Sínodo Amazónia: «mártires» a salvar a natureza  e a «casa comum»

Foto: Vatican Media

Mártires da Amazónia

O Sínodo especial para a Amazónia, arrancou no sábado, dia 5, numa vigília em que foram lembrados os mártires em defesa do povo e da floresta amazônica, como o padre Ezequiel Ramin, a irmã Dorothy Stang e Chico Mendes…

Dorothy “Mãe” Stang, religiosa norte-americana, foi morta em 2005, vítima dos conflitos relacionados com a posse e exploração da terra, em defesa das lideranças camponesas, políticas e religiosas. 

O missionário comboniano Ezequiel Ramin foi morto a 24 de julho de 1985, quando voltava de uma missão de paz, na Fazenda Catuva, por pistoleiros, e o  Irmão Vicente Cañas, missionário jesuíta, em 1987, em defesa dos indígenas Enawenê-Nawê, no meio dos quais viveu durante uma década. Ambos a mando de fazendeiros. 

O casal José Cláudio e Maria do Espírito Santo foi executado na manhã de 24 de maio de 2011, alegadamente por madeireiros, em Nova Ipixuma, no Pará (Brasil). Chico Mendes, morto em 1988 pela sua defesa da Amazónia. Estas personalidades vão ser recordadas na “Peregrinação pela Amazónia”, prevista para a manhã do próximo dia 19 de outubro.

O tema escolhido pelo Papa Francisco para o Sínodo, tem motivado críticas, particularmente por parte de brasileiros, de férias em Roma, preocupados com questões ligadas à soberania sobre o território.

Liliane Prates, médica, fala por sua vez num “tema muito importante” para o Brasil, pedindo ajuda externa para que o país possa proteger uma área importante para todo o mundo. Denise Barbosa, de São Paulo, afirma que o problema não está só no Brasil, mas vai afetar a Europa, todas as pessoas”.

 “Os bispos têm um papel importante na consciencialização dos jovens, não só na área religiosa mas também na do ambiente”, criticando as opções tomadas pelo governo do presidente Bolsonaro, neste campo.

Peter Chau, sacerdote peruano de 36 anos, sublinha que o seu país também tem “muitos locais amazónicos” e lamenta que os políticos não procurem “salvar a Amazónia”. “Temos de cuidar da nossa Amazónia, porque temos de cuidar de todo o mundo.

Participantes no Sínodo

A região pan-amazónica tem uma extensão de 7, 8 milhões de km2, incluindo áreas do Brasil, Bolívia, Perú, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa; dos seus cerca de 33 milhões de habitantes, 3 milhões são indígenas pertencentes a 390 grupos ou povos.

A assembleia especial conta com 185 padres sinodais, 113 de circunscrições eclesiásticas pan-amazónicas (pertencentes a 7 conferências episcopais); marcam presença 13 responsáveis da Cúria Romana, 15 religiosos eleitos pelos superiores gerais e 33 membros nomeados por indicação pontifícia.

Como habitualmente, há seis delegados que representam outras igrejas e comunidades cristãs presentes no território pan-amazónico; 12 convidados especiais como cientistas, peritos no setor do meio ambiente e outras disciplinas; 25 especialistas indicados pelas suas competências especificas.

O Brasil tem o maior número de participantes, sendo 58 bispos da região amazónica; a reunião acolhe ainda nomes como Ban Ki-moon, antigo secretário-geral da ONU, representantes de igrejas evangélicas, de ONG e povos indígenas.

Evitar “colonialismos”

O Papa Francisco inaugurou, no dia 6 de outubro, no Vaticano a primeira assembleia especial do Sínodo dos Bispos dedicada à região da Amazónia, pedindo que a Igreja Católica nunca repita “colonialismos” do passado.

“Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos”, declarou, na homilia da Missa a que presidiu na Basílica de São Pedro. Sublinhou que as populações da Amazónia carregam “cruzes pesadas”. “Por eles, pelos que estão agora a dar a vida, pelos que deram a sua vida, com eles, caminhemos juntos”, apelou.

Francisco referiu-se à “cruz recente: O “fogo ateado por interesses que destroem”, como o que devastou recentemente a Amazónia, “não é o do Evangelho”. “O Espírito inspire o nosso Sínodo a renovar os caminhos para a Igreja na Amazónia, para que não se apague o fogo da missão”, declarou.

Francisco recordou ainda todos os missionários que “deram a vida” pela Igreja Católica, na Amazónia.

Invasão dos garimpeiros 

O padre Corrado Dalmonego, Missionário da Consolata, que trabalha há 12 anos na missão Catrimani, em Roraima, na Amazónia, disse aos jornalistas portugueses que os exploradores ilegais de ouro são a maior ameaça à terra e ao povo Yanomami.

 “Trata-se de uma invasão do seu território por milhares, dezenas de milhares de exploradores ilegais de ouro, conhecidos como garimpeiros”.

Para o missionário do Instituto da Consolata, a presença dos garimpeiros tem “um impacto devastador para o meio ambiente, para a natureza e para as pessoas, seja ao nível da vida física, através da contaminação dos rios e dos outros seres viventes nessa floresta, seja na vida cultural e social das comunidades”.

A terra Yanomami, a maior área indígena do Brasil, tem 9,6 milhões de hectares distribuídos entre os estados brasileiros de Roraima e Amazonas. O religioso trabalha “numa equipa missionária” que acompanha a vida do povo Yanomami em diferentes áreas, como a formação, educação, direitos, questões territoriais, mas também o trabalho de órgãos públicos no âmbito da saúde.

O padre Corrado Dalmonego integra o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que atua na defesa dos direitos povos indígenas e dos seus territórios.