Visita histórica à Ribeira Seca: D. Nuno Brás diz que “não faz sentido não vivermos unidos”

Foto: Duarte Gomes

“Bem se desejou e esperou por este dia” dizia o cântico da entrada da Eucaristia que se celebrou, ontem, na Ribeira Seca. A festa era em honra do Santíssimo Sacramento, mas esta celebração fica para a história como “a Missa da reconciliação”. Assim a designavam, de resto, muitos daqueles que cedo se começaram a juntar no adro da igreja e no interior da mesma, para receber o bispo do Funchal, que quebrou com a sua visita um interregno de meio século.

Depois da revogação da suspensão a divinis do Pe. Martins Júnior e do anúncio da visita à paróquia do Bispo do Funchal, a tarde correu como se previa, com D. Nuno Brás a ser recebido sob fortes aplausos dos paroquianos da Ribeira Seca e pelo padre Martins, com quem trocou um caloroso abraço.

Seguiu-se a Eucaristia, animada pelo próprio Pe. Martins e por jovens e adultos. E logo no início da celebração, que podia ser acompanhada no exterior graças a um ecrã colocado no adro, D. Nuno Brás confessou que, “quando passava na via rápida, olhava para a Ribeira Seca e pensava: Deus me dê a graça de um dia poder celebrar com aqueles cristãos”. 

Esse dia chegou, com o prelado a dar “graças a Deus” e a saudar o Pe. Martins Júnior e todos os sacerdotes que se quiseram associar a esta celebração, mas sobretudo a saudar “os cristãos da Ribeira Seca”.

“Como vosso bispo, quero saudá-los”, disse D. Nuno Brás, dirigindo-se à assembleia, “com as palavras do apóstolo São Paulo: a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai, e a comunhão do Espírito Santo, estejam convosco”. 

Já o Pe. Martins, dirigiu-se ao bispo neste primeiro momento referindo que “seriam precisos 50 anos para fazer o seu discurso de boas vindas”, pois “transcorreram 50 anos que este templo, feito com o suor, com a força, com o sacrifício desta comunidade, nunca tinha recebido a visita do seu pastor diocesano”. Não havendo tempo para tal, nem tão pouco palavras, o Pe. Martins optou por sublinhar que era enorme “o sentimento de expectativa, a fome e a sede” que esta comunidade sentia em “receber o seu líder religioso, como um pai, como um amigo, não como um juiz”. 

“Nós lhe agradecemos”, declarou, ao mesmo tempo que lamentou a “travessia no deserto de 42 anos que nos obrigaram a fazer”. Porém, garantiu, essa travessia “também foi fomentadora de energias”.

O sacerdote lamentou ainda que certas pessoas não tenham podido estar presentes nesta ocasião, casos do bispo de Aveiro, D. António Marcelino, já falecido, e outros amigos que, numa ou noutra ocasião, lhe mostraram solidariedade, como Frei Bento Domingues ou o padre e professor catedrático da Universidade de Coimbra, Anselmo Borges, entre muitos outros. 

Sejamos todos “bons samaritanos”

Já na homilia, o bispo do Funchal disse que “não faz sentido nós cristãos não vivermos unidos em Jesus Cristo e não nos encontrarmos neste pão da vida que é a Eucarista” e que “não faz sentido nos aproximarmos uns dos outros e de todos aqueles que precisam de Jesus”.

D. Nuno Brás referiu-se ao Evangelho para referir que “não podemos deixar de nos sentir confrontados com a grande questão que nos move a todos: a questão da felicidade”. A verdade, frisou, é que “todos queremos ser felizes” e de preferência “felizes sempre”. 

Ora, no Evangelho de São Lucas, o doutor da lei questionava Jesus sobre o que fazer para ser feliz. A resposta de Jesus, a resposta que ele nos dá ainda hoje, é “surpreendentemente simples” e aponta para “a importância, a centralidade de Deus, para a vida feliz de todo e qualquer ser humano, como que a dizer que sem Deus não há felicidade para sempre. Sem Deus, aliás, não há nada que seja para sempre”.

“E sem o próximo também não existe felicidade que possa durar” frisou o prelado, para logo explicar que “existem muitos tipos de proximidade”, desde a de sangue à da religião, passando pela geográfica e de pensamento. Mas todas elas “têm uma coisa em comum: constroem-se a partir e à volta do eu”. Mas é precisamente esta “lógica egoista”, que Jesus “destrói na parábola do bom samaritano”. 

De resto, o bispo do Funchal apelou à assembleia para “deixar o seu conforto, a deixar o que pensa e o que é”, por causa daquele que necessita de ajuda”. Isto, disse D. Nuno, “é que é ser próximo”.  E “não faz sentido não nos aproximar-mos uns dos outros e de todos aqueles que precisam de Jesus”. Daí o desafio de sermos “todos bons samaritanos”.

À Eucaristia, que contou ainda com a presença do presidente da Câmara de Machico e alguns vereadores, seguiu-se a procissão, na qual tomaram parte muitos dos fiéis que ali se encontravam. 

No regresso à igreja, houve ainda tempo para os agradecimentos finais, nomeadamente por parte do Pe. Martins. Agradecimentos não só ao prelado pela presença e pelas “barreiras que teve de ultrapassar” para que “o sol pudesse brilhar”, mas a toda a comunidade que enfeitou o interior e o exterior do templo, que compareceu massivamente a esta celebração e a todos os sacerdotes presentes.

E por fim uma promessa: “Vamos continuar a aprofundar o papel do cristão dentro da Igreja e com a nossa boa vontade de redescobir a face de Cristo, a face da Igreja e a caminhar para as fontes do evangelho, para as origens, nós queremos imitar o Papa Francisco que quer realmente entrar nos caminhos do autêntico Evangelho”. 

Terminada a celebração litúrgica seguiu-se um convívio nas instalações anexas à igreja, que contou com a presença do bispo diocesano, mas também de familiares e amigos do Pe. Martins Júnior. 

Paralelamente, no adro, a festa prosseguiu com muita animação, não faltando os comes e bebes, habituais destas iniciativas.