O “menu espiritual” do Papa Francisco

Padre Pierluigi Plata lançou o livro “Preparar a mesa à santidade. Os alimentos na pregação do Papa Francisco”, no qual estuda as imagens usadas pelo Pontífice para explicar o seu magistério

Livro "Preparar a mesa à santidade. Os alimentos na pregação do Papa Francisco" da Editora Vaticana

“Bom domingo e bom almoço”. Desde o seu primeiro Angelus de 17 de março de 2013 o Papa Francisco usou muitas vezes imagens ligadas aos alimentos e ao convívio nas suas palavras aos fiéis. Seria quase um “magistério dos alimentos” que o padre Pierluigi Plata, sacerdote e teólogo estudou e analisou no livro “Preparar a mesa à santidade. Os alimentos na pregação do Papa Francisco” (em tradução livre), editado pela Libreria Editrice Vaticana.

Padre Pierluigi Plata: O Papa dá um valor a cada alimento, por exemplo a alegria, a gratuidade, a convivialidade, a ajuda mútua… Atribui um sacramento aos alimentos: à Eucaristia, o pão; à esperança, o peixe; à fé, o doce… Desde o primeiro Angelus nos acostumou com a frase – e a repete todos os domingos: “Rezem por mim e bom almoço”. Por que? O domingo é o dia da Eucaristia, mas depois da conclusão da oração do Angelus a oração não deve ficar estéril: eu e o Senhor e mais nada; é preciso pensar também às situações concretas dos que não têm o que comer. Por isso a ligação do “bom almoço” desejado pelo Papa todas as vezes que termina o Angelus. Não só porque é hora do almoço, não só porque quer agradar: “Que belo, nos deseja bom apetite, e bom almoço”. Mas, para nos colocar uma reflexão: oração mas também reflexão concreta porque o que se come não deve ser desperdiçado.

Qual é a imagem de alimento usada pelo Papa Francisco que mais o impressionou?

Pe. Plata: Por exemplo, usa a pizza para falar de eclesiologia. Quando diz: “Na minha vida nunca vi um pizzaiolo que colocar 1 quilo de fermento e 10 gramas de farinha. Não é assim!” Assim é a Igreja, começando por ele mesmo, Papa, bispos, padres,  fiéis, todos devem dar sua própria contribuição de modo harmônico como uma pizza! Senão, não dá certo”.

No livro o senhor fala de um tipo de menu espiritual: qual é a sua composição ideal?

Pe. Plata: Antes de tudo é preciso ver que tipo de fome eu tenho, de afetos, de conhecimentos, de amizades. Depois devo selecionar os produtos – ele cita muitas vezes a feira, o supermercado – e começar pelos mais naturais. O menu ideal é não comprar produtos já prontos para colocar no forno, no microondas, no congelador, mas os genuínos porque até a preparação de raviolis – ele disse como exemplo – de pizza com as próprias mãos, ajuda a si mesmos, ajuda os outros. Também não pode faltar, depois de citar o pão e a massa, o peixe, que sabemos desde as descobertas das catacumbas, é o símbolo de Jesus. Por fim, como sobremesa, eu diria os biscoitos, que o Papa recorda que a sua avó sempre fazia.

O Papa fala também de doces nas suas metáforas?

Pe. Plata: Sim, fala de doces. É muito interessante porque diz que a fé não é como um glacê que decora um bolo: não é opcional, não deve ser usada apenas em algumas ocasiões, mas deve ser constante… também ligado a doces há um discurso muito interessante, quando ele fala de “adoçar”, adoçar as coisas: atenção aos que são muito adocicados nas relações contigo, porque poderia esconder algo, ser muito adocicado pode, às vezes, esconder alguma coisa amarga por trás. Também fala dos lanches fora de hora. Como um, depois outro. Ao invés quando devo comer na hora do almoço, do jantar, não tenho mais fome. Então o Papa diz: Hoje nos contentamos com lanches, ou seja, com substitutos e não comemos mais uma refeição completa, que seria, fora da metáfora, no mundo espiritual, nos contentamos até mesmo de realidades talvez espirituais não profundas que não nutrem a nossa fé, esperança e caridade.

E quanto a bebidas?

Pe. Plata: A primeira é a água, este ouro branco ao qual todos devem ter acesso. A responsabilidade da água. Também liga a água ao Espírito Santo, ao batismo, aos sacramentos que dizia antes. E a última ligação que selecionei é: atenção que a água pode ficar estagnada, não potável, nociva. Por isso nas suas homilias, no seu magistério, continua a dizer aquela famosa frase, que não deve ser dita “sempre foi feito assim” porque seria como a água estagnada que polui, que causa doenças ao estômago.

Michele Raviart – Cidade do Vaticano