Abrir a casa para receber o Espírito Santo é tradição na Madeira e Porto Santo

Foto: Duarte Gomes

Vai o padre de casa em casa e com ele uma pequena comitiva. À frente, dois homens com bandeiras vermelhas. Depois, as saloias a atirar pétalas de rosa e a cantar: “Aqui chega uma visita, que já não vinha há tanto, recebei com alegria o divino Espírito Santo.” São acompanhadas por músicos a tocar instrumentos tradicionais e por um outro elemento que segura a água benta. Por fim, o padre e o festeiro, ou um substituto, que vai recolhendo as ofertas.

Em nenhuma outra altura, talvez com excepção do Natal, se limpam tanto as casas. Há quem passe a semana a lavar, aspirar, a varrer, a lavar, a esfregar. No sábado, ainda fazem o pão com batata-doce, o bolo de família e outras iguarias para pôr na mesa da sala, que ninguém há-de tocar até chegar “a divina visita”.

Em cada casa o grupo demora-se o suficiente para o sacerdote benzer o lar e rezar com a família, para as saloias cantarem mais umas quadras som do machete, do acordeão e para se provarem as iguarias que atraiem também familiares e amigos dos donos da casa.

São assim as tradicionais Visitas do Espírito Santo, que nalgumas localidades começam no próprio domingo de Páscoa logo após a Missa, e que ainda se mantêm na Madeira e no Porto Santo.

Noutras zonas, porém, o crescimento populacional e a alteração da tipologia das próprias habitações – as casas deram lugar a blocos de apartamentos – ditaram algumas alterações. Nalguns locais, para que as visitas estejam concluídas até Festa do Pentecostes, que encerra o ciclo pascal católico, foi necessário criar vários grupos, que visitam os vários sítios da paróquia seguindo um calendário previamente estipulado e que inclui ainda visita aos barcos, em localidades piscatórias, e aos estabelecimentos comerciais.

Claro que o sacerdote não pode acompanhar todos eles. A solução é ir alternando os sítios ano após ano, de modo a contentar todos os paroquianos, que gostam sempre de receber o pároco nas suas casas.

As visitas terminam, como já se disse, com a grande festa em dia de Pentecostes, este ano a 9 de junho, nalgumas zonas com as charolas de produtos da terra que serão depois leiloadas, revertendo os fundos para apoio a várias causas, noutras com o bodo ou copa aos pobres.