Dia da Europa: “cristãos não são cidadãos de segunda” e têm direito de dar o seu contributo para manter valores

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal, D. Nuno Brás, diz que a Europa “nasceu Cristã” e foi sempre marcada pelo “ritmo e valores morais do Cristianismo”. Neste contexto, o prelado fez questão de referir que os “cristãos não são cidadãos de segunda”, pelo que têm de fazer ouvir a sua voz, sempre sem “impor o nosso pensamento a ninguém”, mas dando “o seu contributo para que se mantenham os valores comuns”.

D. Nuno Brás falava durante uma conferência sobre «O desafio de ser cristão, na Europa de hoje», que teve lugar esta terça-feira, dia 14 de maio, na Igreja do Colégio.

No decorrer desta iniciativa, promovida pela Plataforma de Movimentos «Juntos pela Europa», na Diocese do Funchal, para assinalar o Dia da Europa, o prelado falou da história da Europa, sublinhou que “Europa não coincide necessariamente com União Europeia” e que “a Europa é uma realidade maior”. Uma realidade que, entre outras características, tem sido marcada pela laicidade, “esta relação sempre difícil entre Igreja e Estado”, que “marca o pensamento europeu e a história da civilização europeia, que é também a história entre estas relações muito conturbadas entre a Igreja e o Estado”, que “não estão completamente resolvidas, nem nada que se pareça”.

“Hoje reconhecemos, e o concílio também nos convida a isso, uma diferença essencial entre Igreja e Estado”, mas também o “convite a uma intensa colaboração”, tendo sempre em conta “a liberdade religiosa e a liberdade e dignidade de todo o ser humano”. Claro que na Europa e na União Europeia “temos, ainda hoje, realidades muito diferentes”, mas “há uma certa convergência para aquilo que podemos chamar um modelo global europeu, em que temos por um lado a afirmação da liberdade religiosa como parte necessária da dignidade do ser humano, mas por outro lado uma colaboração sob múltiplas formas”. 

Neste contexto a Igreja não “deve se deixar funcionalizar do ponto de vista político”, mas antes ser “sinal da presença conciliadora de Deus”, tendo como ponto de partida a realidade de que, de facto, “o Estado não tem religião, mas a sociedade tem religião e esta dimensão religiosa é essencial à vida das pessoas”. 

É por isso que “quando nos disserem para nos calarmos, porque isso são coisas da religião, devemos responder que sim, mas que também Deus tem uma realidade a dizer e sobretudo que eu não sou cidadão de segunda e que tenho todo o direito de participar no pensamento, no debate e na construção de uma sociedade, onde todos possam ter o seu lugar e onde todos possam contribuir para o seu bem”. 

Por outras palavras, “não queremos impor nada a ninguém, sempre propomos, mas não nos obriguem a calar” e sobretudo a continuar a aceitar aquilo que tem acontecido e que “não podemos deixar”, ou seja que Deus continue a ser “expulso das realidades oficiais, das universidades, das escolas e das empresas”. 

Não queremos também que achem que a fé é uma coisa “para tolos”. Por isso mesmo, temos de “denunciar o aquilo que se opõe ao Evangelho, porque se se opõe ao Evangelho opõe-se ao ser humano”, fazendo uma verdadeira “apologética da fé” que é algo que “nos falta muito”. É preciso mostrar que “ser cristão é inteligente, é de quem pensa” e que “somos felizes como cristãos e que isso não nos retira nada do humano, pelo contrário”. 

Neste contexto, disse D. Nuno, não podemos “deixar de ter em conta o apelo do Papa Bento XVI de criar minorias criativas, quer dizer de grupos que assumam a responsabilidade de viver como cristão e de mostrar que são felizes, no meio das cidades dos homens, vivendo com outros olhos, é certo, e numa dimensão comunitária que é essencial à vida cristã”.

O prelado, que reconheceu “a crise moral e de valores da Europa contemporânea”, disse ainda que “é necessário uma realidade que seja capaz de ser fermento da própria vida política”. E isso faz-se “assumindo esta responsabilidade cristã também pela sociedade e pelo Estado e neste sentido, não podemos deixar de procurar políticos cristãos”. Quer dizer “o cristianismo torna-nos responsáveis também pela dimensão material e comunitária da vida humana”, o que significa “que a decisão maioritária nem sempre está correta” e que “o bem é uma realidade anterior à decisão da maioria”.

Depois da intervenção de D. Nuno, que fez ainda referências às eleições europeias que se realizam a 26 deste mês, seguiu-se um pequeno período de perguntas e respostas, numa iniciativa que contou ainda com a presença do Coro da Universidade Sénior do Funchal, dirigido pela Maestrina, Benvinda Carvalho.

A terminar de referir apenas que a plataforma «Juntos pela Europa» engloba, como se disse anteriormente, vários movimentos diocesanos nomeadamente as Equipas de Nossa Senhora, Folcolares, Oficinas de Oração, Renovamento Carismático, Schoenstatt e Verbum Dei e que o seu nascimento remonta ao Pentecostes de 1998.