Os olhos e rostos daquelas imagens: um anúncio

Mosteiro de Rila, s. IX-XII, Bulgária

O “impacto da imagem” é tema das Jornadas de comunicação (Fátima,26-27.09.19). Este texto também é sobre imagens. Factos são factos, mas não são todo o sentido. Na história, a Igreja sempre construiu lugares de evangelização e lhe foi enxertando o sentido do anúncio do Evangelho. Explicar o como não é dar sentido ao quê e ao para quê. Só o homem dá sentido. E o Homem Logos do Pai dá sentido pleno ao homem. Será que na Bulgária e Roménia os ícones (imagens) dos frescos medievais das igrejas ajudaram a manter a fé cristã apesar de cinco séculos de opressão muçulmana otomana?

As duas mulheres guias mostraram muita erudição histórica e religiosa e também fluência e competência na língua portuguesa. Iniciaram na compreensão dos seus países e dos vestígios arqueológicos e da arte das igrejas visitadas sem esconder as suas convicções e sentido de fé cristã ortodoxa. Os frescos são exposições claras da fé cristã do Evangelho. Estes países de fé cristã ortodoxa, mantiveram a sua prática do Evangelho e da Bíblia. Os frescos estão centrados na divindade de Jesus Cristo, em Maria, sua mãe, ao lado ou com Ele ao colo; os apóstolos, alguns profetas e santos. Os visitantes como que são sondados por aqueles olhos icónicos de Jesus e Maria. Olhos abertos, luminosos, diretos sobre os visitantes e peregrinos, olham, falam e interrogam os corações: entendem, vivem e praticam a fé em Jesus Cristo? São olhos de Bíblia falante, logos do sentido da vida humana, Logos de Deus, Uno e Trino: o Logos-Palavra de Cristo Homem-Deus. Dizem, baixinho, todo o cortejo das verdades fundamentais da fé cristã. São olhos do sentido da vida humana: tu crês, vives o que crês, em Cristo e nas suas palavras do Evangelho?

Assim falam os frescos nas capelas de S. Jorge, S. Nicolau, Santa Nedélia; nas classificadas de património mundial do Mosteiro de Rila, s. IX-XII, de Boiana, de autores desconhecidos, nas imagens da “Dormício” de Maria (a Assunção), de Jesus entre os doutores; e nas do mosteiro de Cozia, Roménia, na estrada para Sibiu.

Os ícones pedem contemplação para compreender o dizer claro dos olhos de Cristo ressuscitado, o Pantocrator, o Juiz, e, ao seu lado, os de Maria, dos apóstolos, S. Miguel e santos. Ciciam aos visitantes que a vida é bela se vivida a sério; é dom e responsabilidade livre. Os olhos de Maria exprimem doçura, amor exigente e misericordioso; os de S. Miguel vitória sobre o dragão. Os dos demónios, derrota e desespero infernal, ao levar os que não aceitam livremente a justiça e misericórdia do Pai. Aceitação a que ninguém os pode obrigar: amor só rima com liberdade. Esta pode dar em bênção ou tragédia infernal; como sucede nas relações entre pessoas.

Os ícones são páginas de leitura sem escrita. Todos podem entender estes claros anúncios evangélicos da fé. Mais claros que alguns textos eruditos de teologia para o povo. Eram outros tempos, sim; mas o ensino claro de Cristo também vale, hoje. A fé cristã e a fé religiosa sincera interrogam o homem desde a longínqua pré-história aos confins dos tempos cristãos. As perguntas e respostas, em tempo de perseguição, não se conciliam com fingimentos. Nas perseguições estas imagens de sentido, certamente, animaram os cristãos à fidelidade a Cristo. Terão sido até hoje apoio de fé dos seus mais de 80% fiéis de ortodoxia cristã. Ajudaram a fazer a diferença nestes países. Durante séculos até ao século IX, a língua grega das celebrações litúrgicas não era acessível ao povo analfabeto, ao contrário, as imagens claras e sintéticas eram acessíveis.

Perante os desafios das perseguições e escravização de cinco séculos dos muçulmanos otomanos, e mais tarde dos comunistas leninistas ateus, os ícones poderão ter facilitado mais encontros de fé que tantas catequeses de culturalismo vago, hodiernas, por essa Europa adiante, e também de tanta arte de sentido ambíguo. A perseguição começou a fazer-se sentir no século XIV no despontar da modernidade antropocêntrica. Os vários levantamentos de Tornovo em 1598, 1688, e 1689 não conseguiram deter o seu domínio e opressão. Nem outras resistências apoiadas pelos austro-húngaros, nos séculos XVIII e XIX. Foi decisivo o apoio dos Russos, talvez por serem ortodoxos, para a independência da Bulgária, não apenas como principado dependente dos otomanos, mas esta só se realizou em 1903, dando origem à grandiosa basílica votiva Santo Alexandre Nevesky com imagens, mais uma vez, de grande sentido de fé. A fé cristã ortodoxa pregada pelos frescos teve continuidade desde então até hoje. Será que arte pagã de uma Europa secularizada e inclinada à apostasia, vai ajudar?