«Escrevo,… admiro vossa coragem e «agradeço por todos vós»

Foto: Vatican Media

Francisco abre seu coração

O Papa Francisco, no dia da celebração de São João Maria Vianney, padroeiro dos párocos – 4 de agosto – enviou uma Carta aos padres de todo o mundo, exprimindo todo o apreço e carinho pelo seu trabalho pastoral na Igreja e na sociedade. Estamos perante uma sociedade com imensos problemas, mas à força do Espírito junta-se a coragem de muitos que – “deixando tudo, cansados, ridicularizados, incompreendidos” – cuidam e acompanham o povo de Deus. E o Papa Francisco abre o seu coração.

Escrevo esta carta a todos os irmãos padres que, sem fazer barulho, “deixam tudo” para se comprometerem com as suas comunidades. A vós que trabalhais na “trincheira”, carregais o peso do dia e do calor (Mt 20,12) e, estais expostos a situações complicadas, e “dais vossas faces” diariamente para que o Povo de Deus seja cuidado e acompanhado.

Dirijo-me a cada um de vós que, tantas vezes, despercebido e sacrificado, com cansaço, doença ou desolação, assumis a missão como serviço a Deus e ao próximo e… vos sentis ridicularizados e “culpados” por crimes que não cometestes e dissestes que precisais de  encontrar no vosso bispo a figura do irmão mais velho, que vos anima.

Quero, como irmão e pai mais velho, ser íntimo, e em primeiro lugar, agradecer-vos em nome do santo povo de Deus por tudo o que recebe de vós, e encorajar-vos a renovar as palavras que o Senhor pronunciou com tanta ternura no dia da nossa ordenação e constituem a fonte da nossa alegria: “já não vos chamo servos… mas amigos” (Jo 15,15).

Chamo vossa atenção para ouvirdes com mais clareza o clamor dos últimos tempos, tantas vezes silencioso e silenciado, de nossos irmãos, vítimas de abusos de poder e de consciência e sexualidade por ministros ordenados… Estamos firmemente comprometidos com a implementação das reformas necessárias para que a cultura do abuso não encontre espaço para se desenvolver e, menos ainda, para se perpetuar.

Sei que essa dor não vos é indiferente.  Muitos expressaram sua indignação com o que aconteceu, e também algum desamparo, uma vez que “também muitos sofreram danos causados ​​pela suspeita e pelo questionamento, que podem ter introduzido dúvidas, medo e desconfiança». 

Reconheço que seria injusto não reconhecer tantos sacerdotes que, honestamente, abandonam tudo o que são e têm para o bem dos outros (2 Cor 12, 15), mesmo correndo o risco das próprias vidas. Agradeço o seu exemplo corajoso e constante, em momentos de turbulência, vergonha e dor. «Não vamos desanimar! O Senhor está soprando seu Espírito para devolver a beleza à sua Igreja. 

«irmãos» agradeço por todos vós (Ef 1, 16)

A vocação é a resposta a um chamamento gratuito do Senhor. Um dia dissemos um “sim” que nasceu e cresceu numa família, numa comunidade cristã que nos mostraram com fé simples que valia a pena dar tudo pelo Senhor e pelo seu Reino. O Papa Francisco exprime sua gratidão.

Irmãos,

obrigado pelo bem que fizestes. Vejo-vos idosos ou doentes a serdes visitados por aqueles que batizastes e acompanhastes no vosso serviço ministerial. Jamais vos esquecerão, pois fazeis parte dos acontecimentos mais importantes da família. Digo-vos como o apóstolo: “Eu agradeço incessantemente por ti” (Ef 1,16). A gratidão é tão bela! Contemplo e agradeço concretamente todos os gestos de amor, generosidade, solidariedade, bem como perdão, paciência e compaixão com os quais fomos tratados;

obrigado por vossa fidelidade aos compromissos assumidos por uma vida inteira. Transportando um tesouro em vasos de barro (2 Cor 4, 7), sabendo que o Senhor triunfa na fraqueza (cf. 2 Cor 12,9. Pela “capacidade de dardes a vida, ao longo dos anos, mostrando-vos  inteligentes porque cheios de proximidade;

obrigado por tornardes fortes os laços de fraternidade e amizade no presbitério e com o bispo, apoiando-vos mutuamente, cuidando do doente, procurando aquele que está isolado, encorajando e aprendendo a sabedoria do velho, sabendo rir e chorar juntos;

obrigado pela Eucaristia e pelo sacramento da reconciliação, acompanhando as pessoas  no caminho da conversão a uma vida nova: caminhar com elas, “saber dialogar e até descer à escuridão sem se perder”;

obrigado por anunciardes a todos, com ardor, o Evangelho de Jesus Cristo (2 Tim 4.2), sondando o coração da própria comunidade “para buscar onde o desejo de Deus está vivo e ardente e também onde aquele diálogo, que era amoroso, foi sufocado”;

obrigado pelos tempos em que, acolhestes os caídos, curastes as feridas, mostrando ternura e compaixão como o samaritano da parábola (cf. Lc 10,25-37). Nada exige tanto quanto isso: aproximar-nos do irmão que sofre. Como faz bem o exemplo de um padre que se aproxima e não foge das feridas de seus irmãos!; 

obrigado pelo povo de Deus que alimentamos e, através do qual, o Senhor também alimenta e cuida de nós com o dom de poder contemplar as pessoas naqueles “pais que tanto se importam com seus filhos, naqueles homens e mulheres que trabalham para trazer pão para sua casa, nos doentes, nas velhas freiras que continuam sorrindo.

O Papa Francisco reconhece que a missão do padre é muitas vezes “difícil, incompreendida e  ridicularizada” e agradece a todos, do íntimo do seu coração, a coragem e generosidade manifestada na dedicação e no acompanhamento dos irmãos que mais precisam. Agradece a cada um e pede para se deixarem ajudar e estimular pelos irmãos no sacerdócio e pela força do Espírito de Deus. De Deus que é cheio de compaixão e “cuja misericórdia é eterna”.