Madagáscar: “Temos de combater a desigualdade e a corrupção”

Papa no encontro com os bispos de Madagáscar | Catedral de Andohalo, Antananarivo, 07.09.2019 | Foto: Vatican Media

Vim semear paz e esperança

A visita do Papa Francisco a Madagáscar, é uma visita considerada “histórica” pelo sacerdote dehoniano Agostinho Clemente Gonçalves. A 30 anos da passagem de São João Paulo II, Francisco encontra uma população que, na sua maioria (75%) vive com menos de 2 euros por dia.

“O povo anseia pela paz numa situação de insegurança e violência generalizada. Nota-se um congregar de esforços e uma boa colaboração a vários níveis, entre os diversos setores e forças da Igreja Católica, com as outras Igrejas, com o Estado e o Governo malgaxes”, assinala o padre Agostinho.

“Grande expectativa, esperança e entusiasmo” na preparação da visita pontifícia, que teve como mote ‘Vem visitar-nos o Papa Francisco, fortalecer o povo de Deus e semear paz e esperança’.

 “Esta visita apostólica do Papa Francisco reveste-se dum significado bastante grande para o povo malgaxe, mas sobretudo para a comunidade católica.

O bispo da Diocese de Mananjary, D. José Alfredo Caires, natural da Madeira, disse que «neste momento histórico da vida social e política de Madagáscar, a visita do Papa é uma Bênção para o nosso povo Malgaxe e para Igreja em missão”.

E denunciou: “Estamos num país muito rico em recursos naturais, mas que vive na miséria, um país onde há paz, mas reina a corrupção em todos os setores sociais e um banditismo galopante”.

No dia 6 de setembro, o Papa Francisco foi recebido no aeroporto internacional de Antananarivo, pelo Presidente do país, Andry Rajoelina, acompanhado da primeira-dama, na cerimónia de boas-vindas, sem discursos; depois, no papamóvel, seguiu para a Nunciatura Apostólica, onde ficou hospedado durante a sua visita, saudado por milhares de pessoas, à berma da estrada.

Alertas contra a corrupção e a «pobreza desumana»

No sábado, depois da visita de cortesia ao presidente Rajoelina, no palácio “Iavoloha”; seguiu-se o encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático.

O Papa criticou a corrupção e as desigualdades sociais que provocam situações de “pobreza desumana” no país, considerado um dos mais pobres do mundo.

“Encorajo-vos a lutar, vigorosa e decididamente, contra todas as formas endémicas de corrupção e especulação, e a enfrentar as situações de grande precariedade e exclusão que geram sempre condições de pobreza desumana”, referiu.

Defendeu uma “melhor distribuição do rendimento e a promoção integral de todos os habitantes”, especialmente dos mais pobres. 

 “É preciso preservar os recursos naturais da “ilha vermelha”, rica em biodiversidade vegetal e animal”, mas ameaçada pelo excessivo desflorestamento em proveito de poucos e a sua degradação compromete o futuro do país e da nossa Casa Comum”, alertou. Outras ameaças são: os incêndios, a caça furtiva, o corte de madeiras preciosas, o contrabando e as exportações ilegais.

O Papa evocou um dos valores “fundamentais” da cultura malgaxe, o “fihvanana”, que evoca “o espírito de partilha, ajuda mútua e solidariedade” e inclui fortes laços “familiares, da amizade e da benevolência entre os homens e para com a natureza”.

Referiu-se à disponibilidade da Igreja Católica em Madagáscar para, num diálogo permanente com os cristãos das outras confissões, com os membros das diferentes religiões e com todos os atores da sociedade civil, contribuir para o advento duma verdadeira fraternidade que valorize sem cessar o ‘fihavanana’, promovendo o desenvolvimento humano integral de modo que ninguém fique excluído”, concluiu Francisco.

Antes, o presidente malgaxe, Andry Rajoelina, disse que o país tem um povo “corajoso”, que quer “começar um novo capítulo”.

“Madagáscar é um grande país, a maior ilha do continente africano, é uma terra abençoada pelo Senhor, rica, com recursos impressionantes e um potencial incalculável”, referiu o chefe de Estado, católico.

Bispos devem levantar voz contra desigualdade e corrupção

Francisco teve um encontro de oração no Mosteiro da Ordem das Carmelitas Descalças, com 100 monjas de clausura e 70 noviças. Na sua intervenção, alertou para as tentações do carreirismo ou da “mundanidade” na vida religiosa, o que considerou um ato do “diabo”. 

Recomendou “caridade e oração” . “Para as tentações, a luta espiritual, o exercício da caridade não há «reforma». É preciso lutar até ao fim”, esclareceu. 

Falando aos bispos, na Catedral de Andohalo, o  Papa disse que a Igreja Católica tem de levantar a sua voz contra “todas as formas de pobreza”, defendendo a intervenção pública da hierarquia. “Ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos”, acentuou.

“Temos de combater a desigualdade e a corrupção”. “Sei que carregais no coração a responsabilidade de velar pela dignidade dos vossos irmãos, para construir uma nação cada vez mais solidária e próspera, dotada de instituições sólidas e estáveis”, apontou Francisco.

O Papa sustentou uma colaboração “madura e independente” entre a Igreja e o Estado, centrado na defesa de todas as pessoas e pediu aos bispos das dioceses malgaxes, que sejam sempre pastores, “próximos de Deus, dos seus sacerdotes e do povo”. 

Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao território, em 1500; em 1896, a ilha tornou-se uma colónia francesa e a independência data de 1960.

Os católicos representam 34,8% da população de Madagáscar, segundo dados divulgados pelo Vaticano; a Igreja Católica tem mais de 6 mil escolas, desde o ensino primário à Universidade, onde estudam quase 700 mil alunos, além de várias outras instituições de ação social.