Ouvir D. Maurílio Gouveia era ouvir um pai, escreve D. Tolentino Mendonça

Foto: Ecclesia

Por Rui Jorge Martins / SNPC

«Ouvi-lo era ouvir um pai. Por isso, que tenha partido no dia de São José, foi certamente um sorriso de Deus»: é com estas palavras que o arcebispo D. Tolentino Mendonça conclui a evocação de D. Maurílio Gouveia, arcebispo emérito de Évora, falecido a 19 de março, aos 86 anos, e como ele natural da ilha da Madeira.

Em texto publicado hoje (21/03) no Diário de Notícias-Madeira, o arquivista e bibliotecário da Santa Sé observa que D. Maurílio se evidenciou na vida eclesial e política portuguesa, sobretudo após a transição do regime ditatorial para o democrático, a 25 de abril de 1974 – ano em que foi ordenado bispo –, por aplicar os princípios conciliares.

«O espírito do Concílio Vaticano II, com a redescoberta de uma eclesiologia de comunhão, com a refontalização vigorosa do agir eclesial na Sagrada Escritura e na polifónica riqueza da Tradição, com a vontade explícita de realizar um diálogo aberto e frutuoso com o mundo, trouxe também a necessidade de encontrar um estilo novo de Pastor», sublinha.

Como bispo, acompanhou a construção da democracia, e «a própria Igreja precisava atualizar-se internamente com as novas linhas do concílio e encontrar o seu lugar no espaço público, como interlocutora credível no Portugal democrático», uma «enorme tarefa» que viu em D. Maurílio «um dos protagonistas decisivos», primeiro como vigário geral do patriarcado de Lisboa, e depois à cabeça da arquidiocese de Évora.

Mas o que mais sensibiliza D. Tolentino é o retrato que se pode «desenhar a partir de dentro, vislumbrando a sua alma de pastor», do qual extrai três traços relevantes, começando pelo estímulo à «participação do laicado».

«Acolhia com abertura o despontar de novos carismas e movimentos eclesiais, porque para ele a Igreja era um corpo que encontrava a sua unidade na diversidade de dons e chamamentos», assinala.

A segunda dimensão realçada no texto é a «santidade», não «idealizada, mas real, com vidas, rostos e nomes, uma “santidade da porta ao lado”, como a definiu recentemente o papa Francisco», dando a ver que a Igreja «não se reduz àquilo que os olhos são capazes de ver».

«O terceiro traço que destacaria no seu retrato tem a ver com a sua paternidade espiritual», que nos anos que viveu como arcebispo emérito de Évora «foi certamente o seu ministério mais abundante. Ouvi-lo era ouvir um pai. Por isso, que tenha partido no dia de São José, foi certamente um sorriso de Deus», conclui.

Em dezembro de 1976, D. Maurílio escrevia na revista oficial do episcopado português: «Todos temos sentido, sobretudo nestes últimos tempos, a profunda evolução por que está a passar a sociedade portuguesa, onde se não deixam de refletir as tensões, as aspirações e as mudanças estruturais do próprio mundo. Estão a abrir-se as portas duma nova época, com aquelas inevitáveis convulsões que sempre marcam semelhantes momentos da história».

Por isso, prosseguia, «nas águas revoltas do momento que passa é necessário saber distinguir o que há de positivo e de negativo, os valores e os contravalores. Estamos numa hora em que a função do discernimento é essencial».

No mesmo número da “Lumen”, o então bispo auxiliar de Lisboa vincava a necessidade de a fé cristã aparecer «aos trabalhadores como verdadeira e plenamente libertadora, e isto sem confusões com quaisquer ideologias».

No ano anterior, também na publicação do episcopado, D. Maurílio, referindo-se à “revolução dos cravos” durante uma peregrinação de emigrantes portugueses em França, acentuava que os católicos «devem considerar-se estimulados no seu compromisso cívico» pela fé cristã, qie «passa também pelo empenhamento social e político».

«Os cristãos peregrinam no tempo com os outros homens, lado a lado. Com eles constroem a história. Não estão imobilizados num passado sem vida, mas abertos em esperança, a um futuro, no qual se ouve a voz clara de Cristo que chama sempre», e por isso «os cristãos portugueses são chamados a empenhar-se na construção do país, em união com os outros homens de boa vontade, lutando por uma sociedade livre, fraterna, próspera, progressiva e justa».

Nesse sentido, continuava D. Maurílio, «recusarão tudo quanto seja ódio, violência, mentira, discriminação e opressão», porque «os cristãos conscientes de Portugal não querem um país onde reine a injustiça social, como não aceitam uma sociedade onde domine o ateísmo e onde a sua fé cristã corra o perigo de asfixia».