Madagáscar: “espírito de fraternidade” e ameaça à dignidade humana e à natureza

Foto: Vatican Media

Milhares de jovens em volta do Papa

O Papa encerrou o seu segundo dia de visita a Madagáscar, dia 7 setembro, junto de cerca de 100 mil jovens, que participaram numa vigília de celebração, num ambiente de festa, de dança, de música, e na qual alertou para ilusões de felicidade e falsos “caminhos fáceis” para a vida.

“Obrigado pelos cânticos e as danças tradicionais que realizastes com uma alegria e um entusiasmo extraordinários”, começou por dizer aos presentes.

Num país em que mais de 60% da população é constituída por jovens, Francisco destacou a importância de uma fé que coloca as pessoas a caminho ao encontro dos outros, de todos os que sentem o seu futuro comprometido por falta de trabalho, “pela precariedade e as injustiças sociais”. Jesus quer transformar-nos a todos e fazer da nossa vida uma missão.

O Papa Francisco elogiu Rova, um dos jovens que falou, foi elogiado pelo seu empenho na visita aos presos, procurando conhecer “as histórias que se escondem por trás de cada rosto”. “Somos convidados a descobrir o rosto de Jesus no rosto dos outros: elebrando a fé em família, criando laços de fraternidade, participando na vida dum grupo ou dum movimento e encorajando-nos a traçar um caminho comum vivido na solidariedade”, acrescentou.

Francisco falou ainda do testemunho de Vavy, cujos pais pertencem a duas tribos diferentes e conseguiram superar “todas as provações e diferenças”.

Papa defende «espírito de fraternidade”

O Papa Francisco disse, em 8 de setembro, em Madagáscar, um dos países mais pobres do mundo, que só o “espírito de fraternidade” pode superar a miséria, a corrupção e o extremismo, que ameaçam a dignidade humana e a natureza.

“Basta olharmos ao nosso redor, quantos homens e mulheres, jovens, crianças sofrem e estão literalmente privados de tudo!, declarou.

Perante centenas de milhares de pessoas, o Papa propôs o “humilde realismo” cristão como ponto de partida para superar “interesses pessoais” ou o “fascínio duma ideologia qualquer que acaba por instrumentalizar o nome de Deus ou a religião para justificar atos de violência, a segregação e até o homicídio, o exílio, o terrorismo e a marginalização”.

A exigência do Mestre encoraja-nos a não manipular o Evangelho com tristes reducionismos, mas construir a história na fraternidade e solidariedade, no respeito da terra e dos seus dons contra todas as formas de exploração”.

O Papa aludiu às relações familiares e tribais, observando que o catolicismo supera “a pertença a um grupo determinado, a um clã ou a uma cultura particular”.

Francisco convidou os participantes a “deixar-se comover pela sua vida e situação, independentemente da sua origem familiar, cultural e social”, condenando o “uso de meios imorais” para enriquecer.

“A tentação de se fechar no seu pequeno mundo, acaba por deixar pouco espaço aos pobres, deixa-se de ouvir a voz de Deus, não mais se rejubila com o doce alegria do seu amor, perde-se o entusiasmo de fazer o bem”, precisou.

Na «Cidade da Amizade»

O Papa visitou a ‘Cidade da Amizade’, do projeto humanitário ‘Akamasoa’, iniciativa do padre vicentino Pedro Opeka, que realojou populações de lixeiras a céu aberto.

O missionário argentino, antigo aluno de Jorge Bergoglio, em Buenos Aires, acolheu Francisco no auditório de Manantenasoa, onde reuniu cerca de 8 mil crianças e jovens, num clima de grande entusiasmo.

O Papa falou desta visita como “uma grande alegria”, considerando o projeto social como “a expressão da presença de Deus no meio do seu povo pobre”.

A iniciativa permite a muitas famílias “viver com dignidade”, com a construção de aldeias com assistência médica, creches, escolas e parques: cerca de 25 mil pessoas, na sua maioria (60%) com menos de 15 anos de idade, vivem nestes espaços, que o Papa apresentou como um exemplo de determinação.

O padre Opeka, chegou à ilha nos anos 70 e deparou-se com a pobreza de milhares de pessoas que viviam em condições miseráveis; em resposta, iniciou projetos que incluem a Cidade da Amizade, ‘Akamasoa’ – que em malgaxe significa “bom amigo” -, construída em 1989.

“Uma educação para os valores, através da qual as primeiras famílias que iniciaram a aventura com o padre Opeka puderam transmitir o enorme tesouro de compromisso, disciplina, honestidade, respeito por si mesmo e pelos outros.

O Papa insistiu na necessidade de criar modelos de desenvolvimento que privilegiem a luta contra a pobreza e a exclusão social, “a partir da confiança, da educação, do trabalho e do empenho que são sempre indispensáveis para a dignidade da pessoa humana”.

Não somos “profissionais do sagrado”, mas homens e mulheres de louvor

Francisco encerrou sua visita a Madagascar reunindo-se com os sacerdotes, consagrados e seminaristas no pátio do Colégio São Miguel.

Papa Francisco recordou os missionários pioneiros na ilha, entre os quais lazaristas e jesuítas, mas também os inúmeros leigos que, em tempos difíceis de perseguição, mantiveram viva a chama da fé nesta terra.

Como os 72 discípulos de Jesus, os consagrados de Madagascar aceitaram o desafio de ser uma Igreja em saída, não obstante carecerem dos serviços essenciais – água, eletricidade, estradas, meios de comunicação – ou dos recursos econômicos para gerir a vida e a atividade pastoral.

Francisco advertiu os religiosos e consagrados a não perderem a atitude de louvar ao Senhor, pois com frequência, pode-se sucumbir à tentação de passar horas a falar dos “sucessos” ou dos “fracassos”, da “utilidade” das ações, ou da “influência” que se pode ter. Está sempre à espreita o risco de nos tornarmos “profissionais do sagrado”, ao invés de sermos homens e mulheres de louvor.

“Não deixemos que nos roubem a alegria missionária!