Vive e testemunha o amor

D.R.

No Evangelho de São João lemos o pedido que os Helenos, em Jerusalém, na peregrinação pascal, fizeram ao apóstolo Filipe: “Queremos ver Jesus” (Jo 12, 21). Esse mesmo pedido podemos ouvi-lo neste nosso tempo de caos e abismo, em que o homem tenta viver, mas à deriva, e sem norte, sufocado por coisas materiais em demasia ou desesperado sem aquelas coisas que lhe seriam úteis e necessárias.

 A lei fundamental de que os bens terrenos são de todos os homens, é na prática, tão desigual que provoca um fosso entre uns e outros. Uns com a gamela cheia, a transbordar e outros morrendo famintos, com apenas esqueletos, como vemos frequentemente em revistas terceiro-mundistas, em revistas missionárias, por exemplo. Os missionários/as ainda são os que dão a mão – uma mão de pobres, sim, mas amiga – a estes irmãos carenciados. Os jornais diários apresentam de preferência, caras bonitas, barriguinhas fofas, pernas elegantes, tudo em jeito de sedução. Tudo ‘fitness’, tudo ‘glamour’. Tudo luxo. 

Quando há uma desgraça, uma calamidade, milhares de mortos num genocídio em que se persegue ou destrói uma minoria étnica ou uma religião, um apontamento de notícia chega ou até ‘se cala’ totalmente. É que incomoda. Não fica bem. Causa stress e depressão. É ‘negativo’. É uma realidade que custa digerir. É preciso deixar as pessoas em paz. Até pode haver palavras bonitas mas que não enchem os estômagos vazios. 

O ocidente esqueceu isso. Mas está na corda bamba, se não arrepiar caminho. Podemos ser nós os pobres de amanhã e dominados por outros que eram/foram nossos inimigos ou que desprezámos. Nunca esqueçamos que “o Evangelho é fermento de liberdade e progresso, fonte de fraternidade, humildade e paz” (Ad Gentes, 8). A Igreja “é em Cristo como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (Lumen Gentium, 1). A Igreja está chamada a ser a Igreja dos pobres. E é-o enquanto é a maior organização mundial de assistência e ajuda em casos de crises económicas muitas derivadas das grandes catástrofes: tsunamis, inundações, ciclones, tufões, terramotos, rios caudalosos que levam povoações inteiras na sua frente, ou barragens desmoronadas que levam na sua frente aldeias inteiras com centenas ou milhares de mortos. Mas vivemos também uma onda de exploração humana que é feroz.

A comunhão eclesial e partilha nasce do encontro com o Filho de Deus. “Ele nos revela que «Deus é amor» (1 Jo 4,8) e nos ensina ao mesmo tempo que a lei fundamental da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor. Dá, assim, aos que acreditam no amor de Deus, a certeza de que o caminho do amor está aberto para todos e que o esforço por estabelecer a universal fraternidade não é vão” (Gaudium et Spes, 38). 

Na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis escrevi, diz Bento XVI: “Aquilo de que o mundo tem necessidade é do amor de Deus, é de acreditar em Cristo” (n 84). E convida-nos a assumir o compromisso de anunciar o Evangelho e de apoiar os pobres em gestos de amor e partilha.

No início da Quaresma, o Papa Francisco deixou bem claro que “muitos cristãos, mesmo católicos, e que se dizem católicos praticantes, exploram as pessoas! Exploram os operários! E Muitos deles vão à missa ao domingo… mas agem assim… E numa audiência exclamou:” “Quantas mães e quantos pais, muitas vezes vão dormir com o tormento de não ter pão para seus filhos, no dia seguinte!”

E, como o apóstolo João: Quem não ama seu irmão, sua irmã, não pode amar a Deus. Quem diz “amar o seu irmão, mas na verdade não o ama, o odeia, é um mentiroso.” Os bens são de todos, insiste frequentemente o Papa Francisco. 

Até quando a grande miséria de muitos pobres contrastará com a grande riqueza de poucos ricos? Vive e sê testemunha do amor a Deus e ao próximo.