Imaculada Conceição: Deus “quer-nos santos e irrepreensíveis, à imagem do próprio Cristo”

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal presidiu este domingo, dia 8 de Dezembro, à Eucaristia em honra da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, na Sé. No decorrer da celebração, o prelado lembrou São Paulo, quando este dizia que Deus, “ao criar cada um de nós, quer-nos santos e irrepreensíveis, predestinados para sermos filhos, herdeiros dos bens divinos, à imagem do próprio Cristo”. Quer isto dizer que “não fomos criados para o mal; não fomos criados para o sofrimento; não fomos criados para a desordem. Todo e qualquer ser humano, é criado para Deus à imagem de Cristo.”

Mas a homilia começou com Nuno Brás a referir-se à palavra proclamada, para explicar que ela “apresentava-nos, como que em três quadros de um belo altar, as três situações em que decorre a nossa vida humana e cristã.”

O primeiro quadro, o da esquerda do retábulo, fala-nos da Iª leitura e mostra-nos “a situação habitual do ser humano: aquele modo de viver marcado pela fuga, pela vergonha e pelo medo diante de Deus; pela mentira acerca daqueles com quem vivemos e a quem não raras vezes culpamos pelos nossos erros; pela inimizade com o criado.”

Adão e Eva, de que nos fala essa leitura, “são verdadeiramente aquilo que, de um modo ou de outro, é cada um de nós.” Isto é, “representam a cada um e a toda a natureza humana quando esta se conforma com a vida longe da graça divina: Deus torna-se em alguém distante, de quem temos medo, quando se descobre a nudez do nosso pecado, a mediocridade do que somos, daquilo em que se transformou a nossa vida; os outros tornam-se num objecto sobre quem descarregamos as nossas incapacidades, com quem nos desculpamos quando somos confrontados e iluminados pela luz e pelo amor de Deus; o mundo à nossa volta torna—se num inimigo que ameaça.”

Já no quadro à direita do retábulo, surge a referência à IIª leitura e a São Paulo, quando este recordava a “vocação que Deus faz a todo e qualquer ser humano.” S. Paulo, lembrou D. Nuno, “recordava aos cristãos de Éfeso a vontade, o desígnio do Pai acerca de todos os seres humanos. Dizia o Apóstolo que, ao criar cada um de nós, Deus nos pensa: quer-nos santos e irrepreensíveis, predestinados para sermos filhos, herdeiros dos bens divinos, à imagem do próprio Cristo.“

De resto, a nossa vida sobre a terra, disse D. Nuno, “consiste precisamente na oportunidade que nos é dada de nos transformarmos de protagonistas do primeiro quadro para actores decididos e ousados do terceiro. O plano salvador de Deus (o seu desígnio, aquilo a que os escritores do Novo Testamento chamam o “mistério de Deus”) consiste precisamente na oportunidade que a todos é oferecida de deixar que a Graça divina actue em nós e nos transforme.” 

Solenidade da ‘Cheia de Graça’

Depois, entre os dois painéis do retábulo, surge o quadro principal, em que “o Anjo Gabriel enviado por Deus a uma Virgem chamada Maria”, a quem não trata “pelo nome comum com que era conhecida (Maria), mas com um outro nome, conhecido apenas de Deus, e que trazia também consigo uma missão: “kecharitoméne” [κεχαριτωμένη], a “Cheia de Graça”, ou, para sermos mais rigorosos, a “Agraciada”, aquela a quem foi feita a Graça divina.”

A solenidade de hoje, frisou, “celebra precisamente a realidade que o nome da saudação angélica expressa: ‘Cheia de Graça’. E a “Graça de Deus, o seu favor outra coisa não é senão a própria vida divina que nos é concedida a nós, seres humanos, sem quaisquer méritos da nossa parte (vida que nos transforma interior e exteriormente, que nos salva) — a Graça de Deus preenche plenamente a vida, a existência, o pensamento, o querer, a imaginação, o sentimento e o agir da Virgem de Nazaré.” Toda ela, frisou, “é de Deus. Toda ela é entrega à vontade divina. Nada na sua vida se encontra fora, à margem que seja, daquele desígnio divino de salvação.”

Na verdade, continuou, “a Graça divina deu, desde sempre, forma à existência, ao ser de Maria: é a forma do acolhimento, que as pinturas da Anunciação tão bem retratam; a forma daquela que escuta, que acolhe; a forma daquela  que se deixa moldar toda por Deus; a forma daquela que, longe de se encher de medo, longe de procurar fugir ao encontro, à presença de Deus, antes se mostra disponível: ‘Faça-se em mim segundo a tua palavra’.”

De acordo com o prelado, não é possível “passar do primeiro para o terceiro quadro do retábulo do nosso altar (que é, afinal, a representação da história da salvação) sem esta atitude da “Cheia de Graça”. O mesmo é dizer: sem a disponibilidade, a escuta e a ousadia da Virgem de Nazaré. Apenas tal atitude constitui o ser humano no terreno fértil que permite à Graça divina actuar, transformar, converter.”

Assim sendo, “é o quadro central que nos mostra a forma da nossa existência batismal. Aquilo que na Virgem é o desígnio divino que desde a eternidade a tornou salva, Cheia de Graça, é em nós o baptismo. Saímos das águas baptismais cheios de graça, envolvidos no amor divino, salvos na morte e ressurreição de Cristo.”

Por isso, e tal qual sucedeu com a Virgem, “também em nós a Palavra divina quer fazer-se carne; quer fazer-se vida e, por meio de nós, chegar a tantos outros, que vivem simplesmente os dramas do primeiro quadro do retábulo, ignorando a sua vocação, o pensamento, o desígnio de Deus — o Deus que, também a eles, predestinou para a santidade.”

Daí o apelo com que o bispo diocesano terminou esta sua homilia: “Disponhamo-nos, irmãos, a acolher, definitivamente, a Palavra divina. A deixar que, como na Virgem Maria, a Palavra dê forma e conteúdo à nossa existência, transformando-a, convertendo-a, fazendo-a mais divina — a ela e ao mundo em que vivemos.”

Cuidar da catedral no sentido de realidade viva

A Eucaristia deste domingo foi precedida da Oração das Vésperas, durante a qual teve lugar a tomada de posse dos quatro novos cónegos do Cabido da Catedral. Os empossados foram os padres Manuel Ramos, Rui Pontes, Toni de Sousa e Marcos Gonçalves, que depois concelebraram a Eucaristia, conjuntamente com os restantes membros do cabido e com o bispo emérito D. Teodoro de Faria.

D. Nuno Brás agradeceu a disponibilidade dos novos cónegos que, entre outras funções, passam agora a ter também a de “cuidar da catedral, não apenas em termos de património, não apenas em termos de preservação daquilo que nos foi deixado, mas cuidar da catedral no sentido de realidade viva, enquanto igreja mãe da diocese”. 

Além disso, “o cabido tem ainda a função de aconselhar o bispo nas questões mais importantes. E algumas vezes o bispo tem mesmo o dever de seguir a decisão do cabido”, explicou D. Nuno, que não escondeu a sua alegria por ver “o cabido renovado, com mais força e mais vigor”. Terminou desejando que “o Senhor ajude os novos cónegos e todo o cabido”.