Sínodo Amazónia: Uma Igreja “com esperança» e rosto mais feminino

Papa Francisco com as mulheres participantes no Sínodo da Amazónia | D.R.

Uma Igreja católica samaritana

O sinal da Igreja de Jesus de Nazaré, o enviado de Deus, deve ser o que Ele mesmo fez e ensinou: “… e os pobres são evangelizados”. Os povos – cerca de 38 milhões – que vivem nesta região são, na sua maioria, vítimas de ataques e abusos e sentem-se abandonados. A Igreja tem a obrigação de os ajudar a enfrentar os seus problemas, a exigir os seus direitos, a construírem o seu futuro sendo corresponsáveis pelo hoje e pelo amanhã. Terá de denunciar o grito do povo e da terra-mãe, partindo do Evangelho, e animando este povo a viver a assumir seus deveres para viver com simplicidade e esperança ‘em saída’ rumo à construção do Reino de Deus. Seria um pecado de omissão esquecer o povo amazónico, pondo de lado o rosto do bom samaritano.

A vocação cristã impele a cuidar da Casa Comum. É tarefa de todas as criaturas agindo individual, comunitária e globalmente. Proteger a Amazónia é uma responsabilidade de todos perante os riscos que derivam das mudanças climáticas.

Sugere-se, pois, uma coordenação de cientistas e estudiosos e uma maior sensibilização para o cuidado da Natureza.

Uma Igreja mais criativa

A Igreja orienta-se numa conversão a Cristo e ao seu Evangelho. É por parte de leigos, consagrados e casados, que se forma uma verdadeira Igreja amazónica que seja sinal da presença de Cristo nesta região. É necessário deixar-se interpelar pela vida das comunidades, reconhecer seus dons e promover um diálogo intercultural.

É importante olhar com realismo para o drama das muitas comunidades da Amazónia, cerca de 70%, visitadas por um sacerdote somente um ou duas vezes por ano. São privadas dos sacramentos, da Palavra, das celebrações centrais para o cristianismo, como a Páscoa, Pentecostes e Natal. 

Evocam-se escolhas corajosas, abertas ao Senhor, para que mande operários para a messe. 

Um missionário com 28 anos de Missão na Amazónia,  explicou que esta “ministerialidade” é já vivida nas celebrações da Palavra, com a ideia de “ter alguém com a faculdade de poder consagrar”, e o debate tem decorrido no Sínodo com “serenidade” na busca de respostas, respeitando a “doutrina da Igreja”.

A Amazónia precisa de missionários e ‘equipes missionárias itinerantes’ inspiradas no estilo de Jesus, que ia de aldeia em aldeia. Pede-se à Igreja uma pastoral criativa: numa consciência ecológica, novas formas ministeriais, em que o serviço de mulheres e jovens é fundamental.

Amazónia terra de migrantes

A migração é um dos maiores desafios que a Igreja enfrenta na região pan-mazónica. Nos últimos anos, a região foi afetada por relevantes fluxos migratórios: do Haiti após o terrível terramoto que abalou o país; desde 2017, milhares e milhares de migrantes da Venezuela. São Atravessam ou ficam na  Amazónia. 

A Igreja deve trabalhar com as instituições civis, para responder às suas necessidades. Há ainda os migrantes, obrigados a abandonar suas comunidades e a estabelecerem-se nas cidades. Ali, local de contrastes políticos, económicos, do vazio existencial e do individualismo exasperado, o indígena é um sobrevivente. 

Estar presente com o Evangelho é um dever e a cidade também é local de missão. A recomendação é promover uma pastoral específica que considere os indígenas protagonistas. 

A defesa dos territórios é a pedra miliar para o bioma da Amazônia e dos estilos de vida dos povos tradicionais. Neste sentido, foi recomendada uma “defesa intransigente” dos povos indígenas: O direito à sua cultura, à sua teologia e à sua religião é uma riqueza a ser preservada no interesse de toda a humanidade. 

As comunidades da Amazônia e os representantes dos povos indígenas vêem no compromisso da Igreja e no Sínodo “um sinal de esperança”, “um momento de luz”. 

O papel dos fiéis leigos e da mulher

A mulher, no mundo de hoje, conquistou mais espaço na vida social. A Igreja precisa de valorizar os carismas dos leigos, graças aos quais se manifesta a face da Igreja em saída, longe do clericalismo. A mulher tem mais espaço na vida da comunidade não só como catequista ou mãe, mas também como possível sujeito de novos ministérios. 

Uns aconselham que, antes, se pense no diaconato permanente. Foi sugerido que sejam instituídos ministérios não ordenados para as mulheres leigas, entendendo o próprio ministério como um serviço, de modo a garantir em todo o território pan-amazónico a dignidade e a igualdade feminina na celebração da Palavra ou das atividades sócio-caritativas, por exemplo. Outros invocaram um discernimento para a instrução do diaconato feminino na região, para dar maior responsabilidade pastoral feminina efetiva, também na decisão.

Descobrir as sementes do verbo na cultura e na tradição da região quer dizer reconhecer que Cristo já vive no povo a ser evangelizado. Esta abordagem favorecerá a existência de uma Igreja indígena e amazónica, a promover uma ecologia integral que tutele o homem e a natureza.