In memoriam: D. Maurílio Gouveia, Pastor «até ao fim»

Casa de Saúde S. João de Deus | Funchal, 8.03.2017 | D.R.

Em 12 de agosto de 2018 em Fátima D. Serafim, bispo emérito de Leiria-Fátima, pediu-me encarecidamente para visitar D. Maurílio Gouveia no Eremitério de Gaula quando chegasse à Madeira. «Está bastante doente; dê-lhe a minha bênção».

No dia 26 ele presidia à adoração do Santíssimo na capela com umas vinte pessoas. Com o Irmão João Carvalho, tivemos a graça de estar com ele, encantados com a sua serenidade, lucidez, paz e alegria espiritual a falar de que tinha um cancro no pâncreas, viveria poucos meses; que não aceitou químicos, tem estado bem e quer cumprir a sua missão de pastor até ser chamado dentro de poucos meses.

A missão de bispo levou-o a publicar dois livros, um sobre os 30 anos do Eremitério e outro sobre Nossa Senhora que nos ofereceu; e que tinha na gráfica um terceiro sobre a Eucaristia, inspirado nas linhas pastorais de S. João Paulo II. Entendia que eram dois dos temas mais urgentes na Igreja, Nossa Senhora e a Eucaristia. Que era incorreto falar de presença simbólica ou figurativa de Jesus Cristo na Eucaristia à maneira dos protestantes. Acrescentou que Jesus diz “comer o meu corpo”, como pão.

Com alegria de responder ao pedido de D. Serafim, dei-lhe bênção e pedi a bênção dele para nós. A Irmã Helena tentava evitar o seu cansaço, mas ele insistia em falar, com entusiasmo, sobre um sacerdote do Eremitério, já falecido e a profecia dele em 2014. Cito de memória ad sensum: haverá problemas graves na Igreja, revoltas de bispos contra bispos, cismas mais graves que os dos protestantes, etc.

A visita foi de alegria para ele e uma prenda do meu aniversário. Ofereceu o seu livro «Magnificat» e prometeu convidar-nos para a apresentação do outro, «Eu sou o Pão da Vida» a fazer por D. Francisco Senra Coelho. «Fui eu que o crismei, ordenei, enviei para Roma estudar, consagrei bispo…».

Na segunda visita em 9 de setembro já não teve forças para estar até ao fim da adoração e a Irmã pediu-me para eu dar bênção do Santíssimo. Com o Irmão Luis Vieira pudemos visitá-lo. Animado falou da sua morte próxima, do seu desejo de  «ser pastor até ao fim», do livro «Eu sou o Pão da Vida» e de um pequeno «Rumo ao Céu».

Impressionou a serenidade, o gosto de falar sobre a sua morte próxima de pastor como os patriarcas e grandes santos, hoje gesto raro, em que morte é tabo. Na visita de 11 de novembro já estava a descansar e também fui eu que dei a Bênção. Falou-nos de novo longamente e ofereceu autografado o livro «Eu sou o Pão da Vida. Sempre a mesma serenidade, alegria e gratidão pela assistência médica, os cuidados, a sua missão e o livrinho que iria sair, «Rumo ao Céu». Na nossa última visita, 16 de dezembro, a Irmã Helena pediu-me para fazer a procissão com o Santíssimo à volta da capela por ser o aniversário da sua bênção há 29 anos. Nesse dia houve forte tempestade que logo passou e o sol voltou e por isso se fez a procissão em ação de graças. Gostava, disse ela, que neste III Domingo do Advento, se agradecesse com alegria, como no dia da inauguração.

Após  a procissão D. Maurílio estava  com um sobrinho no gabinete. Sempre muito lúcido mas mais cansado. Falámos pouco e ofereci-lhe com dedicatória de «votos de Natal abençoado», a ele e ao Eremitério, os meus livros apresentados a 11 de dezembro: «De Guadalupe a Fátima» e «Dizer o infinito em ais de brilho e espanto». Despedimo-nos sem o cansar e sem incomodar a visita do sobrinho.

Tivemos notícias que foi enfraquecendo sempre mais até que no dia 19.03.2019 ainda pedimos por ele na festa de S. José, de manhã, e, à tarde, já rezámos por ter partido «rumo ao Céu» «com paz, esperança e alegria» (R.ao C. p.12). Que belo dia o de S. José para esta viagem acompanhada e por quem! 

Poderia trazer outras memórias, como o facto de nos termos conhecido a frequentar a mesma universidade Lateranense em Roma, ele já em pós-graduação em pastoral, a sua paixão, dizia-nos; e nós, a terminar a licenciatura em teologia. Lembramos a sua generosa colaboração nas celebrações do V Centenário do nascimento de S. João de Deus em 1995; o encontro com ele para requalificar a cripta de nascimento do santo, na Igreja Matriz de Montemor-o-Novo; a festa de S. João de Deus no Trapiche em 08.03.2017 presidida por ele; mas ficará para outra ocasião.