Jovens: vós sois o agora de Deus

D.R.

1.Não podemos limitar-nos a dizer que os jovens são o futuro do mundo: eles são o presente. Um jovem encontra-se num momento da vida em que começa a assumir diferentes responsabilidades no desenvolvimento da família, da sociedade, da Igreja (CV, 64).

O Sínodo dos Jovens 2018 reconheceu que «na Igreja, em vez de escutarmos os jovens, prevalece a tendência de fornecer receitas e respostas feitas, sem deixar que as “questões juvenis surjam em sua novidade e aproveitá-las” como provocação». É certo que, quando a Igreja se abre para uma escuta atenta e disponível dos jovens, essa empatia “permite aos jovens dar sua contribuição à comunidade, ajudando-os a captar novas sensibilidades” e a fazer novas perguntas» (CV, 65).

Hoje, nós adultos, corremos o risco de fazermos uma lista de defeitos dos jovens, e distanciamo-nos. Os que foram chamados para ser pai, pastor e guia dos jovens devem ser capazes de ‘descobrir a pequena chama que ainda fumega’; devem ter a capacidade de identificar caminhos onde esbarrávamos só com paredes, saber reconhecer possibilidades outros viam apenas perigos. O coração de todo o jovem é portador de sementes da vida divina, diante do qual devemos “tirar as sandálias” para poder aproximar-nos e aprofundar o seu Mistério (CV, 67).

2.O número 68 da CV, apresenta-nos uma «pluralidade de mundos juvenis». Em muitos países, as redes sociais já constituem «um lugar indispensável para se alcançar e envolver os jovens» (87). Mas também são um campo de solidão, manipulação, exploração e violência. Os meios de comunicação digitais podem expor ao risco de dependência e perda progressiva de contacto com a realidade concreta… Difundem-se novas formas de violência, de pornografia e de exploração de pessoas para fins sexuais ou através do jogo de azar» (88)

Num documento preparado por trezentos jovens de todo o mundo no pré-Sínodo, se afirma que «as relações on-line podem tornar-se desumanas e um distanciamento da família, dos valores culturais e religiosos, que leva muitas pessoas para um mundo de solidão» (90).

Papa Francisco lembra aos jovens que «é muito difícil lutar contra…as ciladas e tentações do demónio e do mundo egoísta, se estiverem isolado» (110);  e aconselha a envolverem-se na vida comunitária da paróquia ou de qualquer movimento aprovado pela Igreja ou de boa orientação humana.

3.No encerramento das JMJ 2019, no dia 27 de Janeiro, no Panamá, o Papa Francisco deixou este recado: “vós, queridos jovens, não sois o futuro, mas o agora de Deus”.

Inspirado no Evangelho de Lucas 4,14-21, o Papa lembrou as palavras de Jesus: “cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc, 4,21); ela “revela o agora de Deus, que vem ao nosso encontro para nos chamar, também a nós, a tomar parte no seu agora” e chamou atenção para que os jovens sejam cuidadosos, pois muitas vezes acreditam que suas vocações e missões são para o futuro, o que é um grande engano. Deus nos dá o agora.

O pontífice destacou que “nem sempre acreditamos que Deus se faça presente a nós agindo através de alguém conhecido, como um vizinho, um amigo, um parente”, pois acreditamos num Deus intocável, esquecendo que “o amor divino é concreto e quase experimental na história. Também os vizinhos de Jesus, em Nazaré, preferiam um Deus distante, que fosse bom, generoso, mas distante.

“Ele não quis manifestar-Se de modo espetacular, mas quis dar-nos um rosto fraterno e amigo, concreto, familiar. E é precisamente esta «dimensão concreta do amor aquilo que constitui um dos elementos essenciais da vida dos cristãos»”, disse o Papa Francisco, citando Bento XVI.

4.Papa Francisco lembrou XV Sínodo dos Bispos 2018, “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, em que se refere “um dos frutos do Sínodo foi a riqueza de nos podermos encontrar e, sobretudo, escutar”. Em todas as idades. Os jovens devem escutar as experiências dos mais velhos – os idosos. Do mesmo modo, também os jovens precisam ser ouvidos.

Como bom exemplo de escuta e de vivência do agora, Papa Francisco referiu o exemplo de Maria, que viveu intensamente o seu chamamento. “Ao longo de todos estes dias das Jornadas Panamianas, como um fundo musical, acompanhou-nos de modo especial o «sim» de Maria. Ela acreditou em Deus e teve a coragem de dizer «sim» para participar neste agora do Senhor. Sentiu que tinha uma missão, apaixonou-Se, e isso decidiu tudo”.

E finalizou a homilia pedindo que os jovens percebam no outro a presença viva de Cristo no meio de nós, assim como na Sinagoga ele se colocou de pé e disse que a Palavra se havia  cumprido no hoje: “Quereis viver em concreto o vosso amor? O vosso «sim» continue a ser a porta de entrada para que o Espírito Santo conceda um novo Pentecostes ao mundo e à Igreja”.