Iraque: Arcebispo alerta para “consequência trágica” de uma guerra e pede fim da escalada de tensão entre EUA e Irão

D. Bashar Warda, Arcebispo de Erbil, Iraque.

A escalada de tensão entre Teerão e Washington não deve crescer para que o risco de uma guerra não volte a incendiar o Iraque, deitando por terra todo o esforço de recuperação e reconstrução que tem vindo a ser realizado após a derrota dos jihadistas do Daesh em 2017. O alerta é do Arcebispo de Erbil num comunicado ontem enviado para a Fundação AIS.

Segundo D. Bashar Warda, “as tensões actuais” entre Estados Unidos e Irão “não devem aumentar”, pois isso poderia traduzir-se num cenário terrível para o Iraque.

O pedido de contenção aos dois países ocorre num momento extremamente sensível depois de Teerão ter ordenado o ataque, com mísseis, a duas bases militares norte-americanas no Iraque, uma delas situada precisamente em Erbil, no chamado Curdistão iraquiano.

O ataque, na madrugada de quarta-feira, não terá provocado vítimas, segundo o próprio presidente dos Estados Unidos que ontem mesmo, quarta-feira, numa declaração ao país, anunciou um conjunto de novas sanções económicas contra o Irão.

O conflito entre os dois países e o risco de uma escalada bélica teve início na passada sexta-feira, dia 3 de Janeiro, por causa do assassinato, através de um drone, do poderoso general iraniano Qassem Soleimani, com Teerão a lançar de imediato juras de vingança implacável e acabando por rasgar, já esta semana, o importante acordo sobre o programa nuclear do país.

É neste contexto extremamente sensível que o Arcebispo de Erbil – que já esteve em Portugal, em Novembro de 2016, a convite da Fundação AIS – vem pedir aos dirigentes dos dois países para darem uma oportunidade à paz. O Iraque, lembra D. Bashar Warda, “tem vindo a sofrer guerras por procuração desde há décadas”, a mais recente das quais terminou em Maio de 2017 com a derrota do Daesh, o auto-proclamado Estado Islâmico.

Desde essa altura, sublinha o prelado, “a nossa arquidiocese tem vindo a trabalhar com outros líderes da igreja, agências cristãs, agências humanitárias, governos e ONG’s, para ajudar a reconstruir as comunidades fragmentadas em Mossul e na Planície de Nínive”. Tem sido um caminho “muito desafiador”, lembra o Arcebispo de Erbil, “arrecadar fundos e apoio internacional para nos ajudar a recuperar fisicamente o que perdemos a partir de Agosto de 2014”.

Também por isso é urgente que a guerra não volte a ameaçar tão frágil realidade. “As pessoas estão cansadas da guerra e das suas consequências trágicas. Sofreram demais e não podem mais enfrentar um futuro desconhecido. Precisam de ter certezas, segurança, esperança e de acreditar que o Iraque pode ser um país pacífico para se viver, em vez de ser vítima de danos colaterais sem fim.”

Afirmando que, “como líderes da Igreja seguiremos sempre o caminho de Deus em busca de paz, reconciliação, diálogo mútuo e não de conflito”, o Arcebispo de Erbil lembrou, no breve comunicado enviado ontem à Fundação AIS, as palavras recentes do Cardeal Louis Sako que também alertou para o sentimento de “medo e ansiedade” do povo iraquiano perante a possibilidade de ter de enfrentar uma nova guerra.

De facto, o Patriarca Sako afirmou, após o assassinato do general iraniano, que as pessoas “têm medo de que o Iraque se transforme num campo de batalha, em vez de uma pátria soberana capaz de proteger os seus cidadãos e riqueza”. Tanto D. Louis Sako, como agora D. Bashar Warda defendem o diálogo para a paz e pedem à comunidade internacional para ajudar a fazer esse caminho. “Rezamos pela paz”, diz o Arcebispo de Erbil no final do comunicado, e para que “o diálogo possa ter um resultado justo e pacífico”.

Na última década, particularmente desde o início da guerra civil síria em 2011, apoiar as comunidades cristãs do Médio Oriente tem sido uma das principais preocupações da Fundação AIS/ACN.

Nesse período, a ACN forneceu mais de 100 milhões de euros em apoio humanitário e outros apoios essenciais aos cristãos do Médio Oriente, dos quais mais de 46 milhões de euros foram aplicados somente no Iraque.