Sínodo Amazónia: Via Sacra e um rosto litúrgico inculturado

D.R.

Via Sacra Amazónica

No dia 19 (sábado), de manhã, junto ao Castel de Sant’Ângelo teve lugar uma “Via Sacra Amazónica” no contexto do Sínodo. Presentes indígenas da Amazónia do Brasil e outros países, além de bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e membros da REPAM, e especialistas de todo o mundo. Participaram numa Via-Sacra onde se expuseram os “problemas dos povos indígenas.

 “Marginalização, desigualdades sociais, expropriação dos territórios, indiferença, danos ao meio ambiente foram o fio vermelho do caminho das 15 estações, incluindo problemas dos indígenas em cada uma delas”.

Os participantes, colocados em círculo, levavam uma canoa e uma cruz com a foto dos chamados “mártires do caminho”. Entre eles: a irmã Dorothy Stang, Dom Óscar Romero, Dom Alejandro Labaka, o Ir. Vicente Cañas, a Irmã Inés Arango, o Pe.Alcides Jiménez, o Pe. Ezequiel Ramin, o Pe. Rodolfo Lunkenbein, o Pe. Simao Bororo e o líder seringueiro Chico Mendes …

Antes da Via Sacra partir, rumo à Praça de São Pedro, um indígena incensou os participantes tal qual fazem os indígenas amazónicos. Depois desta cerimónia inicial, começou a Via Sacra propriamente com suas 14 estações mais uma 15ª dedicada à Ressurreição.

A via sacra do povo

Alguns dos temas: “direitos humanos”, “reconciliação”, “o encontro”, “as culturas”, “os que lutam por sua terra”, “mulheres na Amazónia”, “os mais vulneráveis”, “opressão do povo”, “destruição da natureza”, “o povo de Deus emerge”, “o ressuscitado acompanha o povo de Deus no seu caminho”.

Ao longo do percurso, na Via da Conciliação, viam-se imagens da Via Sacra da América Latina, do argentino Adolfo Pérez Esquivel, em 1992, para comemorar os 500 anos do início da conquista das Américas, alternadas com “muitos mártires”, homens e mulheres que morreram em defesa da Casa Comum”.

Ao chegar à Praça de São Pedro, alguns dos participantes deitaram-se no chão, sobre as fotografias dos mártires da Amazónia, como mortos. Ao finalizar esta 15ª estação, dedicada à Ressurreição, as pessoas tombadas no chão se levantaram-se simulando ressuscitar e elevaram as mãos ao céu em ação de graças.

Uma evangelização ‘nova’

 Os grupos de trabalho de língua portuguesa no Sínodo afirmam que o caminho sinodal “abriu a perspetiva de uma eclesiologia diferente, mais batismal e colegial, diferente da Igreja clerical”.

A Igreja na Amazónia “não pode importar modelos” e precisa de “construir um rosto próprio com formação ampla e integral”, na mira de uma conversão pastoral, sinodal e ecológica, a partir da espiritualidade bíblica, comunitária e eclesial.

O Arcebispo de Assunção falou à ACI Prensa sobre a importância de evangelizar com um ardor especial na Amazónia. É necessário, disse, “um ardor missionário que vá além de ser apenas servos ou ministros de escritório, mas realmente ser pessoas entusiasmadas com o ardor de Cristo Jesus”. 

Os bispos farão o discernimento para não confundir tradições que poderiam ser politeístas, deístas e são expressões que devem ser purificadas para que na liturgia católica sejam expressões naturais dos povos indígenas.

Um rito amazónico

Para a liturgia, “não se pede um rito litúrgico diferente”, disse dom Rafael Alfonso Escudero López-Brea. A Igreja, lembrou, “recebeu do Senhor e dos Apóstolos o ensinamento essencial que, posteriormente, se desenvolveu com ritos complementares”. “Durante os trabalhos sinodais”, disse o prelado, “falou-se da possibilidade de introduzir na celebração símbolos ou ritos que não tenham um impacto sobre o essencial. Trata-se de entender as especificidades de cada povo ou grupo”. 

Os ritos são a expressão da evangelização: quando o anúncio do Evangelho atinge uma cultura, é inculturado através das formas mais coerentes para exprimir o mistério.

Assim foi pedido “um rito amazónico com património teológico, disciplinar e espiritual” que expresse ao mesmo tempo a universalidade e catolicidade.