Discurso do Papa na visita ao Presidente da República de Moçambique (texto completo)

O primeiro compromisso oficial foi a visita de cortesia ao Presidente da República de Moçambique, Filipe Jacinto Nyusi, no Palácio presidencial “Ponta Vermelha” | Foto: Vatican Media

Viagem Apostólica de Sua Santidade Francisco a Moçambique, Madagascar e Maurícia (4-10 de setembro de 2019)

Visita de Cortesia ao Presidente da República de Moçambique e encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático no Palácio Ponta Vermelha – 05.09.2019

Discurso do Santo Padre

Senhor Presidente,
Membros do Governo e do Corpo Diplomático,
Distintas Autoridades,
Representantes da sociedade civil,
Senhoras e Senhores:

Obrigado, Senhor Presidente, pelas suas palavras de boas-vindas bem como pelo amável convite a visitar a nação. Sinto-me feliz por me encontrar novamente na África e iniciar esta viagem apostólica por este país, tão abençoado pela sua beleza natural como pela sua grande riqueza cultural que traz, à provada alegria de viver do vosso povo, a esperança num futuro melhor.

Saúdo cordialmente os membros do Governo, do Corpo Diplomático e os representantes da sociedade civil aqui presentes. Em vós, quero abeirar-me e saudar afetuosamente todo o povo moçambicano, do Rovuma a Maputo, que nos abre as suas portas para alimentar um renovado futuro de paz e reconciliação.

Quero que as minhas primeiras palavras de proximidade e solidariedade sejam dirigidas a todos aqueles sobre quem se abateram recentemente os ciclones Idai e Kenneth, cujas devastadoras consequências continuam a pesar sobre tantas famílias, principalmente nos lugares onde ainda não foi possível a reconstrução, requerendo esta especial atenção.

Infelizmente, não poderei ir pessoalmente até junto de vós, mas quero que saibais que partilho a vossa angústia, sofrimento e também o compromisso da comunidade católica para fazer frente a tão dura situação. No meio da catástrofe e da desolação, peço à Providência que não falte a solicitude de todos os atores civis e sociais que, pondo a pessoa no centro, sejam capazes de promover a necessária reconstrução.

Também quero exprimir o reconhecimento, meu e de grande parte da comunidade internacional, pelo esforço que, há decénios, se vem fazendo para que a paz volte a ser a norma, e a reconciliação o melhor caminho para enfrentar as dificuldades e desafios que tendes como nação. Neste espírito e com este propósito, há cerca de um mês assináveis na Serra da Gorongosa o acordo de cessação definitiva das hostilidades militares entre irmãos moçambicanos. Um marco, que saudamos e esperamos decisivo, plantado pelos corajosos na senda da paz que parte daquele Acordo Geral de 1992 [mil novecentos e noventa e dois] em Roma.

Quantas coisas se passaram desde a assinatura do histórico tratado que selou a paz e deu os seus primeiros rebentos! São estes rebentos que sustentam a esperança e dão confiança para não deixar que a maneira de escrever a história seja a luta fratricida, mas a capacidade de se reconhecerem como irmãos, filhos duma mesma terra, administradores dum destino comum. A coragem da paz! Uma coragem de alta qualidade: não a da força bruta e da violência, mas aquela que se concretiza na busca incansável do bem comum (cf. Paulo VI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1973)

Conhecestes o sofrimento, o luto e a aflição, mas não deixastes que o critério regulador das relações humanas fosse a vingança ou a repressão, nem que o ódio e a violência tivessem a última palavra. Como recordava o meu antecessor São João Paulo II [segundo] durante a sua visita ao vosso país em 1988 [mil novecentos e oitenta e oito], com a guerra «muitos homens, mulheres e crianças sofrem por não terem casa onde habitar, alimentação suficiente, escolas onde se instruir, hospitais para tratar a saúde, igrejas onde se reunir para rezar e campos onde empregar as forças de trabalho. Muitos milhares de pessoas são forçadas a deslocar-se à procura de segurança e de meios para sobreviver; outras refugiam-se nos países vizinhos. (…) Não à violência e sim à paz!» (Discurso de Chegada, 16 de setembro de 1988, n. 3).

Ao longo de todos estes anos, experimentastes que a busca da paz duradoura – uma missão que envolve a todos – exige um trabalho árduo, constante e sem tréguas, pois a paz é «como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência» (Francisco, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2019) e, por isso, requer que se continue a afirmar com determinação mas sem fanatismo, com coragem mas sem exaltação, com tenacidade mas de maneira inteligente: não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação.

Como sabemos, a paz não é apenas ausência de guerra, mas o empenho incansável – especialmente daqueles que ocupamos um cargo de maior responsabilidade – de reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada, de irmãos nossos, para que possam sentir-se os principais protagonistas do destino da própria nação.

Não podemos perder de vista que, «sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 59).

A paz tornou possível o desenvolvimento de Moçambique em várias áreas. Promissores são os avanços registados no âmbito da educação e da saúde. Encorajo-vos a prosseguir no trabalho de consolidar as estruturas e instituições necessárias para permitir que ninguém se sinta abandonado, especialmente os vossos jovens, que formam grande parte da população. Não são apenas a esperança desta terra, eles são o presente que interpela, busca e precisa de encontrar canais dignos que lhes permitam desenvolver todos os seus talentos; são potencial para semear e desenvolver a tão desejada amizade social.

Uma cultura de paz exige «um processo constante, no qual cada nova geração está envolvida» (Ibid., 220). Por isso, o caminho há de ser aquele que favoreça a cultura do encontro e dela fique todo impregnado: reconhecer o outro, estreitar laços, lançar pontes. Neste sentido, é imprescindível manter viva a memória como caminho que abre futuro; como caminhada, que leve a procurar metas comuns, valores compartilhados, ideias que favoreçam superar interesses setoriais, corporativos ou partidários para que as riquezas da vossa nação sejam colocadas ao serviço de todos, especialmente dos mais pobres.

Tendes uma corajosa e histórica missão a cumprir: não cesseis os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem teto, trabalhadores sem trabalho, camponeses sem terra… Tais são as bases dum futuro de esperança, porque futuro de dignidade! Tais são as armas da paz.

A paz convida-nos também a olhar pela nossa Casa Comum. Sob esta perspetiva, Moçambique é uma nação abençoada, e vós sois especialmente convidados a cuidar desta bênção. A defesa da terra é também a defesa da vida, que reclama atenção especial quando se constata uma tendência à pilhagem e espoliação, guiada por uma ânsia de acumular que, em geral, não é cultivada sequer por pessoas que habitam estas terras, nem é motivada pelo bem comum do vosso povo. Uma cultura de paz implica um desenvolvimento produtivo, sustentável e inclusivo, onde cada moçambicano possa sentir que este país é seu, e no qual possa estabelecer relações de fraternidade e equidade com o seu vizinho e com tudo o que o rodeia.

Senhor Presidente, distintas Autoridades! Todos vós sois os construtores da obra mais bela a ser realizada: um futuro de paz e reconciliação como garantias do direito ao futuro dos vossos filhos. Peço a Deus que, durante este tempo que transcorrerei convosco, possa – eu também, em comunhão com os meus irmãos bispos e a Igreja Católica que peregrina nesta terra – contribuir para que a paz, a reconciliação e a esperança reinem definitivamente entre vós. Obrigado.