E depois… medo ou comunhão dos santos?

D.R.

Neste tempo de pensar líquido e politicamente correto é frequente não dar pela questão: e depois? A transição do mês de outubro para o de novembro funciona como um “não esqueças”. Ainda recentemente um amigo que até se declarou cristão dizia que Deus era tão bom e misericordioso que era impossível haver inferno. Não valia a pena argumentar perante convicção tão firme. A luz poderá vir de Jesus na oração; todos podem sobrevir dúvidas de fé. Para outros, quase a dizer que a vida não é para ser vivida a sério, uma parábola.

Num certo país da utopia o ministro da educação reuniu-se com os secretários, diretores e representantes dos sindicatos e decidiram que nas escolas deixaria de haver qualquer avaliação, exames ou reprovações. Os alunos estudassem ou não, fossem à escola ou preferissem distrair-se em discotecas, a destruir montras e a queimar os livros, todos teriam 20 valores no fim do ano. Era preciso, diziam, ser compreensivo com todos e não discriminar entre bons e maus estudantes. Ao saber desta decisão, também o ministro do trabalho decidiu pagar o salário máximo a todos os trabalhadores mesmo que não pusessem os pés no emprego para se ocuparem de tudo e até roubar no emprego.

A Igreja para ser fiel ao Evangelho e a Jesus seu autor renova, ano a ano, no mês de novembro, que a vida é mesmo para ser vivida a sério. Para as falhas lembra o que Jesus repetiu: arrependei-vos, amai o Pai e todos os vossos irmãos. Amai e adorai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com ações de bondade alimentando e vestindo os mais necessitados. É dado tempo, até ao último instante, antes do julgamento final, ao arrependimento pelo mal feito e o perdão para ser aceite em comunhão de santos no banquete da festa eterna. A seriedade no viver encontra muitos obstáculos. As fraquezas são frequentes, diárias, mas não são problema.

O Senhor é misericordioso e compassivo e perdoa até mil vezes por dia os que se arrependem de coração. O maior obstáculo é o orgulho de se pôr no lugar do Criador e Pai. O orgulho pode arrastar um cortejo de maldades: egoísmo avarento, adoração dos prazeres destrutivos, violências homicidas. Mas o pior de tudo é não se arrepender até o último instante. A falsidade interior, para Deus e para os outros provoca angústias e gera tabús, a recalcamentos e desvios de esconjuração.

Enquanto a fé cristã propõe a oração pelos fiéis defuntos, louvores por todos os santos e o temor de Deus em relação ao inferno; os recalcamentos sem arrependimento nas angústias do pecado arrastam a tabús de medo sobre a morte, a falsos exorcismos, a bruxarias e crendices sobre as almas do purgatório que esperam as orações dos cristãos. São tentativas de justificar a falta de crença na vida eterna e nas palavras e divindade de Cristo. Enquanto inúmeras revelações de místicos, embora não de fé obrigatória, apelam à fé cristã do valor das orações pelas pessoas falecidas; os ritos supersticiosos pagãos dos Halloween tendem a substituir a crença na vida eterna dos santos e das almas do purgatório com bruxarias e fantasmas de palhaçada para afugentar o medo da morte.

Os filmes de terror e horror, apesar de ficção, funcionam como esconjuros ao medo da morte. O terror, horror e loucura como que se associam na cultura secularizada e pagã para preencher o vazio cada vez mais angustiante que se respira. Morte, nem pensar; terror de esquartejamento de vivos como espetáculo, sim. As produções de terror e horror são procuradas para esconjurar ansiedades quase (?) delirantes. Em vão. Satanás não expulsa satanás. Antes faz passar os mortos vivos a vivos mortos e a robots satânicos. Será saudável brincar aos demónios? Quão diferentes são as experiências de fé em Cristo ressuscitado, que morreu pelos pecadores e pode dar paz e confiança no perdão cultivada na oração e celebrações de comunhão nestes dias de todos os santos e dos fiéis defuntos. Nada substitui a crença confiante na vida eterna e n’Aquele que a garante.