As Nossas Senhoras de Leonardo da Vinci (II)

Leonardo da Vinci, Adoração dos magos, Uffizi, Florença

Adoração dos Magos

E eis a Adoração dos Magos dos Uffizi, a celebre “inacabada” na história da arte italiana. Era uma pala de altar encomendada a Leonardo pelos monges Agostinianos de São Donato, em Scopeti, no sul de Florença. Leonardo concebeu e pintou a inteira composição, distribuiu a luz e as sombras, desenhou até nos detalhes os episódios de fundo. A tábua esperava apenas a última aplicação de pintura, o que teria enterrado aquilo que hoje vemos. Mas, em 1482, Leonardo deixa Firenze e passa a residir em Milão, atraído sobretudo pelas oportunidades de trabalho e de sucesso que aquela grande cidade e, sobretudo, a potente e riquíssima corte dos Sforza lhe podiam oferecer. Em Milão Leonardo poderia cultivar, desenvolver e, ao menos em parte, realizar aqueles que eram os seus interesses prevalentes: a arquitetura, a engenharia estrutural e hidráulica, a mecânica e o estudo dos fenómenos naturais. E, desta forma, a Adoração dos Magos permaneceu inacabada.

Quem entra na Sala de Leonardo, nos Uffizi, terá a impressão de ter em frente uma pintura que é percorrida como que de uma descarga elétrica, tal é a intensidade expressiva, emocional e espiritual que a obra transmite. Leonardo imagina a Adoração como um remoinho de Homens, um tumulto de emoções e de paixões que se recolhem e se acalmam aos pés da Virgem que apresenta o seu Menino. Nossa Senhora é a coluna central da composição, é o fulcro à volta da qual a história dos Homens se compõe; uma história representada com uma serie de rostos intensos, como que esvaziados e iluminados pelo Espírito. À esquerda a figura de um velho homem, calvo e envolvido num manto, representa provavelmente Isaías, aquele que tinha profetizado, com a chegada do Messias de Israel, o tempo da paz estendida sobre toda a terra. Resta, e é a ideia formidável que habita a Adoração dos Uffizi, a imagem de Nossa Senhora que está no centro do tumulto da história, que o domina e acalma.

Antonio Paolucci 

In Avvenire, publicado em 03.05.2019

Trad.: António Estêvão Fernandes