Férias e visitações. Para que servem?

D.R.

Parece uma questão ociosa. Então, não são para descansar? Nem só. Também para desintoxicar o organismo do lixo acumulado durante o ano. São tempo de se mexer, andar a pé, respirar ar sem gases; de arejar pulmões, músculos, coração, cérebro e mente sua companheira. Servem para reduzir a sobrecarga televisiva de política, futebóis, gastronomias e outras “calamidades”. Não esquecer que a beleza das paisagens, as visitas a pé a museus, palácios e igrejas; a relação com pessoas doutras etnias e línguas, são alimentos culturais que casam mal com barriga cheia, sonolência cerebral de peso a mais.

As leituras do domingo XVI dão dicas de festas de hospitalidade em férias e visitas. Férias a viajar, peregrinar, atravessar desertos e subir montanhas. Abraão descansava à sombra do carvalho de Mambré; não estava de férias. Ao ver três viajantes cansados, corre acolhedor; os três, de acolhidos, passam a acolhedores. O Abraão do deserto, com bastantes rebanhos, não podia ficar mal visto na hospitalidade. Atarefado puxa pela mulher e pelo servo para acolher bem. Mas, para acolher será mesmo preciso ficar em alvoroço e agitação? A hospitalidade no deserto a mais de 40 graus não era brincadeira.

Noutra cena é Jesus que entra na casa das irmãs Maria e Marta com um grupo de discípulos. Não era visita de férias, nem como a dos três junto da tenda no deserto, era um grupo. Vinham repousar e comer. E, logo, Marta, a hospitaleira, entra em alvoroço atarefado. Maria volta tudo às avessas: acolhedora, sim, mas, primeiro, ser acolhida por Jesus. Jesus queria alguém que o escutasse. Recebia e dava, acolhimento e palavra.

Duas formas de pausa e visitação para fazer das férias tempo de hospitalidade, acolher e ser acolhido. Nem sempre tempo de descanso para todos. Abraão logo descobriu que sem Sara a cozer pão a sua hospitalidade do dom da água para os pés e o descanso dos seus visitantes não bastavam. No deserto, um pedaço de pão e pedaços apetitosos de cabrito preparados pelo servo era hospitalidade para continuar a caminhada. E Abraão passa de acolhedor a acolhido pelo seu Senhor: ficou de pé à escuta do dom.

Em férias e em visitas há lugar para peregrinar, acolher, ser acolhido, falar e escutar. Revelar os dons recebidos, receber revelações e dons dos visitados, dos visitantes e até do Hóspede, seu Senhor. Abraão falou e ouviu falar e teve a surpresa de receber um presente, ele e a sua mulher Sara, Isaac, o filho da promessa.

Marta recebeu a mensagem: Jesus e a sua palavra, “a melhor parte” de todos os encontros, o dom mais valioso que a boa refeição oferecida por ela; não lhe seria tirado.

Na visitação, Nossa Senhora saudou e ouviu a saudação profética de Isabel: o meu menino e eu, sentimos o teu como o meu Senhor. Tu és bendita entre todas as mulheres porque ouviste a palavra de Deus e acreditaste e recebeste o Filho de Deus. Que rico presente as duas primas trocaram entre si: o teu filho deu alegria ao meu; a tua fé na palavra de Deus tornou-te bendita e a tua visita tornou-me feliz.

As férias, visitas, peregrinações, viagens, afinal, são para levar bênçãos e receber bênçãos. Para levar e receber palavras humanas e divinas, para procurar e receber Jesus. As visitas a igrejas e capelas permitem pausas de silêncio orante. Na peregrinação, visitas de turismo e travessias de deserto há lugar para a contemplação e o jejum saudável. Uma caminhada de 13 kms ao lado de água viva, trutas e tintilhões, ao Caldeirão Verde na costa norte da Madeira oferece o gozo de contemplar maravilhas da criação sem estragos, como recebi no início das férias.

Peregrinar à Terra Santa, a Fátima ou a S. Tiago de Compostela enriquece o sentido de Deus para a própria vida. Tantas páginas da história, de ontem e de hoje, e tantos passos ritmados, são presentes de saúde pela respiração otimizada e de sentido!

Fazer turismo de cultura e de religião é mais que atarefar-se por restaurantes e bares, festivais de ruídos estridentes e sujos, a empanturrar. Escolher a melhor parte pode ser parar perante as mil cores de verdes de florestas e montanhas; ou fechar os olhos e perguntar: afinal, quem sou eu e todos esses que se movem por aldeias, cidades, museus, igrejas e santuários? Que procuramos? Que desejamos encontrar nestas férias de caminhadas e procura? Felizes, aqueles, que mesmo nas férias, escolhem o Dom que nada pode tirar!