Para discutir eutanásia, «sociedade tem de responder a 90% dos pacientes com cuidados paliativos»

Especialista brasileira defende valorização da espiritualidade na assistência médica

Ana Cláudia Quintana Arantes | D.R.

“Penso que a nossa sociedade não tem maturidade para discutir a eutanásia. Eu só vou ouvir uma discussão da eutanásia, com muita atenção, num país que tenha a possibilidade de oferecer cuidados paliativos para 90% dos seus doentes”, afirmou a especialista em cuidados paliativos do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, no Brasil, citada pelo jornal «Folha do Domingo».

Em Portugal, para participar na 1ª Jornada de Espiritualidade do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) que refletiu sobre a importância desta dimensão nos cuidados de saúde, a especialista afirmou que os cuidados paliativos precisam ser “um direito acessível a todos”.

“Enquanto as pessoas não tiverem, não vai dar para conversar”, complementou,

Ana Cláudia Arantes disse que a eutanásia corresponde a uma “corrupção do corpo” porque “diz respeito à possibilidade de um controle idealizado da morte”.

“As pessoas que procuram a eutanásia têm a perceção de que o sofrimento pode ser abreviado e eu considero legítimo ter o direito de pensar o que você quiser. Eu respeito quem pede e respeito quem faz, mas eu não faço. Não posso dizer se um dia eu vou pedir, porque não podemos julgar o peso de um fardo que não se carregou ainda”, sustentou.

No entanto, no entender da médica especialista em cuidados paliativos, a eutanásia é “uma tentativa de experimentar algo que ainda não existe”.

“A eutanásia é uma alternativa a não vivenciar o sofrimento. Então, as pessoas preferem morrer a sofrer”, evidenciou, alertando que a questão deve colocar-se ao nível dos cuidados paliativos.

Autora do livro «A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver», Ana Cláudia Quintana Arantes defendeu a importância de “avaliar, cuidar e respeitar a dimensão espiritual” nos cuidados de saúde, olhando para a pessoa nas suas dimensões física, emocional, familiar e social equilibradas.

Para a especialista “ciência e espiritualidade andam de mãos”, acrescentando que, de acordo com alguns estudos na área das neurociências, ter um capelão “é importantíssimo”, no entanto lamentou que a forma como se recomenda a assistência espiritual “facilita ou impede o acesso das pessoas a esse profissional”.

Perante a doença, o assistente espiritual tem a tarefa de ajudar o paciente a “reconfigurar a perceção” que ele tem sobre a doença.

LS