Diálogo ecuménico e inter-religioso para um mundo melhor

Oração ecuménica na Catedral evangélica luterana de Santa Maria, em Riga | Letónia, 24.09.2018 | Foto: Vatican Media

Um caminho a percorrer

1. Antigamente, a única possibilidade de salvação implicava um retorno à barca de Pedro. Hoje a Igreja pensa diferente e o papa Francisco (2016) recorda isto ao afirmar que “a unidade dos cristãos não comporta um ecumenismo de “marcha ré‟. E na Evangelii gaudium disse: a unidade “nem sequer tolera o proselitismo, que aliás é um veneno para o caminho ecuménico”. O Papa Bento XVI sublinhou que “o martírio é a resposta a uma iniciativa e a um chamamento de Deus”.

Visitando, em 2008, a Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina, dedicada à memória dos mártires do século XX, Bento XVI destacou que “aparentemente parece que a violência, os totalitarismos, a perseguição e a brutalidade cega se revelam mais fortes, silenciando as vozes das testemunhas da fé, mas Jesus ressuscitado ilumina seu testemunho” (Homilia de 7 de abril de 2008).

Para o Papa Francisco, “os mártires pertencem a todas as igrejas e o seu sofrimento constitui um” ecumenismo de sangue “que transcende as divisões históricas entre os cristãos, chamando todos a promover a unidade visível dos discípulos de Cristo” (Declaração Conjunta de Francisco e Karekin II em Saint Etchmiadzin,  Arménia, 26.06.2016).

Oração, trabalho e sangue

2. No discurso dirigido aos participantes da Conference of Secretaries of Christian World Communions, em outubro de 2016, o Papa Francisco disse que “o ecumenismo é feito num caminho de forma tríplice: um ecumenismo da oração, do trabalho e do sangue.

Ao ecumenismo da oração, os padres do Vaticano II chamaram-no ecumenismo espiritual. Implica a conversão do coração e a santidade de vida, “juntamente com as orações particulares e públicas pela unidade dos cristãos.” “A vida espiritual alimenta-se, nutre-se da oração e manifesta-se na missão, isto é, “rezar” em comum e “anunciar” juntos que Jesus é o Senhor”. (Francisco 2014)

O ecumenismo do trabalho, com “ homens e mulheres que hoje sofrem injustiças, guerras”. Francisco assinou uma Declaração Comum (DC) com o papa da Igreja Copto-Ortodoxa, Tawadros II, no sentido de se dar uma resposta compartilhada, fundada nos valores do Evangelho e nos tesouros das respetivas tradições: sacralidade e dignidade da vida humana, matrimónio e família, respeito por toda a criação, multiplicidade de desafios contemporâneos, com destaques para a secularização e a globalização da indiferença (DC, 7-8). 

O ecumenismo do sangue expressa-se na irmandade de cristãos de todas as Igrejas e tradições teológicas perante as perseguições. O martírio é fonte teológica a redefinir o ecumenismo. Francisco insere no martirológio da Igreja de Roma, aqueles que perderam suas vidas por amor ao Evangelho.

Os mártires pela unidade dos cristãos

3. Merecem uma menção especial os cristãos que conscientemente deram suas vidas pela causa da unidade dos cristãos.

Max Josef Metzger pouco antes de sua execução – às mãos dos nazis – escreveu: «Agora o Senhor quer que eu sacrifique minha vida. Eu pronuncio meu feliz sim à sua vontade. Ofereci-lhe minha vida pela paz no mundo e pela unidade da Igreja. Ele quer isso”.

O teólogo protestante e mártir Dietrich Bonhoeffer definiu a estreita ligação ecuménica entre os cristãos nas diversas Igrejas durante sua resistência ao regime de violência nazista e comunista, e releva a forma mais credível do testemunho cristão comum. Os mártires estimulam para continuar a construir a unidade dos cristãos. Nos mártires  “está presente o cristianismo indiviso e foi superada a divisão da Igreja”.

João Paulo II viveu na esperança de que, após o primeiro milénio da história cristã, tempo da Igreja indivisa, e após o segundo milénio, de profundas divisões na Igreja, tanto no Oriente como no Ocidente, o terceiro milénio tivesse a grande tarefa de restaurar a unidade perdida dos cristãos. Um trabalho diante do qual nos encontramos hoje.

Abertura ao mundo moderno

4. O Papa Francisco trouxe a um mundo marcado pelo vazio existencial, sentimentos de esperança, de acolhimento, de alegria, de sentido da vida. Reiterando a abertura do Vaticano II, lança o desafio de se repensar a fé e a relação da Igreja com o mundo, fazendo-a voltar aos ideais dos primeiros tempos . Reacendeu a esperança daqueles que se dedicam ao movimento ecuménico e ao diálogo inter-religioso, mostrando-se disposto a dar continuidade à abertura proporcionada pelo Vaticano II, ressaltando o grande significado que aquele concílio tem para o caminho ecuménico.

O Papa tem-se destacado como um papa ecuménico. Seu pontificado tem sido marcado por encontros ecuménicos e inter-religiosos, tanto em Roma, como nas viagens apostólicas que faz a diversos países do mundo. 

Francisco quer uma Igreja aberta ao diálogo, e às outras expressões da fé cristã e às outras religiões. A nossa realidade não suporta mais exclusivismos. A Igreja católica deve abrir suas portas e deixar entrar o ar novo da realidade pós-moderna, marcada pelo pluralismo eclesial e religioso. 

Nesse sentido, o papa Francisco surge como a nova esperança para a Igreja, para o movimento ecuménico e para o diálogo entre as religiões, tendo em vista construir um mundo melhor.