, no tempo físico que ainda resta: Cuidados Paliativos ou Cuidados Continuados, conforme o caso. São cuidados de saúde activos e totais, prestados aos doentes que não respondem aos tratamentos curativos, desenvolvidos por equipas de profissionais especializadas, que promovem a qualidade e a dignidade do doente. Estes serviços respeitam a vida e encaram a inevitabilidade da morte sem a antecipar ou atrasar artificialmente. São também cuidados globais ao doente e à família, não abdicando da visão integral e holística do homem, tendo sempre em referência a sua dignidade completa na vertente física, psíquica, emocional, social e religiosa, sujeitos às boas práticas médicas nacionais e internacionais.

No meio das contradições, há que lançar a âncora da solidariedade, da palavra de um amigo que conforta e estimula a fé que está dentro de nós, duma oração ou sacramento, dos quais a Unção dos Doentes é a melhor prenda que se pode dar, pois é um bilhete seguro para o Céu. 

Quando se sofre não estamos sós, Deus compadece-se de nós e está ao nosso lado. O sentido da agonia é uma abertura à nova Vida: ela converte-se numa vitória sobre a imanência, naquele instante no qual o presente e a eternidade se tocam e onde o tempo que falta encontra a transcendência que o completa.

A ajuda espiritual é também um direito que ele tem, e todos devem respeitar os valores morais, culturais ou religiosos que a cada homem assistem. Estado laico não significa ateu e muito menos anticlerical, aliás a tolerância é (deverá ser) um apanágio de toda a Democracia.

Tarefa sublime e única que só ao ser humano compete, por ser um animal racional e espiritual e ter a capacidade e possibilidade de construir, à luz dum saber que se quer total e não relativo, amplo e não fragmentado, uma cultura de vida e não de morte, de amor e não de ódio, de acompanhamento nos momentos difíceis e não de argumentos falaciosos, cujo fim é provocar a cisão da vida, recorrendo a palavras enganadoras -morte assistida – cujo fim é nitidamente confundir para convencer. 

Face à realidade do sofrimento final da vida, a solução não é encurtar esse tempo ou eliminá-lo, mas ajudar a vivê-lo com humanidade, fraternidade e solidariedade. Vida com dignidade só é possível quando há vida. Logo à Medicina, ao Estado e à Sociedade compete o dever de assistir, cuidar e proteger a vida, nunca o de a destruir ou o de provocar a morte antecipada.