Pe. Carlos Azevedo diz que Sermão da Sexagésima “continua a ter muito a ver connosco”

Foto: Duarte Gomes

O Museu de Arte Sacra do Funchal, em parceria com a Académica da Madeira e com o Conselho de Cultura da Universidade da Madeira, promoveu uma iniciativa paralela à exposição temporária “O Colégio dos Jesuítas do Funchal. 450 anos” que se encontra patente no referido museu até 31 de janeiro. Tratou-se da leitura do Sermão da Sexagésima (último domingo antes da Quaresma) da autoria do Padre António Vieira. 

Desta vez trocou-se a capela real, que outrora existiu no Terreiro do Paço, em Lisboa, pelo púlpito da Igreja do Colégio e o autor da pregação pelo Pe. Carlos Azevedo Mendes, jesuíta e a ilustre assembleia de então por um bom ‘punhado’ de madeirenses.

Mas já à altura, (1655) o próprio Pe. António Vieira andou, também ele, a fazer ‘trocas’, já que embora no momento da pregação estivesse em Portugal, “considerava-se um missionário pregando no Sertão Brasileiro”.

O sermão desenvolve-se a partir da parábola do Semeador, que foi lida pelo ator António Plácido, e é “uma verdadeira lição sobre a pregação, numa época em que o estilo barroco afetava a arte de pregar. Neste Sermão o Padre António Vieira desmonta artifícios ocos para se focar no que é importante e com isso criou muita animosidade contra si”.

E fariam algumas partes de um sermão do século XVI sentido nos dias de hoje? Foi essa a questão que colocamos ao Pe. Carlos Azevedo Mendes, que nos respondeu desta forma: “Eu acho que continua a ter muito a ver connosco embora, repare, esteja convencido que muitas das críticas que o Pe. António Vieira faz nesta altura, hoje já não se aplicam, pelo menos no que tenha a ver com o conhecimento da palavra de Deus”. 

Naquela altura, recorda-nos o sacerdote, “a missa era toda em latim, em que ninguém percebia nada do que se estava a passar e o único momento em que as pessoas ficavam com alguma coisa era do sermão. Eram sermões de 70 minutos. E este reduzi praticamente para metade”. Claro que se as pregações fossem feitas em aldeias, não demoravam tanto tempo. “Mas este sermão foi numa capela real, onde havia a grande elite de um país a assistir e aproveitavam os pregadores para puxar todas as credenciais”. 

Por outro lado, “estávamos no tempo do barroco, que existiu também na arte da oratória. E o Padre António Vieira diz, ao fim de contas, estamos a pregar a palavra de Deus não estamos a fazer peças que nos contam depois aquilo tudo”.  Este foi, explicou, um texto que lhe “rendeu imensas críticas”. Embora tal não fosse propriamente uma novidade já que “ele entrava assim com muita força e muito veemente naquilo que apresentava”, mas este “granjeou-lhe muitas inimizades, porque ele visava uma área muito concreta de pregadores que lhe tinham criado muitas dificuldades no dia a dia, e ele aqui usa todas as palavras, sem grandes preocupações de parecer bem”.

Por outro lado, frisou o Pe. Carlos Azevedo, passados tantos séculos, este sermão “não deixa de ser uma verdadeira peça sobre a arte de pregar. O que é que é pregar? Bom, está aqui tudo.”

Num breve intervalo a meio da leitura do Sermão foi tocada uma peça de órgão pela professora Galina, do Conservatório.