Ruanda: Livre para amar

Por Paulo Aido

No Ruanda, a Irmã Cécire luta contra a memória dos tempos do massacre

Tem 49 anos e lembra-se perfeitamente dos tempos em que o Ruanda se transformou num matadouro. Em 1994, um milhão de pessoas foram assassinadas. Foram hútus contra tutsis. Um massacre. Num país onde a memória dos mortos ainda alimenta vinganças, um grupo de mulheres consagradas a Deus procura ajudar os mais débeis, os mais idosos. Os mais desprotegidos. Todos os dias a Irmã Cécire prova que o amor é mais forte do que o ódio…

Foram apenas 100 dias. Em 1994, grupos de homens armados, pertencentes à etnia hutu, mataram membros da minoria tutsi. Provavelmente nunca se saberá o número exacto dos que morreram. Estima-se que entre 800 mil a 1 milhão de pessoas tenham sido assassinadas. Foram 100 dias que enlutaram o país. Fala-se em massacre, em genocídio. Houve famílias destroçadas. Mulheres violadas em frente aos maridos antes de serem assassinados. Filhos mortos, um a um, perante o olhar impotente e aturdido dos pais. Houve de tudo. No Ruanda há 1 milhão de razões para quem ainda transporte algum ódio no olhar, para quem ainda não tenha conseguido sossegar a sua vontade de vingança. Mas no Ruanda há também quem procure todos os dias levar gestos de amor onde parece só haver espaço para o ódio. A irmã Cecília tem 49 anos e desde muito jovem que sonhava com uma vida dedicada aos outros. Até que descobriu a Congregação das Irmãs Palotinas. A sua vida mudou nesse dia. “Deus escolheu-me para fazer este trabalho”, afirma com toda a simplicidade. Cecília, juntamente com mais sete irmãs, trabalha num centro de saúde, num jardim-de-infância e em escolas. E todos os dias consegue ainda arranjar tempo para visitar algumas pessoas em suas casas. São órfãos, idosos, pessoas abandonadas. Pessoas que vivem ainda em famílias destruídas pela onda de violência que varreu o Uganda há pouco mais de duas décadas. São pessoas que a sociedade continua a ignorar, que ninguém vê, que ninguém escuta. Muitos são idosos. Todas as pessoas abandonadas que a Irmã Cécire visita são consequência ainda dos dias de terror. A insensibilidade à dor do outro continua a fazer vítimas no Ruanda.  

Amor e perdão

“Toda a gente perdeu alguém”, diz a Irmã Cécire. “Perdemos muito e isso afecta-nos até hoje. Há muitos órfãos, muitos idosos abandonados, muitas famílias destruídas, é por isso que temos de espalhar o amor de Deus.” Cécire, a Irmã Cécire tem um sorriso desarmante. Todos os dias ela vai a casa de algumas pessoas mais fragilizadas. Normalmente são idosos. Normalmente estão sós, abandonados. Se não fossem as irmãs, ninguém trataria deles. “Às vezes nem têm nada para comer”, explica, procurando traduzir numa simples frase a dimensão trágica que se esconde em cada uma das casas que as irmãs visitam. São pessoas abandonadas. A solidariedade tem de ser construída. É preciso varrer barreiras de ódio, de incompreensão. É preciso trazer o outro para dentro da nossa casa. Partilhar, ajudar, sorrir. Estender a mão. Não é fácil o trabalho destas Irmãs Palotinas num país em que a desconfiança sobre o outro ainda está tão presente. A Irmã Cécire sabe que, sozinha, não consegue mudar o mundo. Mas não desiste. “O amor de Deus inunda-me e transborda. Sinto-me livre para amar toda a gente. A minha família é maior do que os laços de sangue. A minha família é toda a minha aldeia”, acrescenta. Num país onde a memória dos mortos ainda alimenta vinganças, um grupo de mulheres consagradas a Deus procura ajudar os mais débeis, os mais idosos. Os mais desprotegidos. Todos os dias a Irmã Cécire prova que o amor é mais forte do que o ódio…