Em louvor do singular, em tempo de novos padres  

D.R.

O termo singular significa único, extraordinário, raro e original. Também se usa no sentido de caprichoso e excêntrico. Aqui significa dado a missão de um só em favor de muitos, em comunhão. Não é individualismo egoísta nem conformismo amorfo. Significa pessoa entregue a missão singular em liberdade responsável. Diz não à epidemia da indiferença pela dor alheia, sem coração e sem capacidade para o sentido da vida, da verdade e da bondade. Na missão singular responde-se a Alguém que chama para ser bom e fazer o bem sem aceção de pessoas. Quanto maior a singularidade da missão de vida, mais a pessoa chamada precisa discernir e decidir sozinha, confiando sempre nesse Alguém que chama.

As máquinas sociais que inundam as pessoas de informações não ajudam na decisão. Muita informação, opiniões e pretensas escolhas, hoje, impõem interesses e ideologias ditatoriais de alguns que se arrogam de senhores do mundo. Infelizmente as manipulações do badalar liberalista astuto de apelos irresponsáveis ao conformismo mole tornam-se irresistíveis.

As singularidades de missão livre, para o bem comum, passam pela porta estreita (Mt 7, 13); merecem admiração e louvor, não como destino fatídico ou “fatum” sem liberdade responsável. São bênçãos para os próprios e os irmãos mais carenciados. Os que aceitam a chamada não se deixam roubar da vida de missão por cordelinhos ocultos; nem desistem da partilha globalizada dos bens comuns ao serviço de todos.

A história mostra que as melhores e as piores mudanças se devem a singularidades de poucos, só depois abraçadas por outros. Benjamin Wilker (2008) teve a ideia de escrever um volume e dar um conselho desconcertante sobre dez escritores: «Dez livros que estragaram o mundo», mas que aconselha ler como vacina. Mais bênçãos vêm à humanidade por alguns que sofreram muito que por gente de vida regalada. Já Jesus acautelou disso na parábola do Lázaro e o rico (Lc 16, 19-31). Seria um nunca mais acabar lembrar bênçãos singulares, de pensar verdade e agir bem na história devidas a poucos. Daniel na Babilónia, José e Moisés no Egito, Jeremias, Isaías, Elias, João Batista, são alguns que passaram por sofrimentos e viveram missão singular para o bem comum dando sentido à história. Claro, o singular dos singulares é Jesus Cristo, o Único!

Dezenas de santos, de vida singular, continuam a ser bênçãos em todos os tempos. Basta abrir um dicionário de santos! Nem todos têm essa marca da Igreja. Há santos de humanidade e bondade singular sem auréola eclesial. Ser santo é uma singularidade distinta de ser poeta, escritor, filósofo, cientista, especialista de mil técnicas. Todas essas modalidades de conhecer e fazer coisas de arte, são maravilhosas, e os seus cultores podem ser santos de bondade a favor de todos e, primeiro, dos pobres e doentes. Mas podem também ser máquinas frias de conhecimentos, sem bondade, a favor deles e dos mais ricos e poderosos.

Ser bom e ser santo coaduna-se com a singularidade individual, não com os egos de grandeza e de massa formatada, globalizada e liberalista, sem coração. Lembremos dois ou três santos de vidas singulares, com missão de pensar verdade, de bem-fazer e de centrar-se no bem comum. Bastaria lembrar: Madre Teresa, João Paulo II, Jean Vanier, Clara Lubich, Padre Américo, Luther King. E outros de bondade humanista, por exemplo: Mahatma Ghandi, Nelson Mandela…Deixo ao leitor atento, um trabalho de casa: procurar outros santos, com ou sem marca, nos tronos da política, do dinheiro, da evangelização, das artes, das ciências e técnicas. Mas adornados de sabedoria, verdade, bondade e missão singular aceite a favor, por exemplo, dos 820 milhões de pobres e miseráveis a sofrer de fome, hoje; ou a favor dos milhares de refugiados e migrantes.

Procure neste hoje, quando se prepara a segunda ida à Lua! Faça sua procura sozinho; entre em casa, feche a porta e ore ao Pai (Mt 6, 6) a pedir luz. E, a seguir, decida se a sua vida também é de missão singular. O Evangelho leva a pensar no «pequeno rebanho» destas singularidades, mas nem assim tem que se temer (Lc 12, 32). Será que Jesus quis preparar para o reduzido número das pessoas que aceitam missão singular? Parabéns aos novos padres ordenados: aceitam de Jesus, singularmente, em Igreja, esta missão única de vida.