Missão: não esquecer quem “jogou a vida” pelos outros

Foto: Ecclesia

O desafio da missão 

O Ano Missionário 2018/2019 foi encerrado ontem, em Fátima, com presença das dioceses do país. Presidiu à Eucaristia D. Manuel Clemente: “O desafio cultural da missão é hoje grande, exigindo mais capacidade de escuta e mais disponibilidade dialogante: “ouvindo o que nos dizem e dizendo o que nos cumpre”, disse na homilia.

O cardeal-patriarca de Lisboa referiu a grande aglomeração de pessoas e etnias” nos ambientes urbanos, sem “reconhecimento e comunicação interpessoal autêntica. Por vezes o ‘sair de casa’, em sentido missionário, pode significar virar a esquina e entrar num mundo bem diferente ali ao lado, sustentou.  Para a ‘missio ad gentes’, ficando ou partindo, regressando ou voltando a partir, o campo é sempre o mundo inteiro.

 Afirmou também que “oração e missão andam a par”, “não vai uma sem a outra”, “a fé confirma-se na missão e a missão confirma a fé”, sublinhou.

 “Agradeçamos a Deus tanta generosidade nos missionários – sacerdotes, consagrados e leigos”, concluiu D. Manuel Clemente.

O Ano Missionário em Portugal foi proposto pela CEP, em maio de 2018, depois de o Papa Francisco ter convocado um “mês missionário extraordinário” para outubro de 2019, por ocasião do centenário da Carta Apostólica ‘Maximum Illud’, de Bento XV.

Homenagem à missionação portuguesa

Na inauguração da estátua de D. António Barroso, em Cernache do Bonjardim (Sertã), ontem (20/10), D. Manuel Linda, bispo do Porto, afirmou: “Este monumento traz-nos à memória a história tensa entre libertação, salvação e inculturação”.

Referiu que os missionários são os “maiores fomentadores da verdadeira cultura da globalização”, e os construtores do “homem novo”, a “exemplo de Jesus Cristo”. “É preciso resgatar do esquecimento todas estas dimensões, dar voz a quantos, por estas razões, sofreram a solidão, a doença, o martírio e a própria morte”, afirmou.

Para D. Manuel Linda, o monumento a D. António Barroso deve constituir um desafio á Igreja e à sociedade civil e política, resgatando a “amnésia” em relação ao trabalho missionário, nomeadamente do voluntariado:  “… a exemplo do que acontece em muitos países civilizados do mundo, que as centenas de leigos e religiosos que todos os anos partem para a missão não sejam prejudicados nos seus direitos sociais, mas obtenham o justo reconhecimento”, salientou.

D. António Barroso, natural de Remelhe, nasceu no dia 5 de novembro de 1854 e morreu no dia 31 de agosto de 1918, no Porto, com 63 anos

Foi aluno do Colégio das Missões Ultramarinas, em Cernache do Bonjardim. O Colégio foi frequentado por cinco mil homens e desses foram ordenados 320 padres, cujos nomes ficam inscritos na estátua. 

Na estátua de homenagem, em bronze, D. António Barroso aparece com uma cruz numa mão e uma enxada na outra, símbolo do anúncio do Evangelho e do trabalho pela promoção e desenvolvimento dos povos. Foi missionário no Congo, bispo em Moçambique, entre 1891 e 1997, depois bispo de São Tomé de Meliapor, na Índia, entre 1887 e 1889, e bispo do Porto desde 1889 e até 1918.

70×7

A 21 de outubro de 1979 ia para o ar a primeira emissão do “70×7”. O Padre António Rego foi um dos fundadores deste programa. Pensou, com o colega Manuel Vilas Boas, em criar um novo programa religioso de televisão. E recorda os primeiros anos, em que percorreu o país com câmara às costas e microfone em punho para “relevar o que a Igreja fazia”.

“O que me lembrei e o que veio de novo foi que o programa passou a ir à realidade e a entrevistar as pessoas percorrendo todo o país: “visitar as comunidades, ouvir os jovens e os idosos, gravar experiências diferentes que havia”, sublinha.

O “70×7” surge poucos anos depois do Concílio Vaticano II, que se realizou em 1961. Por isso mesmo houve reações positivas, e algumas críticas.

 “O programa era visto em todo o país, e isso era estimulante. Terá ajudado a abrir horizontes”, disse. Procurávamos falar da evangelização de uma maneira acessível. 

O momento mais marcante, foi o programa dedicado à Cartuxa, em Évora, emitido em Abril de 1982. Um programa que recebeu um Prémio da Associação Católica Internacional de Cinema e Televisão.

“Para filmar a Cartuxa, temos de estar muito calados, não necessário que os irmãos falem muito, é preciso que saibamos fazer silêncio e quase nos tornarmos um pouco monges e captar aquilo que parece que não é captável em televisão, que é a experiência do silêncio”, conclui.

Missão “diálogo entre religiões”

O Presidente da República recorda o programa “70×7” como uma ponte de diálogo entre religiões. “Dentro do espírito de abertura ecuménica, a liberdade religiosa, de diálogo entre religiões, confissões e Igrejas passou a ser uma ponte para essas confissões, para essas comunidades e Igrejas, não deixando de ser a voz dos católicos, ou se quisermos, de forma mais geral, dos cristãos, num país aberto e ecuménico”, afirmou o Presidente da República numa mensagem enviada à Agência Ecclesia, recordando ainda os tempos em que foi colaborador do programa com uma pequenina crónica semanal.