Vítimas, Verdade e um jardim

D.R.

Vem aí a Páscoa da Ressurreição centrada numa Vítima. A ocultação de vítimas não humaniza; a sociedade adoece mais. Com as vítimas dão-se a conhecer e convidam-se ao arrependimento os agressores, os corruptos e os pecadores. É fenómeno significativo atualmente na Igreja ocultar menos para reduzir os escândalos. Embora doloroso é mais humano revelar os abusadores quando é para bem das vítimas e deles. Não convém contudo ter ilusões porque se observa apenas a ponta do iceberg do fenómeno.

O tempo da Páscoa cristã é de memória da Vítima suprema, a mais conhecida de todos os tempos, e a mais negada e ocultada. O mesmo Jesus pediu para ser celebrada a sua memória de vítima in perpetuum, para bem dos pecadores. E assim tem acontecido, apesar de todos os esforços de apagar o seu nome e de se falar agora, incorretamente, de época pós-cristã.

Há vários modos de esquecer e de negar memória às vítimas. A discriminação é uma das principais. Apregoa-se a imparcialidade e objetividade histórica e jornalística, mas infelizmente não faltam exceções. Ser vítima na Europa é mais que ser vítima na África. Há vítimas que são mais vítimas; vítimas negadas e vítimas de ribalta, tal como agressores ocultados e agressores proclamados. As vítimas de ídolos não existem porque eles não podem(?) ser agressores. As vítimas dos ídolos do poder, do dinheiro, da moda e das artes são ocultadas; doutro modo os seus abusadores seriam agressores; e os seus admiradores (adoradores?) não o toleram.

O Michael Jackson, o pedófilo do filme Neverland, não parece o mesmo dos palcos da arte e da ilusão coletiva; nem o das parangonas dos tabloides. Por isso não faltaram meios de informação e de investigação jornalística arrastados para o negacionismo de tantas loucuras. Os mecanismos de defesa psicológicos, a negação e racionalização interpretativas destinam-se a afastar os incómodos e sofrimentos pessoais. As vítimas podem ficar presas a laços emocionais de dependência dos agressores idolatrizados segundo o efeito Estocolmo. Negam durante muitos anos que foram abusadas para não sofrer mais. Os observadores de abusos e factos reais conexos negam e ocultam as vítimas por ideologia política, religiosa e facciosa. Quando a liberdade dos diversos protagonistas está ferida; bloqueado o remédio: «a verdade vos fará livres” (Jo 8, 32), a doença e o pecado da mentira ficam a corroer. Impressiona que isso tenha acontecido, por exemplo, com as vítimas do ídolo de Neverland e com as do ‘M’ de Yoland Zaubermann ou com as da pedofilia na Igreja.

Vítimas, agressores, espetadores e cronistas entram em negação, mas as motivações diferem. E ficam as questões: será doença, pecado, possessão diabólica do pai da mentira, ideologização alienante? Será falta de imparcialidade jornalística, histórica, sujeição e subjugação a pessoas de autoridade política e religiosa? E ainda, porquê, tolerar menos o negacionismo de vítimas do holocausto que o das vítimas estalinistas e maoístas? Porquê, tolerar menos a ocultação de vítimas e agressores de pedofilia na Igreja Católica que noutras Igrejas e religiões; menos nos bispos, pastores, rabinos, que em ídolos das artes e modas?

Quando os agressores são admirados, idolatrados, negam-se as vítimas deles e branqueiam-se os seus abusos. Como explicar a maior vitimização de animais que a de crianças, suprimidas antes ou ao nascer?

A memória da «Vítima Pascal» arrasta a dos meninos assassinados em Belém, do «divino» refugiado do Egito, a de João Batista, dos galileus degolados no templo; e ainda a negação das vítimas de Barrabás que transforma Jesus Cristo em agressor, criminoso e escravo.

A aproximação da Páscoa estimula a refletir nas semelhanças entre o Natal e a Paixão. Ali um Menino em carne, vivo, sobre palha, em gruta de pedra aberta e iluminada por anjos a cantar com Maria e José, pastores e Magos, à volta. Na Páscoa, uma sepultura da vítima da Cruz, aberta na rocha, vazia, um clarão, anjos a falar às mulheres, a Pedro e João, à volta, a procurar o corpo da vítima. Ali, «vereis um menino»; aqui, «viram o túmulo vazio» e um jardineiro. Aquele site http://www.educris.com/v2/tv/aprende-com-a-biblia/2199-jardim-da-ressurreicao apresentava ideia luminosa: porque não, ali, o presépio e, aqui, «um jardim de ressurreição»? Três cruzes, duas de pecadores (um arrependido), na elevação do jardim sobre a gruta, de túmulo vazio e pedra rolada, aberto. Porque não, esta cena pascal nas igrejas e nas praças? «Gloria in excelsis Deo»; «Ressuscitou, não está aqui!». Que a Vítima cure as vítimas e os doentes; que os agressores/pecadores se arrependam; e que o remédio da Verdade seja aplicado e liberte a todos para a ressurreição!