Livro ‘Mala da Partilha’: D. Nuno Brás diz que “os migrantes salvam-nos, porque nos mostram o rosto de Cristo”

Foto: Duarte Gomes

O auditório do Centro de Estudos de História do Atlântico, no Funchal, acolheu ao fim da tarde desta quarta-feira, a cerimónia de apresentação do livro ‘Mala da Partilha – Testemunhos de Vida de Migrantes’. Esta obra resultou da recolha de testemunhos por várias dioceses do país, incluindo a Madeira, na sequência do roteiro cumprido por essa ‘Mala da Partilha’, simbolizando a viagem empreendida pelos migrantes.

Nessa mala foram sendo colocadas cartas que contam experiências de vida, narradas na primeira pessoa, de gente que deixou a sua terra em busca de um futuro mais risonho, para si e seus. A Cáritas Portuguesa compilou esses testemunhos num livro e foi essa mesma publicação que ontem foi apresentada. 

O momento contou com a presença de D. Nuno Brás, D. António Carrilho e D. Teodoro Faria, mas também de José Manuel Rodrigues e Augusta Aguiar, em representação da ALRAM e do Governo Regional, respetivamente, tal como de representantes de diversas entidades civis e militares.

Na oportunidade D. Nuno Brás, que acompanhou de perto esta iniciativa da ‘Mala da Partilha’, já que foi o próprio que a transportou entre o continente e a Madeira, disse que a mesma foi “simbólica”, mas frisou que ela “vale precisamente pelo simbolismo de nos chamar à atenção para a cultura do encontro que na nossa ilha, graças a Deus, é espontânea”. Neste sentido, prosseguiu, “os migrantes são a ponta de um icebergue que são os pobres de hoje”. Aqueles que, segundo diz o Santo Padre na mensagem para o Dia dos Pobres que se irá assinalar a 17 de novembro, são os que precisam do outro. Neste sentido, “todos somos pobres, porque precisamos uns dos outros, mas há uns que precisam mais”. Muitas vezes, disse o prelado, nos tornamos indiferentes e “olhamos para o pobre e os migrantes como se fossem transparentes. Alguém que nós não vemos, por quem passamos sem olhar”. 

Ao mesmo tempo, no entanto, “o pobre sabe que Deus não o abandona. É o homem da confiança”, por isso Jesus não hesitou em confiá-los aos cuidados dos seus discípulos, fazendo sentir a todos que ninguém é excluído. O Santo Padre diz mesmo, citou, que, os pobres salvam-nos, porque nos permitem encontrar o rosto de Jesus Cristo”. Neste caso, continuou, “os migrantes salvam-nos porque nos mostram o rosto de Cristo”.

O recordar de como foi a passagem da ´Mala da Partilha’ pela nossa diocese foi tarefa confiada a Paula Margarido, do Secretariado Diocesano das Migrações e Turismo que recuperou, através de um inúmero conjunto de imagens, aquele que foi o trajeto empreendido pela mala, que passou por diversas Paróquias da Região. De resto, lembrou o papel preponderante da Cáritas e do Secretariado em todo este processo, qualificando o valor humano e social inestimável da iniciativa e da obra que dela resultou.

A apresentação do livro propriamente dita, esteve a cargo de Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, e de Filipa Abecasis, coordenadora da obra.

No arranque da cerimónia, coube a Graça Alves, do Centro de Estudos de História do Atlântico, fazer as ‘honras da casa’, numa sessão onde foi ainda ouvida a mensagem do Papa Francisco aos migrantes e refugiados, aqui se lembrando que o projeto ‘Mala da partilha’ resulta da campanha ‘Partilhar a Viagem’, da Cáritas Internacional, lançada em 2017 a partir do Vaticano, que o Papa quer “que se prolongue por mais dois anos, dados os resultados que tem alcançado”, conforme referiu Eugénio Fonseca. O presidente da Cáritas aproveitou ainda para frisar que a Diocese do Funchal foi aquela onde “melhor se acolheu esta iniciativa simbólica”.

A ‘Cultura do Encontro’, que se vive na Região e de que D. Nuno Brás falou, foi ainda enaltecida por Duarte Pacheco, presidente da Cáritas Madeira, que tem acompanhado alguns dos regressados da Venezuela. Da mesma forma que Augusta Aguiar garantiu que o executivo madeirense vai continuar a sua política de bom acolhimento.

Já Eugénio Fonseca alertou ainda para os preocupantes sinais de xenofobia que parece que vão sendo dados no País, Região à parte, conforme fez questão de ressalvar.