Humano o nosso mundo? E esta epidemia?

D.R.

Um musical recente encenou a vida e palavra de Madre Teresa de que uma gota de bem e de amor no oceano faz a diferença. Todo o bem é sempre um ato de alguém e não apenas ajuda humanitária de milhares que pode não ajudar. Ajudas humanitárias sem amor, montagens colossais de alguns endinheirados a fazer mais uns negócios para aumentar a sua riqueza e os seus celeiros só para si mesmos (cf. Lc 12, 16-21).

A desumanidade que, hoje, afeta o mundo é comparável e até supera a doutras épocas desumanas. Fernano Rosa dizia há pouco que os anos 1917-1918 foram dos mais complicados pela crise da República e decisão suicidária de Portugal entrar na I Grande Guerra, males acrescidos da pneumónica a coincidir com a morte de Francisco Marto. Talvez esta situação responda à questão que me puseram recentemente: que razões para Nossa Senhora ter aparecido (mais) nos últimos tempos? Claro, só ela poderá responder; nós somos convidados a encontrar sentido para compreender. Segundo aquele historiador: é da “aflição de miséria, de guerra, de morte, de doença” que saem duas coisas: “O milagre de Fátima e o golpe de Sidónio Pais” (Ecclesia,10.07.2019).

E hoje, como vai o mundo? Talvez, também, em tempos dos piores da história. Pessoas são traficadas, para pedofilia e roubo de órgãos, aos milhares, diariamente; alguns são cada vez mais ricos porque vendem armas que matam, compram e vedem pessoas, lucram com o aborto, com as drogas. Lucram milhões em dinheiro sujo. Ameaçam e exploram milhares e milhares por essa África e Ásia. Obrigam milhões a fugir à morte e fecham-nos em campos de refugiados quase prisioneiros. Uns riquíssimos, cada vez mais os pobres e miseráveis. Para fugirem e serem transportados têm que pagar aos traficantes o que têm e o emprestado. Muitos fogem dos lobos para os tigres, dos que matam para os que decapitam e esfolam. Encurralados entre feras humanas, pagam ainda mais ou vendem-se para atravessar o Mediterrâneo de porto seguro ou de dilúvio de morte.

A milhares, é negado um porto de salvamento. Os mais afortunados encontram pastores dispostos a dar a vida para salvar alguns, milhares. E milhares morrem. Os voluntários da ajuda ainda são perseguidos por lobos ricos e poderosos. Contudo, tem meios abundantes para salvar da morte estes milhares de prófugos, náufragos e esfomeados. Observa, porém, impávido os comprados e vendidos como gado, que fogem à procura de ajuda e são deixados morrer no abismo das águas e de fome e sede nos desertos.

Poucos políticos, multimilionários, professores, universidades, bem-falantes de assembleias ilustres na Europa, na América e pelo mundo, levantam a voz! Alguns ainda alinham contra a  vida humana.

Uma epidemia mais grave que a pneumónica invade a humanidade, a da indiferença global de discursos vazios para esconder novos negócios de corrupção e lavagem de dinheiro. Em vez de salvarem a humanidade, alguns castigam os voluntários que arriscam a vida por essas ovelhas devoradas por lobos. Dizia um destes voluntários perseguidos que os netos desta geração pedirão contas pelos que deixa morrer. O Juiz final, porém, pedirá contas a todos os Cains pela morte dos seus irmãos (Gn 4). Se “os migrantes são …, hoje, o símbolo de todos os descartados da sociedade globalizada” (Papa Francisco 10.07.2019), os Vicentes Lambert são outro terrível sintoma duma das épocas mais desumanas, porque os homens pretendem ser deus. E “Deus é o único mestre da vida desde o começo até o fim natural e é nosso dever guardá-la sempre e não ceder à cultura do desperdício” (Francisco, 11,07,2019).

Felizmente no meio do joio cresce também o melhor trigo dos milhares que dão a vida por Cristo e por todos os seus pequeninos do Evangelho (Mt 25, 40). Nunca tantos deram a vida pelos seus irmãos e pelo seu Irmão Jesus Cristo! Num mar de indiferença dos corações duros. Qual será então o maior problema humano atual? Falta de meios, não. Diria que é cada pessoa que pode fazer alguma coisa boa, mesmo pequena para remediar algum mal, e não a faz.

O problema não são os que fazem atos pequeninos e fazem o que podem. O problema é de cada pessoa que não quer fazer o que pode. E isso nem Deus consegue remediar. «É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que o rico entrar no Reino de Deus» (Mt 19, 16-30). Deus ajuda, mas será sempre se a pessoa quiser. Quer dizer o maior problema é cada pessoa que diz não ao bem que pode fazer. Razão tinha a Madre Teresa: uma gota de bem que cada um faça, faz o mundo melhor e ela fez reduzindo o número dos abortos e das eutanásias em favor do oceano da vida humana.