Quem eram os fariseus? E o que significa verdadeiramente este nome?

“Separados”, “clarificadores”, “explicadores”. Mas as interpretações não conseguiram resolver a questão sobre o verdadeiro significado do termo, a partir de hoje no centro de um Congresso na Gregoriana.

Achille Mazzotti, “Jesus entre os escribas e fariseus” (1844) | Roma, Accademia Nazionale di San Luca

Publicamos a conclusão da intervenção de Craig Morrison (Pontifício Instituto Bíblico) que hoje (07 maio) abriu o congresso “Jesus and the pharisees” (Jesus e os fariseus), com programa até quinta-feira na Universidade Gregoriana de Roma.

Ulrich Luz, no seu comentário Hermenia sobre o Evangelho de Mateus, escreve: «Escrever qualquer coisa sobre os fariseus hoje é bastante difícil, porque o estado da argumentação é extraordinariamente controverso. Os problemas começam já com o nome…». No entanto, não sabemos ao certo, nem o que esse termo significa nem se os fariseus o usavam para se referir a si mesmos. Vincent Taylor, no seu comentário sobre Marcos (1966), oferece uma explicação completa do significado, observando que «a derivação do nome é obscura» e sugere diferentes interpretações.

No The jewish annoted New Testament (O Novo Testamento comentado por estudiosos judeus), as notas de rodapé e outras anotações não fornecem comentários sobre a etimologia do nome fariseus, mas remetem o leitor para a discussão mais completa, presente nos ensaios da segunda parte do volume. No primeiro destes, Daniel R. Schwartz opta pelo significado etimológico “especificar” e Lawrence Schiffman, no segundo, prefere a etimologia “separatista”.

Uma segunda categoria de comentadores oferece uma breve observação sobre a etimologia do termo fariseus. François Bovon, no seu comentário sobre o Evangelho de Lucas, relega a questão do nome fariseu para uma nota de rodapé: «Os comentadores enfatizam prontamente a etimologia (embora incerta) da palavra ”fariseu”, que significa “alguém que se destaca”; “aquele que se separa”, “aquele que se retira a si mesmo”».

James Dunn no seu artigo Paulo e a Torá escreve que a caracteristica “separados” é a que mais define os fariseus. John Kilgallen, no seu As vinte Parábolas de Jesus no Evangelho de Lucas (2008), escreve: «Fariseu significa aquele que é “separado”; fundamentalmente, aquilo que separa o fariseu é o pecado, ou a desobediência à Lei de Moisés e às suas qualificadas tradições posteriores».

Joseph Fitzmyer acredita que «O nome grego pharisaioi é provavelmente uma transcrição do aramaico perišayê, “separado”, indubitavelmente usado, em relação à categoria, por outros que diferiam deles. Poderá ter significado um certo distanciamento e o evitar relacionar-se com outros judeus menos observantes da Torá».

Estas interpretações fazem colapsar uma etimologia menos certa da palavra fariseu – no caráter literário “fariseu” dos Evangelhos. O significado etimológico “destacado” dificilmente é positivo e não reconhece a obscuridade desta palavra. Leon Morris, no seu comentário sobre o Evangelho de Mateus (1992), escreve: «Os fariseus eram um grupo religioso que amava o facto de o seu nome derivar de uma palavra que significa “separado”. O resultado foi que os fariseus se autoconsideravam um degrau acima das outras pessoas».

Alguns comentaristas assumem simplesmente o significado “separatista” com o sentido de “destacado”, como é evidente na interpretação das três histórias de conflito em Marcos 2,1-17, do comentário de Mateos e Camacho sobre o Evangelho de Marcos. Os autores afirmam que Jesus criava uma comunidade universal e que os fariseus a rejeitaram porque destruía a sua exclusividade e apagava os seus privilégios.

No monumental Anchor Bible commentary, de Raymond Brown, sobre João 1-12 (1966), não há em parte alguma a etimologia do termo fariseu. Brown, que estudou semítico com Albright na John Hopkins, conhecia certamente os significados hebraicos e aramaicos do termo fariseu. Numa nota explicativa, em João 1, 24, onde a palavra fariseu aparece pela primeira vez, não é dada qualquer etimologia. Esperávamos, por último, uma observação etimológica em João 3.1: “Ora, havia um fariseu chamado Nicodemos”, mas não nos é fornecida nenhuma. Nos quatro comentários evangélicos do texto New interpreter’s Bible de Pheme Perkins, Gail R. O’Day, R. Alan Culpepper, e E. Eugene Boring, nenhuma etimologia é indicada para fariseu. E esta parece ter sido uma decisão editorial.

Então, o que é que existe num nome? A resposta é nada, como Giulietta já sabia há quatro séculos. Os argumentos etimológicos ignoram a falácia etimológica e produzem uma variedade de escolhas: “separados”, “clarificadores”, “explicadores”, “dissidentes” e assim por diante. Nos dicionários do século XX, os estudiosos reconheceram gradualmente que o significado etimológico de fariseu é, na melhor das hipóteses, incerto e que o léxico apropriado para o aramaico parisha é “fariseu” sem mais comentários.

Embora o nome fariseu tivesse um significado lexical original, hoje esse significado perdeu-se. Mesmo a interpretação “separado” coloca a questão “separado do quê ou de quem?”. Os estudiosos que criam entradas de dicionários bíblicos para “fariseu” deverão ser particularmente sensíveis a esta questão, uma vez que uma ampla gama de leitores consulta esses recursos como referência exata. Breves considerações sobre o significado etimológico do termo fariseu, com a aceção de “separado” deverão ser evitadas, porque podem levar os leitores cristãos a uma descrição fantasiosa da “separação farisaica”.

Na literatura atual há uma clara tendência a abandonar completamente o argumento etimológico, e considerar simplesmente o uso do termo em textos e gêneros específicos, por diferentes autores. A abordagem coincide com a tendência da lexicografia aramaica de examinar particulares corpora de obras antigas, como os recentes dicionários aramaicos de Michael Sokoloff. Assim, podemos chegar a uma descrição do termo “fariseus” na literatura do Novo Testamento, na literatura Tanaítica (Canon Hebraico) e mais tarde na literatura rabínica, e essas descrições podem diferir significativamente umas das outras.

Joseph Sievers ensinou-nos que hoje sabemos menos dos fariseus do que sabíamos há 50 anos. Mas é uma luta para descartar as velhas formas de pensar – o atual “subsidio descritivo” do nome fariseu. Talvez possamos imitar Giulietta, que lutou para derrotar os seus preconceitos sobre o seu amado, apelidado de “Montague-Montecchi”. Ela teve a noção certa.

 

Craig Morrison (Pontifício Instituto Bíblico) 

In Avvenire, publicado em 07.05.2019

Trad.: António Estêvão Fernandes