Ciclone Idai: renascer no «corredor da morte»

Foto: Yasuyoshi Chiba

1.Moçambique deu por encerradas as buscas após o ciclone IDAÍ que ensombrou o ‘corredor da morte’, da Beira até ao Zimbábwe e Malawi. Merecem um louvor as equipas sul-africanas que foram as primeiras a chegar ao terreno para ajudar nas operações de resgate.

Agora continuam a ser prioridades: garantir água potável, saneamento e higiene e melhorar a segurança alimentar a médio prazo, quer dizer, durante os próximos meses, e assistência médica.

O número de mortos provocados pelo ciclone Idai e as cheias que se seguiram subiu para 501, em (29.03). Mas, como disse o Presidente, Filipe Nyusi, o ciclone pode ter provocado mais de mil mortos. O porta-voz do Intituto Nacional de Gestão de Emergências, Paulo Tomás, disse no dia 26, “já não haver muitas pessoas isoladas”. O governador da província de Manica, afetada pelo desastre natural, Manuel Alberto, admitiu também que “começa a ser difícil acreditar que ainda há sobreviventes”. 

O PMA estima que pelo menos 400 mil pessoas necessitam de ajuda alimentar urgente em zonas inundadas nas bacias dos rios Pungoe e Buzi, assim como na cidade de Beira.

O ciclone Idai devastou cidades e aldeias inteiras durante sua passagem afetando pelo menos 2,8 milhões de pessoas. Em Moçambique, poderá ter atingido 1,7 milhões.

A ONU qualificou a tragédia como uma emergência de nível 3, categoria que atualmente só é usada para classificar as crises humanitárias na Síria e no Iémen.

2. Moçambique, Zimbábwe e Malawi são três países arrancados pela raiz.

As tarefas dos organismos nacionais e internacionais ocupam-se neste momento na distribuição de comida e em evitar doenças graves que costumam surgir em cenários de água parada, como a cólera e a malária.

Uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) que visitou Moçambique, anunciou que “ainda é cedo para avaliar os efeitos macroeconómicos do ciclone, mas os custos de reconstrução serão muito significativos”.

A ONU pediu, no dia 25, US$ 282 milhões para financiar durante os próximos três meses a ajuda a Moçambique.

O porta-voz do PMA em Genebra, Herve Verhoosel, calculou que no Zimbábue é necessária uma ajuda adicional no valor de US$ 5 milhões para financiar assistência alimentar à população mais afetada, enquanto o Malawi necessitará de US$ 10,3 milhões. 

3. Os serviços de socorro têm dificuldade de chegar às áreas devastadas pelo ciclone e há preocupação com o risco de epidemias.

O missionário e cirurgião Aldo Marchesini, disse que espera “complicações” de saúde na população, após as inundações e destruição provocadas pelo ciclone. “É o tempo da malária; depois haverá cólera com muita facilidade; depois doenças respiratórias, especialmente nas crianças”.

E alerta para outro “problema muito grave”, a fome, com milhares de pessoas desalojadas, “arrumadas na rua”, que irão para tendas.

“É um desastre impressionante. Um desastre como nunca houve igual em Moçambique”, observa o missionário italiano que viajou um dia depois da passagem do Idai para tratamento de sua saúde, em Itália.

Os números foram divulgados no dia 27 pelo Unicef, que pediu US$ 122 milhões para ajudar as crianças afetadas pelo desastre.

Fore, diretora do Unicef, alertou que milhões de vidas de crianças estão em jogo e que é preciso enviar de forma rápida uma resposta humanitária efetiva aos três países africanos, para prevenir surtos de doenças como a malária e a cólera. Foram montados “Hospitais de campanha” para prestar cuidados médicos e contabilizam-se hoje, 29.03, 271 casos de cólera. A Onu vai disponibilizar 900 mil vacinas e considera o ciclone um “desastre sem precedentes”. 

Além disso, a população afetada aumentou até as 794.035 pessoas, das quais 128.941 vivem em 143 refúgios criados pelo Governo e outras pessoas ainda em lugares sem água potável.

4. «Não há espaço para o desespero» – disse o Arcebispo da Beira, D. Cláudio Dalla Zuanna. E chamou a atenção para as necessidades imediatas e para um futuro de reconstrução.

A Igreja Católica é um recurso muito grande que queremos por à disposição. “Mais do que recursos económicos podemos dar o recurso de proximidade que temos com as pessoas”, salientou.

Depois de tratar das doenças, o “passo seguinte será o abrigo”, prossegue. Mas é difícil pensar em construir uma casa quando “pouquíssimas pessoas” podem contar com um salário numa terra onde “o salário mínimo está por volta de 80€”.

O arcebispo argentino afirma que “sozinhos não vão conseguir”. 

A Igreja Católica tem poucos recursos, não é possível “construir uma igreja de raiz”; desde a década de 70 as celebrações têm vindo mesmo a centrar-se em algumas capelas e centros polivalentes.

Neste contexto, adianta que “há muita gente que está a disponibilizar” ajuda, a contactar a arquidiocese e sabe que em Portugal há muitas “campanhas de angariação de fundos”.

“Com a ajuda de todos, esta pode ser uma oportunidade de fazer crescer a solidariedade entre nós”, frisou.