Presépio: a pobreza mora ao nosso lado

D.R.

Os pobres e os simples 

1. No Presépio, os pobres e os simples lembram-nos que Deus Se faz homem para aqueles que mais sentem a necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade. Jesus nasceu pobre. Diante do Presépio não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade. Nascendo no Presépio, o próprio Deus dá início à única verdadeira revolução que dá esperança e dignidade aos deserdados, aos marginalizados: a revolução do amor, a revolução da ternura. Do Presépio, Jesus proclama o apelo a um mundo mais humano e fraterno.

Nos nossos Presépios, costumamos colocar muitas figuras simbólicas: pastores, mendigos e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração. Estas figuras estão próximas do Menino Jesus de pleno direito. Os pobres são os privilegiados deste mistério e aqueles que melhor conseguem reconhecer a presença de Deus no meio de nós. (Admirabile Signum 6)

Funchal: uma sociedade mais justa

2. O cardeal madeirense D. José Tolentino Mendonça presidiu à Missa da Solenidade do Natal, na Sé do Funchal, destacando as consequências sociais da celebração do nascimento de Jesus.

“O Natal de Jesus compromete-nos na construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna, com menos desigualdade, menos indiferença e menos solidão. Contra o descarte que mata, o Natal inicia-nos na arte da inclusão.”.

Citou o Papa Francisco para falar num “terrorismo da indiferença”, que exige, como resposta, “uma cultura do encontro” e destacou a “espantosa reviravolta” que se opera com o nascimento de Jesus, quando o “Deus transcendente se torna próximo, vizinho. A nossa existência torna-se a tenda de Deus”, precisou. “O Natal implica, sim, a emergência do novo: pede-nos uma renovada audácia de ser. Esta novidade que Jesus representa traduz-se em percursos de esperança em vez do desalento; (…) em percursos de investimento no humano contrariando o fatalismo dos que pensam que nada se pode fazer”, declarou.

Cáritas: unidos contra pobreza

3. O presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, afirmou a necessidade de “pactos de regime” para ultrapassar situações de pobreza e desigualdades apontadas pelo presidente da República, na mensagem de Ano.

“A ideologia não mata desigualdades, a ideologia não mata a indiferença, não mata a fome, a ideologia não dá saúde”, afirma. E gostaria de ver os nossos parlamentares unidos em situações de saúde, de distribuição de rendimentos, mostrando que a vida política é servir o povo, sobretudo os mais carenciados. 

Marcelo Rebelo de Sousa recordou que “um em cada cinco portugueses” vive em situação de pobreza “ou (está) em risco dela”. O Presidente da Cáritas considerou esta passagem de ano na ilha do Corvo, com cerca de 430 habitantes, como “simbólica” e “profunda”, com a intenção de convocar o olhar das pessoas para o que “muitas vezes a sociedade se recusa a ver, tem receio de ver, tem suspeições sobre o que vê”. 

O povo português sabe ser solidário, é um povo pacífico, mas os baixos salários que aufere não dão dignidade a quem trabalha e ao trabalho que fazem”, conclui.

Açores: Ao encontro dos pobres

4. D. João Lavrador exortou, na noite de Natal, os cristãos a irem ao encontro “de todos os pobres, despojados pela sociedade do consumo, dos excluídos” da cultura e da religião. Note-se que os Açores são a região mais pobre do país.

Na Igreja Matriz da Horta, Faial, o bispo das Ilhas disse ser necessário ir junto dos “esmagados pela violência e pela fome, com gestos concretos”. Para o prelado, “a pessoa humana, mergulhada numa cultura que ofusca a dimensão transcendente das criaturas, (…) que se diverte com prazeres momentâneos e  seduções alienantes, tem absoluta necessidade de criar as condições” para que o eco “vindo do céu, desperte a caminhada para um verdadeiro encontro com Aquele que acaba de nascer”.

O prelado termina, pedindo à Mãe do Céu a bênção para “as famílias, as crianças, os idosos e os doentes, os jovens e os excluídos, os pobres e os emigrados  e os que sofrem de violência ou de injustiça (…) no mundo de hoje”

A situação das IPSS

5. O bispo de Santarém disse no dia 1 de janeiro que é seu “dever partilhar a preocupação que se vive nas Instituições de Solidariedade Social (IPSS)”.

 “As IPSS vivem uma situação de preocupação quanto ao futuro do serviço que prestam, devido à dificuldade económica que atravessam”, referiu D. José Traquina,  na Sé de Santarém.

Enfrentamos o aumento dos “encargos sociais para o seu funcionamento e a redução das receitas, em virtude da fragilidade social com a diminuição e envelhecimento da população”.

Para a sociedade civil “não é bom” que as suas instituições sociais “sejam asfixiadas, por falta de condições económicas para corresponder aos serviços que prestam, em conformidade com as exigências legais”, frisou o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana.

Porto: proximidade à pobreza e solidão

6. D. Manuel Linda dirigiu a mensagem de Natal aos seus diocesanos, destacando a “pobreza e solidão do presépio”. “Aquela família não tem nada nem tem ninguém, só a solidão e os animais mas, Deus providencia”, diz o bispo do Porto.

Juntam-se os pastores e os reis do Oriente e a “solidão completa e a pobreza total transformam-se em convívio, como os nossos presépios representam, e nas prendas que alimentam o Menino e família”.

“Tantas famílias e pessoas na pobreza que não se suporta e solidão que não se compreende; estejamos com elas, batamos-lhes à porta, levemos um sorriso, um carinho,  e, porventura o que lhes faz falta na mesa”, apela.

D. Manuel Linda faz um convite: que o novo ano de 2020 “jamais seja um ano de solidão”, mas um “ano de companhia, graça e solidariedade, pois todos formamos a Igreja e a sociedade.