AbuDhabi e Iraque: a «fraternidade cósmica» e o diálogo «islâmico-cristão»

D.R.

Médio Oriente

Numa entrevista à Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), o arcebispo caldeu de Erbil, no Iraque, – D. Bashar Matti Warda – desafiou todas as instâncias internacionais a unirem esforços para salvaguardar a existência do cristianismo no Iraque e no Médio Oriente.

Antes de 2003, a comunidade cristã no Iraque era composta por “um milhão e meio” de fiéis, que correspondia a cerca de “seis por cento da população” do país. Atualmente, esse número foi reduzido para “cerca de 250 mil, talvez menos”.

E “aqueles que restam têm de estar prontos para enfrentar o martírio”, reconhece o arcebispo católico, que afirma: “A verdade é que não haverá um futuro para a sociedade civil no Médio Oriente, ou em qualquer lugar onde o Islão esteja inserido”. “A questão agora é se o Islão vai ou não continuar nesta trajetória política, onde a ‘sharia’ é a base de toda a lei social e em que quase todos os aspetos da vida são limitados pela religião, ou se surgirá um movimento mais civilizado e tolerante”.

 «A fé leva o crente a ver no outro um irmão para amar»

O Centro de Estudos Inter-religiosos da Pontifícia Universidade Gregorina e o Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos (Pisai) promoveram um fórum para aprofundar o documento assinado no dia 4 de fevereiro, em Abu Dhabi, pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyeb.

“A fé leva o crente a ver no outro um irmão para apoiar e amar.” Assim começa o “Documento sobre a fraternidade humana (Dfh) para a paz mundial e a convivência comum”, sobre o qual o Grupo “Pisai” iniciou seus trabalhos com um fórum de aprofundamento, no dia 8 de abril, na Universidade Gregoriana, em Roma. Presentes o teólogo muçulmano Adnane Mokrani e o diretor do Centro de Estudos Padre Laurent Basanese.

O “Documento sobre a fraternidade humana” marca um novo horizonte para o diálogo islâmico-cristão e para além dele. Oferece uma oportunidade e restabelece o “direito de sonhar”, especialmente para os jovens, que, sublinha Adnane Mokrani, “são o motor da mudança, a esperança para o futuro e têm uma grande sede de liberdade, democracia, direitos humanos, cidadania plena”.

O Documento centraliza-se na fraternidade cósmica de todas as criaturas. É evidente que o nosso planeta não pode sobreviver sem uma ideia de responsabilidade comum perante Deus, a humanidade e a criação. 

A falta de amor e de solidariedade fere a fé e não permite “um encontro cheio de esperança para um futuro brilhante para todos os homens”, indica o texto. E o teólogo referiu: “Nós não temos um destino separado, mas um destino único para toda a humanidade. E somos todos responsáveis”. Esta é a teoria. Mas bem longe anda a prática. 

Iraque – «cristãos à beira da extinção»

O arcebispo D. Bashar Warda, responsável pela maior comunidade católica do Iraque, diz que a derrota do Estado Islâmico não erradicou a ameaça contra os cristãos, que continuam “à beira da extinção”.

Numa  entrevista à AIS internacional, na passagem dos 5 anos do ataque do Estado Islâmico à Planície de Nínive, o arcebispo católico deixou apelos a todos os responsáveis políticos e em particular aos líderes muçulmanos. Pediu o fim de “novas ondas de violência” contra os cristãos e restantes minorias, não só no Iraque, mas em todos os países.

A 6 de agosto de 2014, cerca de 120 mil cristãos tiveram de deixar as suas casas na Planície de Nínive, devido a um ataque armado do grupo extremista do EI (ISIS). Muitas dessas pessoas e famílias refugiaram-se na Arquidiocese de Erbil, no Curdistão iraquiano, e por lá permaneceram ao longo destes anos até à queda do ISIS, em 2017. A partir daí, milhares de cristãos começaram a regressar às suas terras, em que foram reconstruídas grande parte das 14 mil habitações destruídas durante o ataque, com o apoio da AIS – 42,6 milhões de euros de ajuda ao Iraque, entre 2014 e 2019.

De acordo com D. Bashar Warda, apesar de todos estes desenvolvimentos positivos, o regresso dos ataques será apenas uma questão de tempo. E afirmou: “continuamos a ter grupos extremistas, cada vez mais numerosos, que defendem a ideia de que matar cristãos e yazidis ajuda a propagar o Islão”.

 “Pela Constituição do meu país, nós somos considerados cidadãos de segunda… sem quaisquer direitos”, explica. “Reconstruir a sociedade civil implica recuperá-la para todos”, defende o arcebispo.

E deixa uma mensagem ao mundo: “Que fique bem claro: não nos vamos calar perante a ameaça de extinção; (…) a violência e a discriminação contra os inocentes têm de acabar, a têm de parar”.