A Igreja de Jesus Cristo é «Igreja de compaixão»

«Ter compaixão é chave da vida cristã», Papa Francisco 

D.R.

1.Um doutor da Lei perguntou a Jesus: “E quem é o meu próximo?” Ao que Jesus respondeu com a parábola:

“Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes que o roubaram, espancaram e se foram-se embora, deixando-o meio morto.

Pela mesma estrada desceu um sacerdote, desceu um levita. Quando viram o homem ferido passaram pelo outro para não se ‘contaminarem’.

Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte disse ao dono da estalagem: ‘Cuide dele. Quando eu voltar, pagarei todas as despesas que você tiver’.

E Jesus perguntou: “Qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”

“Aquele que teve misericórdia dele”, respondeu o perito na lei. E Jesus lhe disse: “Vai e faz o mesmo”. (cf. Lucas 10, 29-37)

2.Para Francisco, a parábola do Bom samaritano “Tornou-se o modelo de como um cristão deve agir”.  Antes do Angelus, o Papa Francisco recordou o elo indissolúvel que existe entre o amor a Deus e o amor concreto e generoso pelos irmãos.

Neste episódio, Jesus é interrogado por um doutor da lei sobre o que é necessário para alcançar a vida eterna. Jesus o convida a encontrar a resposta nas Escrituras: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, e ao teu próximo como a ti mesmo!”. Havia, porém, diferentes interpretações sobre quem seria o “próximo”. 

O protagonista é um samaritano, um herege, desprezado pelos judeus. Ao longo de uma estrada, o samaritano encontra um homem roubado e agredido por assaltantes. Antes dele, haviam passado um sacerdote e um levita, isto é, pessoas que se dedicavam ao culto de Deus. Mas não pararam. O único que lhe presta socorro é justamente o samaritano.

“Jesus escolhe como modelo alguém que não era homem de fé. Este homem, amando o irmão como a si mesmo, demonstra que ama a Deus com todo o coração e com todas as forças e expressa ao mesmo tempo verdadeira religiosidade e plena humanidade. ”

 “Ter compaixão é a chave da vida cristã. A capacidade de compaixão tornou-se a medida do cristão, ou melhor, do ensinamento de Jesus”. “A misericórdia diante de uma vida humana na situação de necessidade é a verdadeira face do amor.” São afirmações de Francisco.

3.No domingo passado, D. Nuno Brás, visitou a paróquia da Ribeira Seca, 50 anos depois da última visita de um bispo, tendo sido recebido pelos paroquianos e pelo pároco, padre Martins Júnior, em clima de festa.

Esta visita acontece um mês depois de D. Nuno Brás revogar a “suspensio a divinis” aplicada ao padre Martins Júnior, em julho de 1977, nomeando-o administrador paroquial da Ribeira Seca.

A celebração eucarística decorreu na igreja, construída “com o suor, com a força, com o sacrifício” da comunidade, que ainda não tinha sido visitada por um bispo diocesano, assinalou o padre Martins, admitindo “o sentimento de expectativa, a fome e a sede” das pessoas em “receber o seu líder religioso, como um pai, como um amigo, não como um juiz”.

Foi uma “travessia no deserto de 42 anos” que a comunidade fez, mas surgiram novas “energias” entre as pessoas, referiu o Padre Martins.

D. Nuno Brás apelou à construção de relações fraternas e centradas na necessidade “do próximo” deixando uma “lógica egoísta”, a partir do exemplo do Bom Samaritano. “Não faz sentido não nos aproximarmos uns dos outros e de todos aqueles que precisam de Jesus”, reforçou. Esta celebração foi classificada por alguns como “Missa da reconciliação”.

O padre Martins Júnior, nunca deixou a paróquia, presidindo a celebrações religiosas, apesar da suspensão e da ausência de nomeação oficial da diocese. Ocupou vários cargos políticos, como deputado da Assembleia Regional e como presidente do Município de Machico.

decreto, entretanto publicado pela Diocese do Funchal, explica que a 27 de julho de 1977 o então Bispo do Funchal, D. Francisco Santana, decretou administrativamente a suspensão a divinis do padre José Martins Júnior pelo delito previsto no cânone 2401 do Código de Direito Canónico de 1917, então em vigor – “manter um cargo, um benefício ou uma dignidade, apesar de uma privação ou revogação legítima”.

Numa carta de 8 de maio de 2019, o sacerdote solicitou a revogação da referida pena de suspensão, mostrando a sua intenção de ser “plenamente reintegrado” no exercício do seu ministério sacerdotal no presbitério Diocesano do Funchal.

4.O amor a Deus e ao próximo é que dão pleno sentido à vida. “Vai e faz o mesmo”, diz Jesus a cada um dos que querem segui-lO. Faz o mesmo que o samaritano, herege e infiel segundo os padrões judaicos, mas capaz de deixar tudo para estender a mão a um irmão caído na berma da estrada.

D. Manuel Linda, bispo do Porto, deixou aos 2 sacerdotes e 5 diáconos ordenados no domingo passado, o desafio de se aproximarem de quem passa pela “angústia de viver sozinho”. E há tantos abandonados, esquecidos e desprezados nas suas casas e comunidades e nos Lares de idosos. Fora com o ‘fariseísmo da letra e dos fazeres que humilham’’, numa Igreja cansada e pratiquemos o amor fraterno com ações como Jesus ‘fez e ensinou’. Numa viragem de forte ‘reconciliação’.

A lei nova é a lei do amor. É de estender a mão a todo aquele que precisa de mim em qualquer das suas fragilidades.