Moçambique: Francisco “não à violência”, sim à paz e à reconciliação

Foto: Vatican Media

Pediu a todos a coragem da paz

Após realizar a visita de cortesia ao presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi, o Papa Francisco teve, no dia 5 de setembro, um encontro com as autoridades, representantes da sociedade civil e corpo diplomático. Em vós, quero saudar afetuosamente todo o povo moçambicano, que nos abre as suas portas para alimentar um renovado futuro de paz e reconciliação, 

Dirigiu suas primeiras palavras de proximidade e solidariedade a todas as vítimas  dos ciclones Idai e Kenneth, cujas devastadoras consequências continuam a pesar sobre tantas famílias. 

E a seguir fez de seu discurso um forte apelo à paz. Lembrou a assinatura, na Gorongosa, do acordo de cessação definitiva das hostilidades militares entre irmãos moçambicanos.

Pediu a coragem da paz! Uma coragem de alta qualidade: aquela que se concretiza na busca incansável do bem de todos. Conhecestes o sofrimento, o luto e a aflição na guerra.

Francisco requer que se diga: “não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação”. Uma cultura de paz exige «um processo constante, no qual cada nova geração está envolvida». Os jovens precisam de encontrar canais dignos que lhes permitam desenvolver todos os seus talentos.

A paz convida-nos também a olhar pela nossa Casa Comum. A defesa da terra é também a defesa da vida, que reclama atenção especial quando se constata uma tendência à pilhagem e espoliação, guiada por uma ânsia de acumular que, em geral, nem sequer é motivada pelo bem comum do vosso povo. 

Todos vós sois os construtores dum futuro de paz e reconciliação como garantias do direito ao futuro dos vossos filhos. Eu também, em comunhão com os meus irmãos bispos e a Igreja Católica que peregrina nesta terra vamos todos contribuir para que a paz, a reconciliação reinem definitivamente entre vós. 

Sem igualdade de oportunidades não há paz duradoura

O Papa Francisco, na sua primeira intervenção em Moçambique, disse que “sem igualdade de oportunidades” não há paz duradoura. “Quando uma sociedade abandona na periferia uma parte de si mesma”, não há políticas, nem “forças de autoridade ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”, disse no palácio presidencial, onde foi recebido pelo Presidente Filipe Nyusi.

Nyusi afirmou: o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), oposição, celebraram em 6 de Agosto um novo acordo de paz, o terceiro do país. Perante o Papa, a comunidade diplomática, membros do Governo e figuras políticas, o Presidente mencionou, durante o seu discurso, os líderes da oposição no parlamento.

“Estamos aqui com o meu irmão Ossufo Momade, que peço que se levante”, assim como “com Daviz Simango”, disse o chefe de Estado, num momento de ovação geral na sala. “Citei estes dois líderes da Renamo e Movimento Democrático de Moçambique, respetivamente porque são os que representam o nosso parlamento, mas temos muitos mais que estão aqui”, referiu. O Presidente moçambicano saudou as figuras da oposição, defendendo uma cultura “de não violência” em que a política “é feita com a força dos argumentos e não pela força das armas”.

O chefe de Estado realçou que o cuidado especial com a união entre moçambicanos cresceu desde que essa recomendação lhe foi feita pelo próprio Papa Francisco durante um encontro entre ambos, no Vaticano, há um ano.

Apelo insistente à reconciliação, ao perdão e à paz

 “É difícil falar de reconciliação, quando ainda estão vivas as feridas causadas durante tantos anos de discórdia, ou convidar a dar um passo de perdão que não signifique ignorar o sofrimento nem pedir que se cancele a memória ou os ideais”, referiu, na homilia da Missa a que presidiu no Estádio do Zimpeto, perante dezenas de milhares de pessoas, num dia marcado pela chuva.

 “Superar os tempos de divisão e violência supõe (…) o compromisso diário de cada um de nós ter um olhar atento e ativo que nos leva a tratar os outros com aquela misericórdia e bondade com que queremos ser tratados”, defendeu.

Evocou as riquezas naturais e culturais do país, que contrastam com a quantidade de população “abaixo do nível de pobreza”.

Num país em que os católicos representam cerca de 30% da população, o pontífice falou num mandato de “benevolência ativa”, seguindo os ensinamentos de Jesus, para que cada cristão seja “gerador de vida e não de morte”.

Não se pode pensar o futuro, construir uma nação, uma sociedade sustentada pela violência. “Nenhuma família, nenhuma etnia e menos ainda um país tem futuro, se o motor que os une, congrega e cobre as diferenças é a vingança e o ódio”.

O Papa alertou para a tentação de recorrer às “armas e à repressão violenta”, sustentando o direito de todos à paz. O mundo desconhece a virtude da misericórdia, matando ou abandonando deficientes e idosos, eliminando doentes.

Papa Francisco concluiu com votos de que o “caminho da paz” marque o futuro de Moçambique, “na senda da misericórdia, na opção pelos mais pobres, na salvaguarda da natureza”.