Quaresma: em jeito de Via Sacra de «Jesus e a gente»

Via Crucis, IV estação, Jesus encontra sua Mãe | Gaetano Previati | 1901-1902 | óleo sobre tela, 121 x 107 cm | Coleção de Arte Contemporânea | Musei Vaticani | Vaticano

Fazer a Via Sacra não é apenas chorar os sofrimentos de Cristo a caminho do calvário, mas, carregar com os sofrimentos de milhões de nossos irmãos cristãos da “casa comum” que são perseguidos, torturados e assassinados. De cristãos e não cristãos. Percorri os passos de Jesus na Via Sacra em Jerusalém, por duas dezenas de vezes acompanhando grupos de peregrinos. Senti a dureza do sofrimento de Jesus na via dolorosa. Mas, visitando as grandes cidades do mundo com suas periferias, e países em guerra ou em miséria, senti os gritos do povo, da gente. E a Via Sacra passou a ser diferente. Com Jesus e com a gente que é o rosto de Jesus. D. Nuno Brás, bispo do Funchal, presidiu à Via Sacra Jovem e disse: “o cristão deve ser como um atleta e estar em constante preparação para melhorar o tempo da caminhada seguinte”. É assim mesmo. Caminhar sempre, sobretudo com os que sofrem. Homens e mulheres.

1.Jesus é condenado à morte. Há multidões de condenados por mãos cheias de ódio e violência: homens, mulheres e crianças vítimas de guerras fratricidas e atos terroristas. Há inocentes presos pela injustiça ou condenados por fazerem bem como os missionários e missionárias.

2. Jesus carrega a cruz. Carrega as cruzes de todos os homens e mulheres. As cruzes da indiferença, do ódio, do egoísmo, da inveja, do orgulho, da mentira, da exploração dos mais pobres, dos mais frágeis, dos indefesos, do abuso do poder. Tantas cruzes que envenenam vidas.

3.Jesus cai pela primeira vez. Está cansado e enfraquecido, ferido pela flagelação, pela coroa de espinhos, pelas chicotadas, pelos empurrões. Hoje caímos pelas tentações e seduções para o mal. Pelas injúrias, pelas calúnias, pelos falsos testemunhos, pela maledicência, pelas cruzes com que sobrecarregamos injustamente os outros no abandono, na morte lenta que lhes impomos.

4. O encontro de Jesus com sua Mãe. Sofrendo com o Seu Filho, corredentora da humanidade, representada aos pés da cruz pelas duas Marias e por João, que ouve aquelas maravilhosas palavras: “Eis a tua mãe”! Maria acolheu o Espírito Santo e acolhe-nos a todos nós que, por desleixo, não invocamos o Espírito, nem rezamos pois somos fracos e pecadores.

5.Simão Cireneu leva a cruz. Jesus já não podia mais. Deus quer precisar de nós. ”Carregai os fardos uns dos outros”. Precisa de nós para ajudar os que estão doentes, em casa ou nos hospitais, os prisioneiros, os que sofrem a solidão, os milhões de famintos, as comunidades paroquiais

6. A verónica, uma mulher do povo, mas sensível à dor, limpa o rosto de Jesus. Sem medo, tem coragem e arrisca. Hoje há mulheres extraordinárias como as missionárias que, nos cuidados de saúde, limpam o rosto e as feridas dos mais pobres, das crianças, dos idosos e doentes. E há mães que são a alegria do marido e dos filhos. Mas, não sabemos ver o rosto desfigurado nos irmãos, perdoar e desculpar.

7. Jesus de novo está por terra. Mas “era preciso fazer a vontade do Pai” que nos dá o pão de cada dia e nos perdoa se nós perdoarmos. Somos pecadores, somos maus, não perdoamos, não construímos o Reino, tecemos conflitos, destruimos  o ambiente, poluímos os  oceanos, … Não fazemos da Igreja um reino de amor, justiça e paz.

8. “Chorai por vós e pelos vossos filhos”. Um grupo de mulheres seguem Jesus a chorar. Merecem o olhar de Jesus. Hoje ouvimos os gritos de tantas mulheres que carregam pesadas cruzes na violência, no tráfico, em salários de miséria, em abusos sexuais, embora muitas tenham coração de ouro a cuidar dos doentes e sendo a harmonia e expressão do amor e carinho no universo.

9.Uma terceira queda. Foi inevitável. A vida é cheia de provações e de apelos. É difícil comer e beber à mesa de Jesus. O diabo procura “joeirar-nos como o trigo”, disse Ele a Pedro, que foi convidado a, “uma vez convertido, fortalecer os irmãos”. Temos medo de viver uma vida como Jesus ensinou. De darmos testemunho sabendo escutar, partilhar os problemas dos outros, ser solidários.

10.Chegados ao calvário, e entre risos de escárnio, tiraram brutalmente as vestes a Jesus. Ficamos escandalizados. E não nos escandalizamos com tantas violências que nos acostumamos a ver: a profanação dos corpos, a matança de inocentes, os genocídios, os mortos nos lares, na rua, nos conflitos, nas igrejas ou mesquitas, vítimas de terroristas ou de fundamentalistas. Uma onda de morte.

11.Jesus é crucificado no meio de malfeitores. Mas com uma súplica de perdão: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Foi perseguido, acusado, condenado, insultado, renegado. Inocente, mas crucificado. Hoje, como um dos malfeitores a seu lado, muitos não te querem. Outros como o outro malfeitor que suplica “lembra-te de mim”, bradam aos céus, mas alijando as cruzes da sua vida, envolvidos no consumismo e na mundanidade. 

12. Jesus morre. Rejeitado pelos homens, oferece-se ao Pai em favor da humanidade, “nas Tuas mãos”. Tudo consumado, “expirou”. A Terra tremeu. O centurião pagão faz um ato de fé. Derramou seu sangue por todos. Alguns dão a vida pelos irmãos, mas outros apostam em construir o reino de Satanás.

13. Pilatos deu o corpo de Jesus a José de Arimateia, que esperava o Reino de Deus. O corpo descido da cruz foi detido nos braços de Sua Mãe. Há tanta gente infeliz, desesperada, perdida, magoada, surpreendida por calamidades, desprezada, a precisar de um carinho.

14. Jesus é sepultado. José de Arimateia envolveu o corpo de Jesus num lençol e colocou-o num túmulo novo escavado na rocha. Duas Marias, Madalena e outra, desanimadas junto do sepulcro. Quantos irmãos nossos sepultados nas águas do mar, na lama dos desastres naturais, dos ciclones, dos tufões, dos tsunamis, nos incêndios devastadores, nos terramotos, nos “mediterrâneos”! E muitas Marias com olhos vermelhos de tanto chorar!

15. Ressurreição de Jesus. A mensagem correu célere: “Ide depressa, e dizei aos discípulos que Ele ressuscitou dos mortos”. “Não temais!” As mulheres são as mensageiras da Ressurreição de Jesus. Mas que alegria enorme: Jesus ressuscitou. “Não está aqui!” Uma vida nova. Nova criação. Não mais mortos, mas ressuscitados com Ele.

Brilhe nos nossos olhos a alegria da Páscoa numa vida mais comprometida com o Evangelho, em comunhão fraterna, em colaboração com todas as pessoas, povos e culturas aos quais somos enviados. A sua Igreja é a Igreja dos pobres, dos “pequeninos”. Vejamos em todas as pessoas o rosto de Jesus. Aleluia!