Marrocos: Papa Francisco «peregrino de paz e fraternidade»

O Papa Francisco e o Rei de Marrocos, Mohammed VI assinam um apelo conjunto sobre Jerusalém "cidade santa e lugar de encontro" | Rabat, Marrocos 30.03.2019 | Foto: Vatican Media

Dignidade do ser humano com direitos inalienáveis, liberdade religiosa e de consciência, unir forças contra o fanatismo e fundamentalismo religioso, ecumenismo da caridade, diálogo, respeito para com os migrantes, desafio a uma Igreja que privilegie os pobres e os rejeitados, ousar ver os outros como irmãos,… Estes foram temas e apelos que Francisco deixou num país com 99% de muçulmanos e cerca de 25 mil católicos, ou seja, 0,07% da população.

Nesta visita dominou o tema e o exercício da fraternidade, do diálogo inter-religioso, que já vinha da visita aos Emirados Árabes Unidos, no Congresso da Fraternidade. Estes são fatos positivos em países onde domina o Islão, mas numa linha de uma certa tolerância.

Todas as mensagens são belas, mas a realidade da perseguição contra os cristãos em alguns países é deveras sufocante e, esquecida ou escondida pelos mídia que até a desvirtuam com termos de ‘confrontos’, quando se trata de autênticos ‘genocídios’. O Estatuto da Roma Tribunal Penal Internacional qualifica como genocídio “os atos cometidos com a intenção de destruir, em todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso como tal”. O Christian Post publicou em 3 de julho de 2018 que 6.000 cristãos, a maioria mulheres e crianças, foram mortos desde janeiro por radicais islâmicos. Mais de 900 igrejas cristãs foram destruídas por terroristas do Boko Haram, na campanha violenta do grupo radical islâmico para expulsar todos os cristãos da região, segundo infomações da Associação Cristã da Nigéria (‘CAN’). A «“carnificina” que está sendo promovida contra os cristãos começou em 2009, e continua em pleno vigor, como noticiou ontem JMnotícia.

 A maioria da mídia ocidental não está informando sobre estes e outros genocídios de cristõs. Na França há igrejas vandalizadas e a imprensa e políticos se calam. Porquê?

Por outro lado, em Christchurch, na Nova Zelândia, um ataque terrorista fez 50 mortos  em duas mesquitas; foi notícia na Austrália, Londres, Paris, Rio de Janeiro,…

Ainda não descortinámos bem as razões do silêncio e do tratamento diferente. A liberdade religiosa é um direito que todos os países têm obrigação de proteger. O Papa Francisco  convidou os católicos, nas redes sociais, a rezarem pelos “mártires” da atualidade, como sua intenção de oração para o mês de março último.

“Talvez seja difícil de acreditar, mas hoje há mais mártires do que nos primeiros séculos”, refere Francisco. “Isso acontece especialmente onde a liberdade religiosa ainda não está garantida, mas também em países onde, em teoria e nas leis, se tutela a liberdade e os direitos humanos”, advertiu.

Numa mensagem, enviada do Vaticano ao povo de Marrocos o Papa anunciara-se como “peregrino de paz e fraternidade”. Após a sua chegada, na esplanada da Torre Hassan, falou perante representantes da sociedade civil, das autoridades políticas e do corpo diplomático.

Pediu para que católicos e muçulmanos unam forças contra o fundamentalismo religioso, respeitando a liberdade e os direitos de todos os cidadãos.

Afirmou “a solidariedade de todos os crentes, tendo como preciosas referências das nossas ações os valores que nos são comuns”. E o soberano marroquino sustentou que “o que todos os terroristas têm em comum não é religião, mas a ignorância da religião”, assinalando que esta é “paz” e “amor”.

Apresentou Marrocos como “ponte natural entre a África e a Europa”.

Criticou discursos que promovem a “construção de barreiras” ou a “propagação do medo”, considerando que Marrocos representa “um exemplo de humanidade para os migrantes e os refugiados”.

Francisco e Mohammed VI sublinharam o “caráter específico e multirreligioso” de Jerusalém, e assinaram um apelo conjunto sobre o estatuto de Jerusalém, com a sua “particular vocação” de cidade de paz para judeus, cristãos e muçulmanos.

Aos sacerdotes, religiosos e religiosas, disse que a sua ação não se mede por números, mas pela capacidade de diálogo. “Que a vossa caridade se faça sempre ativa, tornando-se assim uma via de comunhão entre os cristãos de todas as confissões presentes em Marrocos: o ecumenismo da caridade.

Visitou o Centro de Serviços Sociais em Témara, onde cumprimentou as mães das 29 crianças doentes ali atendidas. O centro é administrado por religiosas Filhas da Caridade. As vicentinas espanholas e voluntários ajudam famílias muçulmanas, há 40 anos, oferecendo alfabetização de adultos, apoio escolar aos mais jovens, refeitório, pré-escolar, apoio psicológico e cuidados médicos. 

Encerrou a sua visita a Marrocos com a celebração da Missa para a comunidade católica perante milhares de pessoas reunidas no complexo desportivo ‘Principe Moulay Abdellah’. Deixou-lhes uma mensagem contra o ódio e a violência, que só conseguem “a divisão e a vingança, matar a alma da nossa gente, destruir e fazer desaparecer tudo o que amamos”.

Encorajou-os a perseverar no caminho do diálogo, com os nossos irmãos e irmãs muçulmanos, colaborando também para que se torne visível aquela fraternidade universal que tem a sua fonte em Deus.