Ciclone Idaí: fome, sede e devastação ‘nunca vistas’

D.R.

1.Na noite de 14 para 15 de março, o ciclone Idaí (e daí) com chuvas intensas e ventos fortes da ordem 170-200kms/hora, entrou pelo corredor geográfico da Beira (Moçambique), do Zambeze e afluentes, continuando seu percurso como uma tempestade tropical atingindo a região leste do Zimbábwe e o Malawi, provocando inundações fluviais e repentinas, mortes, destruição de meios de subsistência e de propriedades. Foram devastadas áreas inteiras com muitas vítimas fatais, milhares de feridos e centenas de milhar de deslocados.  

Na Beira, com os seus 500 mil habitantes, a destruição atingiu 90% da cidade que ficou submersa. Faltavam os meios de resgate. Foram atingidas cerca de 1,85 milhões de pessoas no caminho direto do ciclone. Falta de comunicações. Gente encurralada. Falta de água potável. Fome.

O Secretário-geral da ONU, António Guterres, disse  “estar entristecido pela perda de vidas, destruição de propriedades e deslocamento de pessoas devido às fortes chuvas e inundações causadas pelo ciclone tropical Idaí”.

O Papa Francisco manifestou sua proximidade aos países africanos atingidos pelas inundações ‘devastadoras’.

2.A cidade da Beira foi “arrancada pela raiz”, nas palavras de Mia Couto. Um cenário desolador – ‘apocalíptico’ – com pessoas a lutar pelos pontos mais altos, em cima das casas ou empoleirados em árvores, à espera de um helicóptero que seria tábua de salvação. A destruição atingiu a cidade assim como muitas aldeias no percurso do ciclone.

(Imagino a tragédia naquela que era uma linda cidade como tive ocasião de verificar quando, em 29 de outubro 1974, aqui desembarquei num Boeing 747, Lisboa-Beira, apenas com 40 passageiros, mas com uma multidão a lutar por um lugar Beira-Lisboa. Eram os retornados – os portugueses perseguidos e massacrados pelos então governantes de ideias marxistas, maoistas, comunistas. E com o slogan de “abaixo os exploradores”. A bem da verdade, nunca tive qualquer problema, até pelo contrário, nos 13 anos em que fui diretor e /ou professor na Escola Secundária de Angoche, e Pároco da cidade). Mas, adiante.

Na Beira, o bairro da Manga, onde vivem milhares de pessoas foi um dos mais devastados na cidade. “Muitas das habitações nesta zona são precárias”. Com ventos ciclónicos, ninguém ficou com teto neste bairro. 

E sem água potável, pois grande parte das estações de água que fazem a distribuição para a cidade ficaram inundadas.

3.Muitas aldeias foram afetadas pelas cheias, pela intempérie climática. Ficaram submersas. A grande  preocupação é a segurança alimentar, hoje e no futuro. Uma avaliação aérea do Vale do Búzi “mostrou aldeias inteiras destruídas.” E gente, no cimo de um morro, rodeada de água por todos os lados, a gritar por socorro. Imagens de satélite o mostraram. Cerca de 920 mil pessoas devem ter sido afetadas no Maláui. Cerca de 82 mil deslocadas encontraram abrigo em escolas. O PMA procurou agilizar a ajuda alimentar a fim de chegar mais depressa, a cerca de 650 mil vítimas nas áreas mais afetadas. Mais uma vez, a alimentação vinha do ar! No Zimbabué, o ciclone atingiu 15 mil pessoas, com centenas de casas e pontes destruídas. E a hora do resgate foi-se apressando com ajudas de muitos nacionais e estrangeiros.

Com a maioria das regiões inacessíveis, é ainda difícil saber o número exato de pessoas afetadas. À medida que as águas baixam, sobe o número de mortos, os que não foram arrastados para o mar. 

4.Os números das vítimas do Idai, neste momento (28/03) apontam para 761 mortos, centenas de feridos e mais de 15 mil pessoas aguardando resgate urgente. Já foram registados os primeiros casos de cólera. Mas estes números tendem a subir.

São abrigos, as escolas e igrejas. O Programa Mundial da Alimentação (PMA), mobiliza ajuda alimentar de outros locais em Moçambique e da África do Sul. A agência aumentou o seu pessoal no país, com coordenadores de emergência, programadores e especialistas em comunicações e logística. A brasileira Karin Manente é a representante do PMA. 

5.O arcebispo da Beira afirmou que a falta “de água e comida são os elementos mais graves”, e realça a existência de uma população jovem como “sinal de esperança” para o futuro.

“No censo de 2017, 45% da população tinha menos de 14 anos. É gente jovem. Há uma vitalidade, uma esperança, um desejo de futuro, de abrir-se caminhos que vão ser uma força”, disse D. Cláudio Dalla Zuanna em declarações à Agência ECCLESIA. Estima-se que 48% dos afetados sejam crianças e 52% mulheres. 

O povo moçambicano está exposto e disposto a situações desastrosas. O religioso dehoniano – padre Marchesini – que vive no país lusófono desde 1974, médico-cirurgião, fala num “povo extraordinário” que sabe “enfrentar situações desastrosas” e, ao longo destes anos, “sempre houve desgraças”, com a guerra, inundações, a miséria e a fome, o “desastre financeiro da nação com dívidas. Diz que “as pessoas” são o que mais gosta em Moçambique, um povo capaz de “suportar situações extremas”, sobretudo, “a pobreza levada com dignidade, com silêncio”.