As Nossas Senhoras de Leonardo da Vinci (I)

Da “Anunciação” à celebre “Virgem das Rochas”, às imagens com Santa Ana e o Menino Jesus, a Virgem Maria atravessa toda a vida do grande pintor de Florença, que morreu há 500 anos.

Leonardo da Vinci, "Annunciazione" | Firenze, Uffizi

Leonardo terá, talvez, vinte anos quando, para os monges de São Bartolomeu no Monte Oliveto, pinta a Anunciação, hoje em custódia nos Uffizi. É um jovem artista, no início da carreira, que se declara devedor em relação ao mestre Andrea del Verrocchio. Mas se nos detemos em frente do prado no qual plana o voo do anjo, damo-nos conta de que, diante dos nossos olhos, está uma natureza que é percorrida por uma vibrante energia.

Anunciação

Aquelas flores e aquelas ervas têm a vitalidade de plantas carnívoras. Aqui, nesta obra prematura, está já presente o Leonardo estudioso dos fenómenos naturais, atento a perceber e a dar forma ao respiro daquela grande máquina vivente, que é para ele o mundo. Na paisagem de fundo (uma perspetiva de montanhas, uma cidade, um golfo de mar), uma paisagem que diríamos feita de ar e luz, está já a antecipação daqueles que serão os fundos da Virgem das Rochas do Louvre.

Na Anunciação dos Uffizi, nesta jovial rapariga que recebe o anúncio inesperado e inefável, vive também uma profunda reflexão teológica. Os edifícios delineados em perspetiva nas costas da Virgem mostram uma serie de esquinas de pedra, recortadas e deslocadas, de modo a nos apresentar os ângulos importantes. É uma referência ao Salmo 118: «A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular». O momento da conceção anunciada pelo anjo é também o início da história da Salvação, prefigura o advento de Cristo Redentor.

 

Antonio Paolucci 

In Avvenire, publicado em 03.05.2019

Trad.: António Estêvão Fernandes