Papa Francisco: Igreja «em saída» pela dignidade humana

Papa Francisco: Igreja «em saída» pela dignidade humana

Foto: Ansa / Osservatore Romano

Veio do fim do mundo

O cardeal Jorge Mario Bergoglio, então com 76 anos, entrara para o Conclave de 2013, fora das listas dos “papáveis” e já a preparar-se para resignar ao cargo de arcebispo de Buenos Aires. E apareceu como novo Papa com o inédito nome de Francisco, primeiro Pontífice jesuíta e também do continente americano. Fez na quarta-feira passada seis anos de Pontificado.

Na sua primeira intervenção, desabafou: “Sabeis que o dever do Conclave era dar um bispo a Roma: e os meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao fim do mundo”.

Em estado de missão

Em Buenos Aires, era o “pastor das pessoas pobres, voz dos que não têm voz, rosto dos que não têm rosto”, confessando na Catedral como qualquer padre. Como bispo e cardeal, nunca teve medo de enfrentar instituições para defender a dignidade humana. Assim como o fez em Estrasburgo, no Parlamento Europeu, em 2014.

Andava nos transportes públicos e cozinhava suas refeições. Atualizou a Igreja Católica na Argentina e teve influência teológica na América Latina, onde reside a maior percentagem de católicos no mundo. Colocou a arquidiocese de Buenos Aires em “estado de missão” e em saída ao encontro “dos mais necessitados”.

Gestos simples 

Usa expressões simples mas gentis nas suas conversas de ensinamento ao povo de Deus e a toda a humanidade. Saúda a todos “irmãos e irmãs”, tendo o cuidado de distinguir e frisar a diferença sexual. Usa verbos e expressões como comover, curar, ajudar, partilhar, cuidar, amar, visitar, sair em missão, Igreja de portas abertas, ouvir o grito dos sem voz, acolher os refugiados, presente nas tragédias e dramas da humanidade, reformar e purificar a memória da Igreja, infinitude da misericórdia divina, os jovens são o ‘agora’ de Deus, encontros inter-religiosos, ecumenismo, contra guerras e tráfico de seres humanos, e preocupa-se com lutas internas na Igreja: os irmãos desprezados nas comunidades, a procura do carreirismo entre o clero, o mundanismo,… 

Médico  de família

A jornalista Andrea Monda, em artigo no L’OSSERVATORE ROMANO, do passado dia 13, comparou Francisco a um “médico de família” – já que ele falou da Igreja como um grande “hospital de campo” – cuidando das almas e dos corpos das ovelhas do rebanho que lhe foi confiado.

Vai pelo mundo fora armado unicamente com aquela mala de mão que leva consigo e assemelha-se precisamente a um médico que vai levar os remédios que os doentes precisam. «E tu abres-lhe a porta, porque é o “teu” médico, o teu médico de família, é de casa.» 

Presidiu a 3 Jornadas Mundiais da Juventude. Procura pôr os jovens a caminhar como semente de esperança no presente e no futuro da humanidade. Mas reconhece que há muitos milhões de jovens doentes. Anima os que encontra, a evangelizar outros jovens. Acarinha as crianças, os idosos, os doentes, as mulheres e crianças, todas as vítimas da violência doméstica, os abandonados, oprimidos, os novos escravos. Não tolera hipócritas, mentirosos ou corruptos. Luta pela paz. 

O mestre

Francisco fez até hoje, nestes seis anos, 27 viagens internacionais, nas quais visitou 40 países. Uma delas foi ao Santuário de Fátima onde canonizou Francisco e Jacinta, os pastorinhos, em 2017.

Promoveu o Sínodo sobre a Família (2014 e 2015), e o Sínodo sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional” (2018), com uma reunião pré-sinodal composta por quatro centenas de jovens de todo o mundo, e promoveu ainda um Jubileu da Misericórdia (dez.2015-nov.2016).

Publicou: encíclicas ‘Laudato si’ (ambiente), a ‘Lumen Fidei” (reflexões de Bento XVI), e as exortações apostólicas ‘Evangelii Gaudium’ (alegria do Evangelho), ‘Amoris Laetitia’ (alegria do amor) e “Gaudete et Exsultate” (santidade). 

Em fevereiro 2019, convocou uma inédita cimeira mundial, com presidentes de conferências episcopais e responsáveis de institutos religiosos, sobre a proteção de menores na Igreja e a crise dos abusos sexuais. Assinou o Documento da Fraternidade, em Abu Dhabi, com o Imã Al Tayeb num encontro inter-religioso ‘cristianismo-islamismo’. Celebrou para os católicos e 4 mil muçulmanos, na Península Arábica.

A reforma da Cúria Romana, com a ajuda de um Conselho de Cardeais dos cinco continentes, já levou à criação de dois dicastérios (Leigos, a Família e a Vida; para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral) e de várias medidas na administração económico-financeira da Santa Sé e do Estado do Vaticano.

Desafios atuais

O Papa Francisco aposta no envolvimento da Igreja nos desafios globais da humanidade preocupando-se com as periferias sociais, económicas e existenciais. E quer a Igreja a ajudar nas respostas a desafios como: a vida, a morte, a ecologia, a justiça social, a imigração, os refugiados, as desigualdades sociais, a desnuclearização, a paz, o materialismo, o problema da família,…