Francisco aos padres: caminhemos juntos e sem desanimar

D.R.

Carregando as dores do povo

Diz o Papa Francisco na sua carta aos padres: “Meu segundo grande desejo é renovar nosso espírito sacerdotal, sob a ação do Espírito Santo”.  

Como pastores, em face de experiências dolorosas, todos precisamos de conforto e encorajamento.

Umas vezes refugiamo-nos em lugares comuns: “a vida é assim”, “nada pode ser feito”, dando origem ao fatalismo e desconforto. «Como o profeta Jonas sempre carregamos a tentação de fugir para um lugar seguro que pode ter muitos nomes: individualismo, espiritismo, enclausuramento em pequenos mundos…», que acabam separando-nos de nossas próprias feridas e das dos outros.

Outras vezes, desiludidos com a realidade, com a Igreja ou connosco mesmos, podemos cair na tristeza. Esta […] paralisa a coragem de continuar com o trabalho, com a oração, torna-nos hostis àqueles que vivem connosco. Tristeza espalha ressentimento e animosidade.

Precisamos do conforto e da força de Deus e dos irmãos em tempos difíceis. Todos sentimos necessidade de interiorizar as palavras de São Paulo às suas comunidades: “Peço que não desanimeis por causa das tribulações” (Ef 3, 13). Ao longo de nossas vidas, Deus sempre “nos permite começar de novo, com uma ternura que nunca nos dececiona e pode sempre trazer-nos alegria”.  

Somos convidados pelo Senhor entrar em sua oração. Pode até haver momentos em que temos de nos imergir na «oração do Getsémani,…  “Há súplica, tristeza, angústia, quase desorientação (Mc 14,33s.)». A oração nos lembra que somos discípulos necessitados da ajuda do Senhor. Ele conhece nossos esforços e conquistas. Ele é o primeiro a nos dizer: «Todos os aflitos e oprimidos vêm a mim e eu os alivio (Mt 11, 28-29). 

Reconhecemos nossa fragilidade, mas sem perder a alegria de nos sentirmos enviados de novo para a missão. Cada vez que negligenciamos o nosso relacionamento com Ele, nossa entrega se esgota e as nossas lâmpadas ficam sem óleo capazes de iluminar a vida (Mt 25,1-13).

Vamos aumentar e alimentar o vínculo com o povo de Deus. ”Não vos isoleis do vosso povo e de presbíteros ou comunidades.”  Isso, no fundo, sufoca e envenena a alma. “Um ministro vivo é um ministro sempre a caminho: à frente, para guiar a comunidade; no meio, para melhor encorajar e sustentar;  atrás, para manter tudo junto e não perder nenhum…”.

Carregamos a dor de tantas vítimas, a dor do povo de Deus, assim como a nossa. Jesus nos convida a renovar a nossa missão de estar perto daqueles que sofrem, sem vergonha, perto das misérias humanas, sendo artesãos de relacionamento e comunhão, abertos, confiantes e expectantes da novidade que o Reino de Deus quer levantar hoje: um reino de pecadores perdoados, convidados a testemunhar a sempre viva e ativa compaixão do Senhor.

Gostaria de encorajar-vos a não negligenciar o acompanhamento espiritual, tendo algum irmão com quem conversar, confrontar, discutir e discernir com total confiança e transparência o próprio caminho. É uma ajuda insubstituível. Recordemos as palavras do Eclesiastes: “Valem mais dois juntos do que um… se eles caírem, um levanta o outro, mas pobre daquele que está sozinho e cai, sem ter ninguém para levantá-lo!” (4, 9-10).

Sob o olhar de Maria numa Igreja da misericórdia

É impossível falar de gratidão e encorajamento sem contemplar Maria. Ela ensina-nos o louvor capaz de abrir nossos olhos para o futuro e de devolver a esperança ao presente. Toda a sua vida foi condensada na sua canção de louvor, o ‘Magnificat’ (Lc 1,46-55).

Olhar para Maria é «acreditar de novo em Jesus revolucionário da ternura e do afeto. Nele vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam maltratar os outros para se sentirem importantes.

Se alguma vez sentimos que a força sedutora da apatia ou da desolação quer enraizar-se e apoderar-se do coração;

Se o prazer de sentir-se parte integrante e viva do Povo de Deus começa a incomodar-nos e nos percebemos empurrados para uma atitude elitista … 

Se vemos que não podemos caminhar e que é difícil para nós mantermos os propósitos de conversão,… 

Se alguma vez somos tentados a nos isolar e confinar a nós mesmos e a nossos projetos, protegendo-nos dos caminhos sempre empoeirados da história, sem querer lutar, para esperar e amar…  

Lembremos Maria:

“Ela é a amiga sempre atenta para que o vinho não falte em nossas vidas.

Ela é um sinal de esperança para todos os que sofrem de dores de parto até que a justiça brote…  

Ela é uma mãe, que anda connosco, luta connosco e derrama sobre nós incessantemente o Amor de Deus».

Irmãos, mais uma vez, “Eu te agradeço incessantemente por ti” (Ef 1, 16) pela vossa dedicação e missão com a confiança de que «Deus remove as pedras mais duras, contra as quais se chocam esperanças e expectativas: morte, pecado, medo, mundanismo. A história humana não termina perante uma lápide, porque hoje descobre a “pedra viva” (cf. 1 P 2,4): o Jesus ressuscitado. Nós, como Igreja, somos fundados sobre Ele, e mesmo quando desanimamos, quando somos tentados a julgar tudo com base em nossos fracassos, Ele vem para tornar tudo novo».

Sejamos pessoas que testemunham com suas vidas a compaixão e a misericórdia que somente Jesus nos pode dar.