Missão profética da Igreja na justiça e na solidariedade

D.R.

Comunhão fraterna

“A caridade nos ensina que somos responsáveis não só pelo bem-estar material dos outros, mas também pelo seu bem moral e espiritual…”, ensina o cardeal Sarah. Não podemos ignorar o facto de que uma certa ideologia que exalta os direitos do indivíduo pode ter como consequência a criação de isolamento e solidão. Conduz à “chaga do egoísmo” que envenena fortemente a vida hodierna.

Quando o apelo à comunhão é negado em nome do individualismo é a nossa humanidade que sofre, enganados pela miragem impossível de uma felicidade obtida sozinho. A verdadeira felicidade exige o contributo de todos. Exige que façamos desta aldeia em que habitamos por algum tempo, a nossa “casa comum” e consigamos viver sem violências nesta breve passagem, para entrarmos de novo na eternidade.

Missão profética

“Às vezes pensa-se que as preocupações da Igreja, a sua tenaz resistência a certas ideias da moda, são movidas pela sede ou nostalgia de poder. Mas não é este o caso. A Igreja é movida por uma sincera preocupação para com a humanidade e para com o mundo. Suas atividades não são movidas por um desejo de condenar ou recriminar, mas por uma onda de justiça e de misericórdia que também deve ter a coragem de chamar as coisas pelo seu nome. Só desta forma podemos expor as raízes do mal, que continuam a intrigar a mente do homem moderno. Esta tarefa da Igreja é chamada missão profética “.  Perante o pecado do homem, do ser humano, a misericórdia de Deus é infinita. Como diz a Sagrada Escritura, numa imagem bela e radical, “Deus esquece o pecado do homem, deitando-o num poço muito fundo e pondo-lhe um grande calhau por cima.” Esta é a realidade da misericórdia divina, que muito meditámos no Ano da Misericórdia e que leva as instituições e sociedades a reintegrarem o que Deus purificou e abraçou com todo o carinho, como “ovelha perdida” que volta ao rebanho, como “o filho pródigo” que volta à casa do pai, como “o doente curado” – vai e não peques mais, como “Zaqueu” restituindo o dobro do que roubou, como “Madalena” chorando seus pecados aos pés do Mestre, como “Pedro” negando o Mestre e sendo logo escolhido para ser Chefe da Igreja,… Uma misericórdia sem limites.

Justiça social 

No Antigo Testamento, explicou o Cardeal Sarah, “um profeta era um homem chamado e enviado por Deus para comunicar a Sua vontade ao seu povo”. Foi sempre uma missão difícil, como é ainda hoje ser líder, sofrendo ameaças, sendo desprezado, incompreendido, escorraçado,…

“É evidente que o apelo a uma maior justiça social faz parte da missão da Igreja”, que “não pode permanecer em silêncio perante o fato de que muitas pessoas morrem porque não veem satisfeitas as suas necessidades básicas enquanto outros enriquecem explorando o próximo. Morrem de fome por causa das guerras, morrem vítimas dos bombardeamentos morrem por falta de medicamentos, morrem às mãos dos ditadores, morrem na fuga à procura de paz e sustento, no deserto do Sahara ou no Mar Mediterrâneo, e a voz da Igreja é de caridade e ajuda.

No entanto, a dimensão profética de nossas palavras e ações não pode ser limitada a esses fenómenos externos sem ir às raízes morais dessas injustiças. A corrupção, a acumulação de riquezas, a violência, vivem à custa da comunidade, são tumores que consomem uma sociedade por dentro. Também não podemos silenciar o fato de as raízes da atual crise financeira estarem na desenfreada ganância e sede de dinheiro sem escrúpulos. Poder, dinheiro e sucesso são as grandes ilusões do nosso tempo.

Solidariedade

“No entanto, o Santo Padre identifica uma dimensão ainda mais profunda. A Igreja é profeta neste mundo para denunciar a ausência de Deus. A sociedade secularizada organiza-se, sem referência a Deus, sendo afetada por uma pobreza mais trágica do que a material, uma pobreza representada pela rejeição e exclusão completa de Deus da vida social e económica, pela revolta contra as leis divinas e naturais.

A principal responsabilidade da Igreja é lembrar a cada geração que esta dimensão espiritual é vital. O profeta de hoje deve dizer ao mundo que Deus existe, que, sem Deus a partilha de vida e fraternidade se dissolve em utopia vazia, pois “o homem tem uma vocação sobrenatural, a voz de Deus fala e a Ele devemos  responder um dia “.

Os bem-aventurados da comunidade segundo Lucas são os discípulos que, tal como Jesus, se inserem numa tradição profética. … um determinado grupo de discípulos é convidado, de maneira especial, à conversão, por meio da solidariedade com os pobres e sofredores.

E concluiu o cardeal Sarah: “é preciso despertar as consciências das pessoas em relação aos direitos e deveres dos nossos irmãos, mas também aos nossos deveres para com os ‘direitos’ de Deus. Tudo isso acontece no contexto da comunhão orientada pelo princípio da reciprocidade, com vista ao bem temporal da humanidade e à sua salvação escatológica.