As Nossas Senhoras de Leonardo da Vinci (III)

Leonardo da Vinci, A Virgem das Rochas, Louvre, Paris

A Virgem das Rochas

Eis, no vértice da vida e da carreira de Leonardo a sua Nossa Senhora, seguramente a mais celebre. É a Virgem das Rochas, conhecida em duas versões, uma no Louvre e outra na National Gallery de Londres. Paremos em frente à pintura do Louvre. Sabemos que Leonardo a pintou para uma capela da igreja milanesa de São Francisco Grande, destruída entre 1483 e 1490.

Leonardo imagina o seu sagrado diálogo a acontecer num ambiente rochoso, parte na sombra e outra parte revelada pela luz. Para lá dos buracos abertos nas rochas, encontramos uma paisagem infinita que se distancia e se multiplica em montanhas azuis e em longos lagos. Dentro, vemos Nossa senhora que, com uma mão sobre as suas costas, encosta a si o pequeno Jesus ajoelhado. À direita está São João Baptista menino, em ato de bênção e, atrás dele, um anjo que com o gesto da mão e com o indicador estendido indica o Menino que a Virgem acaricia, como a dizer que é ele o “Agnus Dei qui tollit peccata mundi”.

Diante desta Senhora, afetuosa e melancólica, como que prevendo o destino do filho, dentro desta gruta assombrosa, na qual ainda assim é possível perscrutar a infinita vizinhança das ervas e das flores entre as rochas, e a infinita distância das remotas montanhas e lagos, não se pode não concordar com aquilo que escreve Bernard Berenson em Pittori Fiorentini del Rinascimento (1896): «Leonardo é o único de quem se pode dizer, e em sentido absolutamente literal: não há nada que ele tivesse tocado que não se transformasse em beleza eterna».

 

Antonio Paolucci

In Avvenire, publicado em 03.05.2019

Trad.: António Estêvão Fernandes