Caminhar juntos: vivendo sob a síndrome do medo

Guernica, Pablo Picasso

1.Não exagero se disser que nestas duas décadas do início do século XXI todos vivemos” sob a síndrome do medo”, considerando o medo como “a perturbação angustiosa do ânimo por riscos ou males que existem realmente ou se produzem na imaginação ou se aumentam na imaginação” (Dicionário de Língua Espanhola)

São marcos angustiantes: o 11 de Setembro 2001 em New York, o 11 de Março e 11 J em Madrid e em Londres, e a proliferação infernal de ataques terroristas a partir da guerra do Iraque. Multiplicam-se por todo o mundo descalabros terríveis na política, na sociedade, na economia no pandemónio das guerras, em particular no Médio Oriente, Centro de África, Afeganistão, Venezuela, … uma guerra mundial “aos pedaços”– espalhada pelo planeta, mas globalizada – com perseguições étnicas e religiosas, com genocídios, para não falar do Bin Laden e das ‘atrocidades do Estado Islâmico… E não podemos esquecer as “matanças” dos terroristas que surgem em todo o mundo, sobretudo nas grandes cidades e em lugares onde há gente, como hotéis, supermercados, escolas, discotecas,…Um pandemónio.

2.E ainda as terríveis catástrofes naturais em tsunamis, tornados, terramotos, ciclones devastadores, como o da Beira (Moçambique), Malawi, Zimbábue,…. O crime organizado e o narcotráfico converteram-se numa epidemia mortífera pior que qualquer crise económica, com 100 mil mortos por ano; “a insegurança é uma praga que mata mais gente que qualquer outra epidemia conhecida e destroça mais lares que qualquer crise económica”, segundo dados da OEA (Organização de Estados Americanos). Um cidadão nunca se sente seguro na rua ou em casa, de dia ou de noite. Para andar na estrada não serve um carro qualquer mas é preciso ter um carro seguro, “uma arma” a valer para poder enfrentar condução perigosa dos outros motoristas e o perigo da gente sem rosto – os encapuzados. A recessão económica mundial tornou-se uma enorme dor de cabeça para todos os Governos. Abunda por todo o lado a “corrupção” que envolve milhões. E os mais ricos são cada vez menos e os mais pobres são cada vez mais. São os ‘novos escravos’. O mundo parece doido. E a Natureza parece estar-se vingando das atropelias movidas pelo homem.  As próprias medidas de segurança acabam por despertar novos medos.

3.E cito Teófilo Cabestrero, no seu livro entre el sufrimiento y la alegria: “As novas gerações, segundo dados psicossociais, perdem a capacidade para sofrer e viver com dignidade. E as causas estão nas gerações de adultos que impuseram um sistema de vida egoísta, cómodo e consumista, apoiado e mantido por interesses económicos, ideológicos e políticos, e pela inconsciência de tanta gente ‘consumista’ – vítimas complacentes.” E o pior é que “em todos os países sobem os índices de violência familiar e social, assim como o stress, as depressões e os suicídios”. (idem) Nem os idosos podem dormir sossegados pois são molestados, torturados por ladrões a fim de lhes extorquirem suas pequenas reservas, necessárias para viver ou para os medicamentos no caso de surgir uma doença.

4.Com razão diz o teólogo alemão Jurgen Moltman, que “um dos sonhos da sociedade moderna é ser felizes sem dor e iludir todo o sofrimento. Mas como isso é inalcançável, procura-se acalmar as dores, evitam-se os sofrimentos e afasta-se a paixão de viver com responsabilidade. Mas a vida sem esta paixão e sem disposição para o sofrimento torna-se irresponsável, superficial e sem sentido”. (citado por T.C, idem.)

O conhecido psiquiatra espanhol Enrique Rojas escreveu que “há uma grande falta de maturidade nas pessoas e que esta é a causa principal da atual crise familiar e social: “Estamos numa sociedade infantil, adolescente, com modelos ridículos e uma imaturidade afetiva ou sentimental muito extensa, julgando que a felicidade está no bem estar e no prazer. Vejo as pessoas muito débeis, muito vulneráveis, muito pouco maduras”. Ele mesmo escreveu em 1992 um livro intitulado “El hombre light: una vida sin valores, que em quatro anos teve onze edições. Fala do Ocidente como uma sociedade doente na qual “o homem light, é um sujeito que leva como bandeira uma tetralogia nihilista: hedonismo-consumismo-permissividade-relatividade. Estamos perante um homem sem substância, entregue ao dinheiro, ao poder, ao êxito e ao gozo ilimitado e sem restrições. O homem light não tem referências, tem um grande vazio moral e não é feliz ainda que tenha materialmente quase tudo. Isto é grave.” 

5.Bento XVI disse: “apesar de tantas formas de progresso, o ser humano é o mesmo de sempre: uma liberdade tensa entre o bem e o mal, entre a vida e a morte”.  Alguns antropólogos afirmam que na nossa era tão adiantada científica e tecnologicamente, os humanos nos deixamos levar pelos instintos mais primitivos e ferozes de nossos primeiros antepassados, sem que tenhamos agora as razões com que eles se justificavam. E a neurologista italiana Rita Levi-Montalcini, Prémio Nobel de Medicina, afirma: “vivemos dominados por impulsos de baixo nível, como há cinquenta mil anos.” E Cabestrero termina este capítulo do seu livro dizendo: “E um dos impulsos de baixo nível é, precisamente, o excesso de medos que gera uma grande variedade de fobias patológicas. Vivemos sob a síndrome do medo.”

Serão os seres humanos hodiernos capazes de superar este medo e ‘refazer’ a família humana, “cuidar da casa comum’, ‘ser irmãos’, ‘criar família’? – respondendo ao apelo frequente, insistente – do Papa Francisco?  Eis a grande questão na qual todos devemos estar empenhados.